José Silvério: Locutor conta histórias sobre os bastidores das Copas

Atualmente na Rádio Bandeirantes de São Paulo (AM 840 e FM 90,9), José Silvério esteve à frente dos microfones da Rádio Jovem Pan (AM 620), por aproximadamente 25 anos. Voz única, tecnicamente perfeito e um padrão seguido por inúmeros aspirantes a locutor esportivo, Silvério utiliza vários jargões e tem uma inconfundível esticada na última sílaba de cada frase.

Marcante.
Utilizando um jargão do próprio entrevistado, só podemos agradecer a repórter Bartira pela entrevista com um : “E que golaaaaaço!”

Acompanhe:
O locutor José Silvério, um veterano em coberturas de Copas do Mundo, está de malas prontas para a Alemanha, onde vai cobrir pela 8ª vez o campeonato mundial. Nesta entrevista, ele conta que uma cobertura sempre é diferente da outra e passa a limpo as mudanças nos últimos 28 anos. “O contato com a seleção era mais pessoal e de 1994 para cá os jogadores vivem numa redoma de vidro”, dispara.


Portal IMPRENSA ­- Sua primeira cobertura em Copa do Mundo foi em 1978. O que mais marcou essa experiência?

José Silvério – Eu cubro copa desde 1978, aí teve a Copa de 82, 86, 90, 94, 98, 2002 e agora 2006, que será minha oitava copa. É sempre diferente uma Copa da outra. É como se fosse um festival e durante este período todos os envolvidos só falam do mesmo assunto, vivem todos apenas aquilo. A Copa de 78 marcou porque foi a minha primeira. Eu tinha 32 anos. Foi uma copa boa porque fui como locutor principal pela Jovem Pan. Eu já acompanhava a seleção brasileira como torcedor. Estar por perto da seleção, acompanhar os treinamentos, como narrador, foi uma emoção inteiramente diferente. Tive também que conviver com a inexperiência e superar obstáculos para melhor a transmissão a cada jogo.


PI – O senhor é considerado o maior locutor de futebol do país. Só no Orkut tem seis comunidades de fãs do senhor. É muita responsabilidade?

JS – Muita. Já me falaram até que é um pouco surpreendente um locutor de futebol ter tantas comunidades e fãs assim num site de relacionamentos grande como o Orkut. Eu fico satisfeito porque é um reconhecimento e mostra que a gente consegue com profissionalismo quebrar barreiras.


PI – Qual uma das suas experiências mais inusitadas durante uma cobertura em Copa do Mundo?

JS – Sem dúvida foi a transmissão de um treino que fiz em cima do telhado na Copa de 86. Das eliminatórias de 82 até a copa de 86 eu acompanhei todos os jogos da seleção. Num treino com o América, do México, o técnico (Tele Santana) barrou a transmissão do campo. Eu trabalhava na Rádio Jovem Pan e prometemos a transmissão do treino para os ouvintes. Então demos um jeito caseiro. Pedimos autorização para a dona de uma casa que ficava bem próxima do estádio e eu transmiti o jogo de cima do telhado. Foi ao vivo e tinha uma árvore que barrava parte da visão. O repórter Wanderlei Nogueira ficou com o microfone volante próximo ao campo e eu avisava quando não estava enxergando. Aí ele narrava aquilo que via. Foi um sucesso de audiência.


PI – Sua participação em copas se restringe apenas a narrar os jogos?

JS – Até a Copa de 94, nos EUA, eu participava de tudo, assistia treinos, conversava com as pessoas. Eu usava um pouco do prestígio, do respeito de algumas pessoas, e passava muitas informações exclusivas ao repórter. Em 1998 não participei de nada, além da narração, porque eu não gostava do ambiente. Achei a seleção muito isolada, blindada e a copa de 2002 foi igual.


PI – A TV Globo tem privilégios na cobertura da Copa por ser a única televisão brasileira que transmite o mundial?

JS – Claro que tem. Um jogador, se tiver que escolher entre uma entrevista para uma rádio e para a Globo ele vai dar a entrevista para a Globo. A gente sabe de alguns favores que são feitos aos jogadores para isso. Eu nunca tive problema com ninguém porque os jornalistas que cobrem futebol na Globo, a maioria, são amigos que começaram a carreira comigo, mas a emissora, já falei isso claramente tem, não é uma crítica, trabalha como uma seleção oficial do Brasil e é sempre a primeira a ter informações. Mas também preciso ressaltar que ela não tem essa força à toa. A equipe toda é eficiente e demonstra isso durante toda a cobertura que vemos em toda a Copa.


PI – O senhor já quis ser narrador de televisão?

JS – Nunca, pois não faz parte do meu jeito. Sou mais discreto e prefiro a locução em rádio, onde posso fazer do meu jeito e aquilo que sei de melhor, narrar.


PI – A narração do Galvão Bueno é boa?

JS – Eu acho o Galvão excelente locutor. E tem uma coisa que eu digo sempre para as pessoas: a responsabilidade que ele carrega não é pouca. Ele é a vitrine não só da Globo, mas a vitrine do futebol brasileiro.