Ainda sobre as Arenas da Copa: um outro olhar

Fausto Amaro Ribeiro Picoreli Montanha
14.08.2013

O tema já foi visto e revisto. Mas tive de voltar a ele nesse texto. Não
apenas pelas novas polêmicas que cercam o Consórcio administrador do
Maracanã e os duelos entre os clubes, notadamente Vasco e Fluminense, para
definir seus espaços no estádio. A despeito dessas novas notícias, meu
texto é menos factual. Explico o porquê. Normalmente escrevo além da conta
em meus trabalhos acadêmicos e sempre sobram muitas páginas não
aproveitadas. No caso específico desse texto, trata-se de uma breve
reflexão sobre os estádios, que se inseria em um artigo onde discutia a
questão do corpo no futebol do Rio de Janeiro. Justificativas prestadas,
posso começar o meu texto.
A torcida no futebol encontra-se em uma dimensão do estádio previamente
designada. Obviamente em conquistas importantes de seu clube era comum os
torcedores invadirem o gramado. Essa era uma cena emblemática do antigo
Maracanã, por exemplo. Assim como os jogadores, os torcedores sujeitam seus
corpos à disciplina e à hierarquização de um estádio. Organização, aliás,
que se aumenta e se complexifica ano após ano. Os espaços dentro do estádio
são cada vez mais setorizados, compartimentados e divididos por classes
socioeconômicas.
De um lugar que congregava as diferenças, os estádios de futebol tendem a
mimetizar muito mais os novos arranjos da sociedade. Vemos isso de maneira
bem clara na atual reforma do Maracanã1. Estádio este que já vinha sofrendo
intervenções no sentido de torna-lo moderno desde o início do século XXI. A
modernização trouxe a extinção da geral e de uma peculiar parcela de
torcedores conhecidos como “geraldinos” (assistiam aos jogos de pé, sem
nenhum conforto e com uma visão muitas vezes apenas parcial da partida).
Iluminação na cobertura do Maracanã. Foto: Érica Ramalho – Governo do Rio
de Janeiro.
O discurso que acompanha essas transformações fala em melhor qualidade do
espetáculo, agora tanto esporte quanto entretenimento, para os
espectadores, maior segurança e melhor qualidade de imagem para as TVs que
cobrem as partidas (além de outras facilidades de acesso ao estádio). Na
prática, normalmente tem-se a redução do tamanho de público nos estádios e
um consequente aumento de preços. O Maracanã, que já recebeu públicos
superiores a 100 mil pessoas, possui agora lotação máxima definida em 76
mil pessoas (anteriormente, o limite estava em 86 mil)2.
Gostaria de evidenciar um outro aspecto menos lembrado. Há nessa
“evolução” dos estádios de futebol um componente que diz respeito ao
“corpo” das torcidas e que é bastante premente. Ora, se pensarmos nos jogos
do início do século XX (vide figura abaixo), observaremos públicos ainda
não tão massificados e um certo código de etiqueta na vestimenta trajada
durante esse verdadeiro evento social das elites. Com a popularização do
esporte, impulsionada pela profissionalização dos atletas, e a entrada de
um público formada por integrantes das classes mais populares havia a
necessidade de construção de maiores estádios que pudessem abrigar essas
novas massas apreciadoras do esporte bretão. No Rio, primeiramente São
Januário, com capacidade oficial para 24.584 pessoas em sua inauguração (em
1927), e o próprio Maracanã, construído para a Copa de 1950, eram palcos
para a presença de plateias volumosas e de múltiplas origens.

Laranjeiras no início do século XX. Fonte: Acervo FluMemória (reprodução)3
Agora, parece-me que essa tendência plural tende a se reduzir. Por mais
utópico e romântico que soe, o desenho clássico dos estádios que citei
favorecia uma integração entre os corpos tanto de ricos quanto de pobres
nos mesmos espaços. O novo Maracanã com seus inúmeros camarotes e ingressos
a preços provavelmente elevados tende a, como já disse, limitar a mistura e
levantar fronteiras. O interessante disso é que esse processo de delimitar
os espaços é algo bastante presente na própria arquitetura das cidades, com
bairros que designam status social (o Rio de Janeiro no início do século XX
desenvolveu-se nesse sentido). Por outro lado, nas ruas, o usual é
predominar o contato entre os diferentes. Os estádios, assim, por
diretrizes da autoridade maior do futebol, a FIFA, optam por reproduzir uma
divisão mais próxima dos bairros que da realidade das ruas.
Essa segregação encontra eco em uma interpretação da atual condição
humana, tida como dotada de “passividade corporal em demasia”: “Hoje em
dia, ordem significa justamente falta de contato” (SENNET, 2010, p. 18).
Justamente esse afastamento entre os corpos humanos é buscada nos novos
estádios entregues para a Copa das Confederações e que será também o padrão
na Copa do Mundo. Cada vez mais, o “individualismo moderno sedimentou o
silêncio dos cidadãos na cidade” (Ibid., p. 360).

Referências
SENNET, Richard. Carne e Pedra. Rio de Janeiro: Record, 1999.
[1] Disponível em:
<http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Fluminense/0,,MUL337409-4284,00.html>.
Acesso em 07 mai. 2013.
[2] Fonte:
<http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2010/09/empresa-do-governo-divulga-fotos-do-projeto-do-novo-maracana.html>.
Acesso em: 7 mai. 2013.
[3] Disponível em:
<http://www.fluminense.com.br/site/futebol/noticias/4322/fluminense-football-club-comemora-os-seus-109-anos-neste-dia-21/attachment/laranjeiras-antiga/>.
Acesso em: 02 mai. 2013.

Fausto é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Uerj e
bolsista da Capes. Graduado em Comunicação Social, com habilitação em
Relações Públicas, pela Uerj. Atua no projeto de pesquisa “Meios de
Comunicaçao, Idolatria, Identidade e Cultura Popular” sob orientação do
Professor Ronaldo Helal. É um dos admistradores do blog “Comunicação,
Esporte e Cultura”.

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra