Matéria publicada na Folha Ilustrada de 24 de julho de 1994 – Texto de Marcelo Coelho

Minha intenção era de passar todo esse período da Copa sem falar do assunto. O leitor bem que mereceria um descanso. De resto, eu estava pessimista quanto ao desempenho da Seleção e tenho pouco a dizer sobre futebol. O espantoso, contudo, é o quanto as pessoas têm a dizer sobre futebol. Estamos assistindo, na verdade, a um espetáculo duplo. Há o jogo, aquilo que se decide em campo. Mas há também o universo infinito das mesas-redondas, dos comentaristas, dos narradores: acho-o mais fascinante, talvez, do que o próprio jogo.

Em primeiro lugar, mas, esta é uma constatação banal, fico impressionado com quanto essas pessoas na mesa-redonda entendem de futebol. Falam de um jogo que eu absolutamente na vi. Percebem “falhas no esquema tático”, erros do técnico, enquanto eu estava esperando apenas um chute a gol.

O maior virtuosismo do comentarista está quando ele explica porque determinado jogador não apareceu em campo. É claro que, na condição de espectador do jogo, não dei pela presença dele. Mas os comentaristas de mesa-redonda deram pela sua não-presença em campo. São, assim, especialistas no invisível. Vêem “o que ninguém viu”, como dizia Sílvio Luiz ao solicitar de seu repórter de campo, Flávio Prado, nas antigas transmissões da TV Record.

Há certamente um milagre nisto. Pode ser comprado ao milagre da multiplicação dos pães; é a multiplicação dos comentários. Shakespeare escreveu muitas peças, mas o número de livros já escritos sobre Shakespeare é simplesmente incontável. Parece que de dois em dois dias se publica um. Talvez seja pomposo demais descrever este fenômeno como um sinal daquilo que tantos teóricos gostam de sublinhar, “a autonomia de linguagem”.

Há algo de maravilhoso e assustador nesta ideia. Textos, comentários, discursos multiplicam-se como o câncer. O fato mais curto, mais breve, mais banal, organiza falações sem fim. Os participantes de uma mesa-redonda são como críticos literários, como filósofos – poderiam continuar eternamente – sua conversa, e os fatos a que se referem não se esgotarão. Um jogo de noventa minutos pode render anos de debate.

Não sei se o exercício já foi feito, mas seria interessante se os críticos literários se debruçassem sobre o fenômeno da narração e comentários futebolístico. Tento alguma coisa nesta linha. Começo com a narração do jogo. Há, antes de tudo, uma contradição nestes termos. Pois só se “narra” aquilo que aconteceu no passado. O “narrador” de um jogo de futebol deve descrever, entretanto, aquilo que se dá no presente, aos olhos do telespectador. Isto o coloca numa posição contraditória. De um lado ele tem que dizer simplesmente o que aconteceu. Ou seja, Dunga passa a bola para Raí. Sua função, neste caso, é “dar nome aos bois” – dizer quem é quem no jogo, atribuir a alguém a autoria de uma jogada.

Sabemos, contudo, que a função do narrador não se esgota nisso. Ele está diante de um jogo que mexe com as emoções de todo mundo. E também está diante de fatos que a TV comunica com muito mais exatidão do que ele é capaz. Surge, assim, a ambiguidade maior da narração futebolística. O locutor simplesmente não pode narrar a fatualidade objetiva, o evento cru, coisa que a tv está transmitindo de graça.

Dois artifícios, basicamente, aparecem. O primeiro é o de, em vez de narrar, “torcer”. Sua figura literária é a interjeição. “Que bola a bola”, dizia Geraldo José de Almeida, “olha lá, olha lá…”, diz qualquer um. “Pelo amor dos meus filhinhos”, grita exemplarmente Sílvio Luiz. Trata-se, aqui, de uma negação retórica do fatual. O “narrador” teria apenas de contar o que acontece. Mas o locutor esportivo sabe que, diante dos fatos, não é possível manter-se na distância certa, objetiva. Ele se aproxima mais do que deve do jogo “torcendo” em vez de relatar apenas.

