Botafogo: O senhor sabe o que é ler Vinicius?

No último domingo, 20 de outubro, o Botafogo de Futebol e Regatas empatou em dois a dois com o Club de Regatas Vasco da Gama. Tivesse o jogo sido no dia anterior, o Glorioso teria sentido o peso da obrigação da vitória, como presente pelo centenário de um de seus torcedores mais ilustres. Ou não (como talvez fosse dizer Caetano Veloso, que, dada a atual polêmica das biografias, é melhor passar um tempo sem dizer nada). Pelo contrário, Vinicius de Moraes talvez sorrisse com o empate e olhasse meio de lado para o interlocutor flamenguista implicante do momento (sempre há um flamenguista implicante, ainda que o time dele tenha perdido) com uma ironia sábia de quem conhece exatamente o gosto agridoce de carregar uma estrela solitária no peito.

Chamem à vontade o Botafogo de “timinho”, queridos torcedores de outros clubes. Vinicius ainda hoje é “poetinha” e o diminutivo, em vez de encobrir, apenas escancara o tamanho glorioso de sua produção poética. Tivéssemos menos grandes poetas e mais poetinhas, a literatura perderia sua aura de disciplina de poucos eleitos para se tornar mais como um copo de uísque, um fim de tarde, um ter tudo para ser feliz e mesmo assim ser triste.

Comecei a torcer pelo Botafogo ainda criança, por causa do meu padrasto, pai de todas as horas, mas foi só adulta que me tornei de fato botafoguense – ou pelo menos compreendi o que era sê-lo –, com a Antologia Poética de Vinicius. Há nela um poema com o qual me deparei por acaso, num desses saraus de dois improvisados na cozinha de casa mesmo: eu lia alto enquanto meu companheiro de poesias (vascaíno não tão implicante) providenciava o banquete. E eis que surge:

“OLHE AQUI, MR. BUSTER *

Rio de Janeiro , 1962