Arbitragem: Os Bastidores do Apito‏

Além das dezessete regras do futebol, o curso básico de arbitragem ensina a história do futebol, legislação desportiva, relatórios, medicina psicologia do esporte e conceitos de preparação física. Além disso, o aluno realiza um estágio supervisionado nas categorias de base do futebol de São Paulo para completar a preparação rumo à  profissionalização. ´´São três fases importantes e reprobatórias que o aluno deverá concluir: a teórica, a física e a prática“, afirma o diretor da escola de árbitros Roberto Perassi, que dirige o curso com o auxílio do vice-diretor da escola e presidente da Comissão Estadual de Árbitros de Futebol (CEAF-SP) José Manoel Evaristo, o homem forte da arbitragem em São Paulo e principal responsável pelo aparecimento de novos valores nesse meio.

  A partir daí, o árbitro inicia seu trabalho na federação local, nas divisões inferiores, até atingir a primeira divisão e receber a indicação para o quadro nacional (CBF), no qual poderá apitar jogos do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Os que se destacam são indicados pela comissão de arbitragem da Confederação Brasileira de Futebol para integrar o quadro internacional (FIFA), culminando, assim, no ápice da carreira de um árbitro.
  Junto com mais nove árbitros brasileiros, Paulo Cesar de Oliveira integra um seleto grupo de juízes internacionais, no qual ingressou em 1999. Penúltimo de onze irmãos, o professor de Educação física ascendeu rapidamente na arbitragem. ´´Eu entrei para o curso e, já em 96, fui direto para a Série A3, devido às minhas boas atuações. No mesmo ano, integrei o quadro nacional e, no ano seguinte, passei direto para a Série A do Brasileiro“, lembra, ´´tudo isso, graças ao dom que deus me concedeu e pela experiência que eu já tinha no amador“.
  Eleito o melhor árbitro paulista e brasileiro por vários veículos de comunicação e instituições, desde 199, Paulo César de Oliveira vê a semifinal do Brasileiro de 1997 como o momento mais marcante de sua carreira. ´´Foi meu primeiro jogo, no Maracanã, com mais de 90 mil torcedores“, recorda o árbitro, que gosta de ouvir samba e pagode, ir ao cinema e de retornar à sua cidade natal nos momentos de folga. Dono de um currículo invejável, Paulo César, pretende continuar contribuindo com a arbitragem, mesmo depois de aposentar o apito. Para ele, a dedicação, o comprometimento e o profissionalismo são receitas fundamentais para se formar um bom árbitro.
A invasão Feminina
 
  A Escola de Árbitros da FPF também derruba o velho conceito de que o ´´futebol é coisa de homem“. Dentre os 200 alunos que ingressam no curso deste ano, trinta são mulheres. ´´Nunca se deve pensar nas diferenças entre os homens e as mulheres, mas na capacidade técnica, física, psicológica do árbitro para apitar determinada partida“, afirma Perassi.´´Eu fico feliz de ver as mulheres, conquistando o espaço delas, apesar de todo o preconceito. As oportunidades têm sido oferecidas para aqueles que têm competência, independente do sexo“, afirma Paulo César. ´´A Silvia [Regina de Oliveira] e a Ana Paula [de Oliveira], que são duas árbitras de São Paulo, tiveram uma influência muito grande nisso. Elas fizeram um excelente trabalho no Paulista do ano passado e estão no quadro de árbitros da FIFA“, elogia. De fato, a qualidade da dupla tem sido reconhecida. Recentemente, ambas foram convocadas pela FIFA para apitar o torneio de futebol nos Jogos Olímpicos de Atenas, na Grécia.
  Principal árbitra na atualidade, a mauaense Silvia Regina de Oliveira foi a primeira a apitar um jogo masculino pela confederação Sul-Americana, no ano passado, cujo feito considera marcante nos seus 21 anos de carreira. ´´Considero-me uma pessoa privilegiada, pois participo da elite da arbitragem nacional e tenho oportunidade de fazer partidas internacionais, como agora, no Sul-Americano Feminino no Paraguai“, afirma a juíza, que fez o curso da FPF 1980 para tentar seguir carreira no jornalismo esportivo. Apesar do orgulho em servir de espelho e abrir as portas para as mulheres na arbitragem, Silvia se preocupa com os objetivos de muitas candidatas de, simplesmente, aparecer na TV. ´´O trabalho é árduo e nosso objetivo é apitar bem, e não fazer sucesso. A arbitragem deve ser encarada com seriedade“, diz.
  A outra musa, a quem o árbitro se refere, é a jovem assistente Ana Paula de Oliveira, estudante de jornalismo e funcionária pública em Hortolândia. Ana Paula não encontrou dificuldades para entrar no ramo esportivo. ´´Como eu sou a filha mais velha, acompanhei muito meu pai, que também era árbitro. Quando ele ia trabalhar, eu ia junto aos jogos, tanto para assistir como para trabalhar na mesa“. Detalhista, a assistente busca o máximo de informações para errar o mínimo. ´´Eu tenho o hábito de assistir os jogos que faço. Vejo tudo o que foi falado nos noticiários esportivos, revejo os meus lances, onde eu estava, qual era a minha colocação no momento do passe, o que eu acertei e quando eu errei“, explica. Recém-integrada no quadro de arbitragem da FIFA, Ana Paula não conseguia esconder a empolgação no Aeroporto Internacional de Guarulhos, às vésperas do embarque para o Paraguai, quando concedeu entrevista exclusiva à revista Futebol Paulista.
Por dentro da bola
  Sílvia Regina e Ana Paula estão fazendo escola, Uma das alunas da escola de Árbitros da FPF que se espelhou no trabalho das árbitras em atividade é a professora Débora Morais Frik dos Santos. Semanalmente Débora sai do Guarujá, onde reside há 11 anos, para acompanhar o curso na capital.
  Débora Frik, que pretende ser árbitra central, tomou conhecimento da Escola de Arbitragem através de uma matéria veiculada por um telejornal e ingressou no curso neste ano. ´´Eu não gosto de rotina. Como eu já curtia futebol, vi uma matéria na televisão, me interessei  e hoje estou fazendo o curso de arbitragem“, diz.
  A paixão da morena pelo esporte começou cedo. ´´Quando eu era pequena, pensava em ser jogadora de futebol“, lembra. Formada em Educação Física na Fefis/Unimes, em Santos, Débora atualmente trabalha para a Prefeitura do Guarujá dando aulas, inclusive de futebol, para portadores de deficiência mental.
  Quanto ao curso de árbitros, Débora Frink diz estar adorando. ´´A parte teórica, das regras é um pouco pesada, mas os palestrantes contam histórias e fazem uma aula extrovertida e alegre, facilitando o acompanhamento“diz. Para ela, todos os alunos são tratados da mesma forma, independentemente do sexo, pelo menos, com relação aos palestrantes. ´´Quando eu comecei, sempre ouvia uma gracinha. por exemplo, quando tinha uma dúvida ou dava uma resposta errada, eu escutava um cochicho, uma brincadeirinha dos alunos“, afirma. ´´Mas hoje elas já se acostumaram“, garante.
   Entretanto, é preciso ter muito preparo para que o aluno consiga se diplomar na Escola de Arbitragem, afinal, durante os 10 meses de curso que antecedem o estágio são realizados testes físicos simulados, além das provas finais física e teórica. Assim, além de cuidar da alimentação, Débora Frik treina seis vezes por semana para manter a forma, entre corrida, musculação, spinning e ginástica localizada. ´´Antes eu me exercitava por conta, mas agora, sou supervisionada pela triatleta Nelma Raizer, que me acompanha e divide o meu treino“ diz a futura árbitra.
   Como se pode ver a prática da arbitragem envolve companheirismo, esforço, dedicação e, acima de tudo, cuja atuação vai muito além do apito final.