Estádio do Morumbi

GIGANTE POR DESTINO

Antes mesmo da primeira parede se erguer no Morumbi. Os deuses da bola já haviam decidido: no longínquo bairro paulistano nasceria o maior estádio particular do mundo. Megalomania, disseram alguns. Tiveram que se curvar às provas oferecidas pelo tempo. Desde a década de 60 não há local comparável para as tardes de futebol em São Paulo

Tudo não passava de um sonho, diziam as vozes mais céticas que se espalhavam pela São Paulo dos anos 50. E não importava sequer que o exemplo do Maracanã, erguido em apenas dois anos, estivesse vivo na cabeça de cada brasileiro. Um estádio construído no distante bairro do Morumbi, onde a cidade só chegara até então com algumas chácaras situadas sobre a imensa várzea, não permitia outro destino que não fosse o fracasso e a solidão. O sonho, porém, foi mais forte que as dificuldades, e, em 15 de agosto de 1952, o tricolor lançava a pedra fundamental de sua futura casa.

Não foi à toa que o maior estádio particular do mundo acabou sendo levantado no terreno longíquo, de 124 mil m², doado pela Prefeitura Municipal e pela Imobiliária Aricanduva. O Morumbi, para satisfazer a honra tricolor, devia ser incomparável na cidade e, para isso, necessitava-se de um espaço capaz de acomodar 150 000 pessoas. Assim, o então presidente do clube, Cícero Pompeu de Toledo, que hoje empresta seu nome ao estádio, não se importou com a recusa do prefeito Armando Arruda Pereira em ceder um espaço no Ibirapuera, como era sua intenção inicial. Os cardeais tricolores também não se acanhara, em descartar projetos modernos, como o da construtora soviética Antonov & Solnnerkevic, que previa uma cobertura transparente e removível sobre as arquibancadas e o gramado. “O estádio ficaria menor e ninguém suportava essa ideia”, lembra o historiador do São Paulo, Agnello Di Lorenzo.

UM CLUBE NO LUGAR CERTO

Os idealizadores do Morumbi queriam no início um terreno nobre no Ibirapuera, mas não convenceram a prefeitura a doá-lo. Assim, a obra começou em 1952 no então desvalorizado bairro do Morumbi. Concluído em 1960. p estádio ainda

era cercado por um imenso vazio e comportava apenas 70 000 pessoas. Mas o São Paulo queria um gigante e, para isso, até obrigou o arquiteto Villanova Artigas a mudar seu projeto original, que previa um corredor de trânsito ma parte inferior do anel das arquibancadas.

Antes da construção se completar, em 1960, os dirigentes deram ainda uma última recomendação para aumentar a capacidade: retirar um corredor de trânsito para torcedores na parte inferior do anel das arquibancadas, como previa o projeto do arquiteto Vilanova Artigas, substituindo-o por túneis de acesso. Consequentemente, ampliava-se o setor destinado ao público. Então, em 2 de outubro de 1960, São Paulo e Sporting entraram em campo para a partida inaugural. Os 64 784 torcedores presentes (56 448 pagantes) espremiam-se nos 70 000 lugares disponíveis, já que apenas metade da obra estava concluída. Depois de acomodados. acompanharam a primeira vitória tricolor, por 1 x 0, com gol do ponta-direita Peixinho aos 12 minutos do tempo inicial. Na segunda partida, palmeirenses e corintianos ofereceram uma demonstração de que o Morumbi já fora adotado por toda a cidade. O Verdão emprestou gratuitamente o lateral Djalma Santos e o ponta Julinho e o timão cedeu o meia Almir para vestirem a camisa tricolor na vitória contra o Nacional de Montevidéu por 3 x 0. “A inauguração foi uma das melhores experiências da minha vida como jogador”, recorda o então centroavante do São Paulo e hoje administrador do estádio, Gino Orlando.

A partir da inauguração total do estádio, com o empate de 1 x 1 entre São Paulo e Porto, em 1970, o que parecia um sonho distante virou definitivamente a casa dos grandes espetáculos do futebol na capital paulista. Em seu gramado Pelé despediu-se da Seleção em 71, e o Corinthians desperdiçou a chance de conquistar um título após 19 anos, com uma derrota por 1 x 0 para o Palmeiras em 1974. Três anos mais tarde, redimiu-se soltando seu grito de libertação graças a um gol de Basílio contra a Ponte Preta. No segundo jogo da melhor-de-três, vitória dos campineiros por 2 x 1, registrou-se o recorde de público: 138 032 pagantes, além de 8 050 que não pagaram ingressos.

TRABALHO ENFIM RECOMPENSADO

A impressão era de que o esforço são-paulino para construir sua nova casa jamais seria recompensado. O clube acumulava títulos paulistas, mas lá, não conseguia vencer campeonatos nacionais e internacionais. Isso até 1992, quando o tricolor levantou a Taça Libertadores dentro de seus domínios contra o Newell’s Old Boys, A torcida tricolor invadiu o gramado, fugindo de seu comportamento frio por tradição. Chegou até a lembrar a festa Corinthiana de 1977. Um tabu estava enfim

derrubado. E o São Paulo, pronto para vôos mais altos, como o mundial interclubes, vencido meses mais tarde.

Com o fim do trauma pela falta de troféus, o Timão deu mais um passo para deixar o Morumbi ao jeito de sua alma. Vingou os onze anos sem vitórias sobre a equipe de Pelé, nos anos 60 e castigou os santistas com sete temporadas e vinte jogos de tabu. “Quase todos esses clássicos tinham mais de 100 mil pessoas”, atesta Aílton Lira, meio-campo santista nos anos 70. Em uma das partidas do tabu aconteceu a estreia do principal jogador corintiano nos anos 80: Sócrates. Para recepcioná-lo, o Morumbi apanhou um pouco de 110 000 pagantes, mas nenhuma das torcidas saiu amplamente satisfeita com o resultado de 1 x 1 que manteve a escrita por mais um ano. Tempos mais tarde, o Doutor seria um dos responsáveis pela criação da Democracia Corintiana e encheria de emoção as plateias com seus mágicos gols e toques de calcanhar. Com ele, o Corinthians conseguiu os títulos paulistas de 1979, 1982 e 83, os dois últimos em decisões memoráveis contra o São Paulo, e alcançou a proeza de um bicampeonato de 31 anos. O grande estádio já era a casa de todas as grandes torcidas, cada uma com seus próprios motivos para alegria (além de corintianos e são-paulinos, os palmeirenses foram campeões paulistas em 74 e nacionais em 72/73, e o Santos ganhou os Paulistões de 1973, 78 e 84).

Os proprietários são-paulinos, porém, só superaram a escrita de não ganhar torneios fora do âmbito estadual em seu estádio com a Taça Libertadores de 1992, quando Raí, Müller, Cafu, Macedo e Cia. consolidaram uma fase gloriosa iniciada ainda nos anos 80, mas que frustrara os torcedores com vice-campeonatos nacionais de 1981 e 1989. “Por mais que se fale do romantismo do Pacaembu, é impossível ter a vibração de um estádio lotado lá como se tem aqui”, discursa Gino Orlando, com a experiência de quem acompanhou todas as cinco decisões de Campeonatos Brasileiros e vivencia as batalhas de gritos e bandeiras das torcidas nas arquibancadas há mais de 20 anos. Como ele, quem entrou uma vez no maior estádio particular do mundo é incapaz de negar que o templo das grandes multidões em São Paulo é o Cícero Pompeu de Toledo.