Como não perder no futebol?

ROBERTO DAMATTA – O Estado de S.Paulo

-Qual é o maior problema do “nosso” futebol?

– Todos! Não ganhamos nada!

– Mas exportamos o futebol do Brasil para todo o mundo. Todos jogam como nós.

– Tudo bem… Mas por que não conseguimos ganhar?

– Precisamente por causa disso. Todo sucesso vira fracasso. Quem ganha perde…

Ouvi isso na barca indo para o Rio, eu que continuo insistindo em morar em Niterói. Ora, morar em Niterói é como não saber que o futebol sofre de um pecado original: o nosso time não pode perder. E, no entanto, se um time fosse eternamente ganhador os estádios ficariam vazios.

Num espaço de tempo que hoje engloba uns 100 anos, contabilizamos muitos jogos e, em consequência, muitas perdas e ganhos. As derrotas, contudo, são mais lembradas porque nossa memória retém – como dizia Freud – mais a ferida e o sofrimento (o trauma) do que o gozo, o encantamento e a beleza de céu estrelado das experiências transitórias (aliás, Freud tem um belíssimo ensaio sobre esse assunto). O belo passa e o feio fica? De modo algum. Mas o bom é amarrado com teias de aranha, ao passo que o ruim deixa cicatrizes. Pensamos a vida como uma escada quando, de fato, ela é uma bola que gira sem parar e corre mais do que nós.

Notei num ensaio presunçoso que, em inglês, existe uma diferença entre jogar e jogar. Entre “to gamble” e “to play”; entre ir a um cassino para apostar ou jogar tênis e tocar um piano. Num caso é necessário algum tipo de habilidade sem a qual não há música ou disputa, mas nos jogos de azar basta ter sorte. Mas além de “gamble” e “play” existe a palavra “match” para designar o encontro equilibrado entre dois adversários.

Veja o leitor. Na roleta não há um “match”, porque as chances são da banca. É um jogo com aficionados, mas sem “atletas”. Ninguém compete com uma roleta, mas contra ela. No mundo do esporte, porém, a disputa se transforma em competição. A igualdade inicial é um ponto central da dualidade constitutiva do esporte. Ora, a dualidade é o eixo sobre o qual gira a reciprocidade contida das fórmulas da caridade, das boas maneiras, da vingança e do dar-para-receber como viu Marcel Mauss. A palavra “partida” designa isso e antigamente era usada para se falar do futebol que retorna com a força das paixões recalcadas.

Para nós, brasileiros, o verbo jogar engloba tanto o jogo de azar (como o famoso e até hoje milagrosamente ilegal “jogo do bicho” e as loterias bancadas pelo governo) quanto o encontro esportivo regrado e igualitário, essa disputa agônica constitutivamente ligada à probabilidade de vencer ou perder.

Mas se uma mesma palavra – jogo – junta o jogo de azar e a disputa esportiva – nem por isso lembramos que o futebol é imprevisível. Nossa leitura canônica do futebol é sempre a de uma luta na qual o time do nosso coração vai ganhar, daí as desilusões das derrotas. Podemos perder, sem dúvida, mas resistimos freudianamente a pensar nessa possibilidade. Temos perdido muito, sem dúvida, mas recusamos perpetrar a única coisa acertada diante da derrota: aceitá-la.

Surge, então, o problema cósmico do futebol no Brasil. Como admitir que perder e ganhar fazem parte da própria estrutura desse jogo, se nós – em princípio – não lemos na palavra jogo a possibilidade de derrota? A agonia e o prazer do futebol estão ligados precisamente a essa possibilidade, mas isso é afastado do nosso consciente. Quando vamos ao jogo, vamos à vitória e há motivos para isso. Um deles eu mencionei na semana passada: o futebol foi o primeiro elemento extraordinariamente positivo de uma autovisão que era permanentemente negativa. Como imaginar que um povo convencido de sua inferioridade natural como atrasado, porque era mestiço, pudesse disputar (e vencer) os brancos “adiantados” e “puros”, que inventaram a civilização e o futebol?

Quando começamos a dominar o futebol dele, fazendo um fato social total: algo com elementos econômicos, religiosos, culturais, morais, políticos, filosóficos e cósmicos – uma grande tela que projetava tudo -, descobrimos que o que vinha de fora podia ser canibalizado e tornar-se nosso. Era possível inverter a lógica colonial. A digestão do outro pela sua incorporação ou englobamento sociopolítico no nosso meio é o pano de fundo do roubo do fogo dos deuses pelos homens.

No entanto, é preciso uma nota cautelar. Roubamos o futebol, mas não a vitória perpétua. Confundir a atividade futebolista com o sucesso permanente é infantil. Na política, isso surge com o vencer a qualquer custo ou, como diz um professor de poder no poder, o Sr. Gilberto Carvalho, “o bicho vai pegar…”. Ou seja: temos que vencer com ou sem jogo o que, lamentavelmente, mas graças a Deus, é bem diferente do futebol. Escrevi essas péssimas linhas antes da vitória de 3 a 0 contra a França! Somos, de agora em diante, somente vencedores? Um lado meu espera que sim…

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra