Copa do Mundo 2006: Imagem da apatia

Enquanto time se arrastava em campo, Parreira olhava o relógio

Apatia da equipe brasileira em campo encontrou eco no banco de reservas, Acostumados com a vibração de Luiz Felipe Scolari em 2002, ou mesmo nas partidas de Portugal nesta Copa, os brasileiros assistiram a um Carlos Alberto Parreira que passou praticamente todo o jogo em silêncio, trocando algumas palavras com o coordenador técnico Zagallo, olhando para o campo. O silêncio foi quebrado apenas por alguns momentos de exasperação, quando pedia o time para pressionar o adversário. Ou mais claramente aos 27 minutos do segundo tempo, quando a torcida brasileira no estádio começou a xingar o treinador que assistia passivamente sua equipe caminhar no gramado, enquanto segurava Robinho e Cicinho fora do jogo.

-O Brasil não estava preparado para sair antes das finais – disse o treinador após a partida. – A gente lamenta. Só tenho que agradecer aos jogadores pelo empenho. Agora é pensar no futuro.

A primeira vez que o técnico tentou influenciar sua equipe, que começava a ser dominada pelos franceses, foi aos 7 minutos do primeiro tempo. Parreira se levantou e pediu para sua equipe se movimentar mais. Seu primeiro momento de verdadeira preocupação foi quando o zagueiro Lúcio cortou com a cabeça um potente chute do adversário e sentiu.

Sem leitura labial, Parreira sinalizava “não” com a cabeça

Parreira demorou mas, assim como toda a torcida brasileira também demonstrou irritação com Kaká. Aos 20 minutos da primeira etapa ele gesticulou depois de o meia perder uma das dezenas de bola que errou durante a partida. Mas a irritação se limitou a seus gestos, pois o jogador do Milan, talvez o pior em campo, só seria substituído aos 11 minutos do fim do jogo. A descrença do técnico ficou com a atuação de seu time ficou clara no fim do primeiro tempo. Sem a necessidade de qualquer leitura labial, tão criticada por ele. Parreira abanou a cabeça, silenciosamente dizendo “não”.

No início do segundo tempo, sem ter feito qualquer substituição numa equipe que se arrastava em campo, Parreira começou a se impacientar. Aproximando-se do campo, gritou e gesticulou, claramente pedindo para o time avançar. Inútil. Aos 12, Henry marcava o gol que desclassificaria o Brasil. Quando flagrado pelas câmeras, o treinador estava de pé, olhando para o campo, em silêncio.

Aos 23 minutos, Parreira optou por colocar mais um atacante de área num time que sequer se aproximava dela por estar sendo dominado no meio-campo. E tirou Juninho, que, se não fazia grande partida, era mais ativo que Kaká ou os dois lentos laterais. Parreira se revezava no controle do tempo que restava, às vezes olhando para seu próprio relógio de pulso, outras observando o placar eletrônico do estádio – preso no alto do campo, fazia com que o técnico parecesse estar orando quando olhava para ele.

Aos 27 minutos. usando palavrões, a torcida passou a ofender o treinador. Parreira não esboçou reação, e ainda demorou longuíssimos quatro minutos para colocar Cicinho no lugar de Cafu e infinitos nove para substituir Kaká por Robinho. Gesticulou muito ao tentar explicar para Robinho o que gostaria que ele fizesse em campo.

Aos 38 minutos, Parreira finalmente pareceu ficar tão exausto esperando quanto à torcida. Voltou para o banco, sentou-se espalhafato e conversou com Zagallo, abatido a seu lado.

Enquanto a equipe demonstrava empenho pela primeira vez, Parreira olhava para o placar eletrônico. Ou rezava.