Lá, o racismo não é punido

O vice-presidente do Instituto Nacional Antidiscriminação (Inadi), Esteban Llamosas, diz que o código penal argentino não pune atitudes ou comentários racistas, embora exista a lei para isso, de nº 23.592, que proíbe expressões racistas. Mas, para que um fato dessas características seja punido, é preciso que esteja acompanhado de injúrias, calúnias ou outro tipo de delitos. Nestes casos, o racismo seria um agravante na hora de decretar a condenação.

Llamosas disse que o Inadi tem interesse em aprofundar medidas anti-racistas e anti-discriminatórias nos estádios da Argentina. Segundo ele, uma pessoa que seja alvo de comentário racista, pode recorrer ao Inadi. “Isso poderá servir como prova, em uma eventual condenação.” As penas por injúria podem implicar em até três anos de prisão. As penas por calúnia, até cinco anos.

O presidente da Associação de Futebol da Argentina (AFA), Julio Grondona, disse que Leandro Desábato é inocente. Segundo ele, tudo não passa de um mal-entendido que será resolvido rapidamente. “E não há motivo para pedir desculpas porque Desábato não fez nada.”Grondona, que comanda a AFA há mais de 25 anos, recentemente foi acusado de proferir expressões anti-semitas. Ontem, diante da pergunta de um jornalista que recordou o caso, Grondona – irritado – respondeu: “Você está com más intenções e misturando as coisas.”

O analista esportivo Ezequiel Fernández Moore, autor de livros de História do futebol, disse que nos estádios, especialmente nas torcidas de classe média, é onde percebe-se claramente o racismo em alguns setores da sociedade argentina. “Integrantes da torcida do River Plate costumam realizar cânticos nas arquibancadas, gritando que os torcedores do Boca Juniors são homossexuais ou denigrem imigrantes de países vizinhos com forte população indígena, como Peru e Bolívia.” Segundo ele, existe também um anti-semitismo que não ocorre em outros países da América Latina. “Os torcedores do Defensores de Belgrano, há cinco anos, causaram escândalo ao gritar um cântico contra os torcedores do Atlanta (time com presença da comunidade judaica) que dizia: ‘Hitler vem caminhando pela rua, matando judeus para fazer sabonete’…e além disso, jogaram sabonetes no campo!”

Moore explicou que esse caso causou uma forte reação, que levou à criação de uma legislação que permite que um juiz possa interromper um jogo de futebol se as torcidas começarem a cantar letras com conteúdo racista.