Futebol e Cinema: Os falsetes do Lamartine Babo

Como nasceu o hino do Fluminense. Uma marcha dada de mão beijada por São Paulo

Armando Nogueira-2005-jornal lance 

Chego pra jantar na casa de um querido amigo. Sou recebido ao som do hino do Fluminense. A família toda canta a uma só voz: “Sou do time tantas vezes campeão!” Preciso falar mais alguma coisa, além de dizer  que acabo de adentrar uma toca tricolor?

Mesmo sem pertencer à tribo dos vitrais, entro na onda e me ponho a cantar também. Acho o hino do Fluminense o mais bonito de todos que Lamartine compôs pros times do Rio.

O meu anfitrião comenta, exaltado, que Lamartine só podia ser torcedor do Fluminense. Artista algum é capaz de fazer uma canção assim tão sentida se não for apaixonado, seja por uma mulher, seja por um clube de futebol.

A marcha caía como uma luva para Lamartine, que tinha sido desafiado a compor hinos dos 12 times cariocas

“O Lamartine dizia que era América só pra despistar…” acentua.

Lamento aplacar o entusiasmo do meu anfitrião, mas tenho que revelar um fato curioso sobre o hino do Fluminense. Minha fonte não pode ser mais confiável. É Jairo Severiano, conceituado pesquisador da MPB e co-autor do livro “A canção do tempo”, escrito em parceria com Duda homem de Melo.

Um dia, Lamartine Babo está fazendo um programa de rádio em São Paulo. Ouve alguém falar bem de uma marchinha “Preto e Branco”que acabara de fazer sucesso no carnaval paulista de 1934. Era uma ode à mulher de São Paulo. Lamartine descobre que a canção tinha sido composta pelo maestro Lírio Panicali, seu amigo e parceiro, com letra de Silvino Neto, por sinal, torcedor do Fluminense.

A marcha caía como uma luva no projeto de Lamartine, que tinha sido desafiado em público, pelo animador de rádio Helbert de Boscoli.

Ele teria o prazo de um mês para compor os hinos dos 12 times cariocas. Aquela marchinha do maestro Panicali falava até das três cores da bandeira do São Paulo, numa alusão ao vestido da moça que inspirava os dois compositores.

Lamartine perguntou aos dois se podia usar aquela canção num projeto assim, assim. Silvino Neto e o maestro liberaram, numa boa. Silvino Neto chegara a confessar que cedia a canção com muito orgulho. Lembra até uma feliz coincidência: ele e o Fluminense nasceram no mesmo dia: 21 de julho. Lamartine, mais que depressa, lançou a canção, sem, contudo ter tido o cuidado de repetir com os dois o crédito da marchinha,. Aliás, coisa que fez, também, com o hino do América, esse, integralmente, chupado da canção “Row, row, row!” (Rema, rema, rema!), dedicada aos remadores norte-americanos, composta pela dupla James Monaco/William Jerome.

Não devo concluir essa história sem contar aos menos avisados que Lamartine Babo forma, seguramente, entre os dez melhores compositores populares do Brasil. Foi parceiro de Ary Barroso, de Vogeler, de Assis Valente, João de Barro. Fez mais de 400 canções. Quem compôs clássicos como “No Rancho Fundo”(com Ary Barroso). “Serra da Boa Esperança”, “Os Rouxinóis”, “Ressurreição dos velhos Carnavais” além de outros tantos outros sucessos de Carnaval; quem criou semelhante repertório de preciosidades, por quecargas d’água um homem de tamanho valor faz o que fez com os hinos de Fluminense e América?

Eu conheci Lamartine Babo. Trabalhamos juntos em programas da TV Rio. Era uma das pessoas mais contentes do Rio de Janeiro nos anos 50. Tinha um fiapo de voz, mas vivia cantando. Cantava em falsete. Nunca sofreu o flagelo da culpa. Adorável criatura em cujo caminho não havia pedras, só sustenidos.

Quando alguém falava com ele de plágio do hino do América, ele respondia com o semblante mais doce do mundo: “Eu sou romântico…”

E saía cantarolando: “Hei de torcer, torcer, torcer/Hei de torcer até morrer, morrer, morrer…!”