Há outro artifício, contraditório com o descrito acima. Em vez de se “aproximar” do jogo, torcendo por um time, o narrador se distancia. E, nesta estratégia, podemos ver o que há de mais literário na locução esportiva. Sílvio Luiz, cafajeste que seja, dá de dez a zero na concorrência. Afora suas interjeições, deve-se notar que ele encontrou a figura literária mais adequada à transmissão de um jogo: a perífrase. Ou seja, em vez de dizer “a Alemanha passou perigo”, ele diz: “Passa perigo a pátria germânica”.

Claro que este modo de dizer as coisas não é exclusividade de Sílvio Luiz. Os clássicos da narração futebolística sagraram Leônidas da Silva como o “diamante negro” e Zico como o “Galinho de Quintino”. Do mesmo modo, procuram-se sinônimospara o gol (vira “o arco”), para intermediária (“zona do agrião”), para o juiz (“árbitro”, “mediador”). É como se as coisas não pudessem ser chamadas pelos nomes que elas têm. O bandeirinha não levanta a bandeira, mas “agita a flanela”, segundo Sílvio Luiz. A palavra “chuteira” é substituída por outras (“chinelo”, “sapato”) e a própria bola vira “couro” ou “pelota”.

Por que isso aconteceu? Minha interpretação é algo metafísica, algo mística. É como se realidade, o fato bruto e banal, não contentasse a imaginação humana. Dispomos de muitas palavras para descrever o mundo; muito mais palavrasdo que este mundo merece. O locutor “desrealiza” o jogo. Todos estamos vendo uma bola em campo. O locutor fala de uma pelota no gramado.. Será apenas um testemunho da riqueza da linguagem, da autonomia do significante, do luxo estilístico? Trata-se apenas do arbítrio de palavras que, com vida própria, organizam o discurso do locutor esportivo? Trata-se apenas do último recurso que ele tem para não ser banal, para não reproduzir com automatismo a realidade dos fatos?

Por que, em suma, há mais palavra do que coisas? Por que vivemos num verdadeiro luxo de linguagem, quando tudo poderia ser descrito mais simplesmente de forma mais econômica e real? Tremo ao pensar que a linguagem (“honnerdeshommes, saintlanguage”, dizia Valéry) tenha modos de funcionamento alheios à nossa consciência individual. O credo estruturalista julgou ver nas formas da sintaxe a chave de entrada para a universalidade do ser humano; se temos algo de comum com os bororos ou com o zulus, isto reside no fato que somos animais dominados pela linguagem. Pelas determinações inescráveis da gramática, isto é aquilo, sim ou não, cru ou cozido.

Mas será que tudo “é linguagem”? Que o próprio jogo de futebol com suas regras e seu desenvolvimento em campos seja apenas “linguagem”? Q     eu a narração do locutor esportivo seja uma estratégia de linguagem? Tentando brilhar num almoço de família, achei interessante citar a famosa frase de Lacan: “o inconsciente é estruturado como linguagem”. A resposta veio rápida: “Mas tudo éestruturado como linguagem. Claro, pensei,. Pois falar em algo que é “estruturado” já é imaginar em “linguagem”. Se o inconsciente está “estruturado”, o fato de ser “linguagem” é decorrência óbvia.

Vendo uma mesa-redonda de futebol ou uma narração esportiva, quase acredito nisso. Quase acredito no poder da palavra, no jogo das parífrases, nos dribles do verbo, nos craques do vocabulário, na ginga dos comentários. Mas quando um jogador leva uma canelada real, eficaz, sem discurso, desconfio um pouco de que a linguagem não é tudo, e que as caneladas, pelo menos, não têm estrutura. Pior para elas.