Transcrição Discurso Museu da Imagem e do Som- Mario Helênio

Apresentação do depoimento

Natálio Luz – Dia 8 de maio de 1990, três horas e trinta e cinco minutos, aqui no teatro do espaço cultural Bernardo Mascarenhas, Avenida Getulio Vargas 200, Museu da Imagem e do Som, inicia gravação a posterioridade do depoimento de Mario Helênio de Lery Santos, um dos nomes mais expressivos do jornalismo esportivo da cidade, reconhecido e premiado além fronteiras. Na oportunidade registramos prazerosamente as presenças da professora Pátria Suares Zambrano, superintendente da FUNALFA, parentes e amigos de Mario Helênio.

Apresentação do homem Mario Helênio

Filho de Jarbas de Lery Santos e Dalila de Lery Santos, Mario Helênio nasceu em Juiz de Fora em 22 de maio de 1925, casado desde 1956 com Aparecida Curcio de Lery Santos é pai de Mario Augusto de Lery Santos, engenheiro e único filho, é avô de Marina, 8 anos, Letícia, 7 anos e Bruno, 1 ano e 6 meses.

Apresentação do profissional Mario Helênio

Aos 65 anos, Mario Helênio que é bacharel em direito, formado em 1950, completa este ano 54 anos de jornalismo esportivo, já que iniciou a carreira em 1936 com apenas 11 anos de idade nos jornais da cidade, O Farol e Jornal do Comércio. Dois anos depois passou a integrar a equipe de Diário Mercantil, e sua primeira matéria foi fazer a cobertura da primeira piscina suspensa da América do Sul, construída no Sport Clube de Juiz de Fora, em seguida trabalho no Diário da Tarde, Rádio Tiradentes, hoje Nova Cidade, Radio Industrial e antiga PRB-3, Radio Sociedade de Juiz de Fora, atual Solar AM onde permanece até hoje apresentando seu programa esportivo “No Giro da Bola” as onze horas e trinta minutos, é importante ressaltar a sua dedicação no incentivo e na divulgação do esporte amador, na participação na direção de clubes e na produção de eventos.

Entrevistadores

Para entrevista-lo Mario Helênio convidou seis amigos e companheiros que vão ajudá-lo a se lembrar dos fatos e das historias de sua vida, que ficarão registrados e documentados para a posteridade. São eles: Fabio Nery, advogado, jornalista, ex-professor e diretor da faculdade de odontologia da UFJF, vereador de 1947 a 1951 e vice-prefeito na administração  Ademar Resende, 1963-1967; Cláudio Temponi, homem de radio, TV, jornal, publicitário, professor, poeta e cronista, radialista é atual comunicador do programa Radio Vivo da Radio Solar AM; Jose Carlos de Lery Guimarães, jornalista, advogado, professor universitário, homem de radio, TV, jornal, compositor, poeta, teatrólogo e escritor, atual editor geral e apresentador do Tele Jornal Tiradentes; Rubens Cleto Moreira, ex-publicitário, jornalista, radialista, leiloeiro oficial, fiel depositário de bens e valores da justiça do trabalho; Odoni Turola, esportista e comerciante de artigos esportivos, importante personalidade comunitária pelo apoio que oferece as grandes manifestações esportivas na cidade; Dormevely Nóbrega, historiador, memorialista, jornalista e poeta, professor de centro de ensino suplementar, artista plástico e critico de arte.

Ao iniciarmos este depoimento passamos a palavra ao Doutor Fabio Nery para primeira pergunta e desenvolvimento desse depoimento.

Trajetória do Mario com o Fabio Nery

Fabio Nery – Foi com grande emoção que recebi um convite do Mario Helênio para participar dessa gravação para a posteridade. Eu tenho para mim que um homem faz as coisas nesse mundo de duas maneiras, ou pro aplicação ou por vocação, o de aplicação, luta, trabalha incessantemente certas dificuldades para atingir o objetivo, o de vocação as coisas acontecem na sua vida, nas suas atividades com absoluta tranqüilidade, se ele aperta um botão aqui, lá na prefeitura o negocio se resolve, e o Mario Helênio está exatamente nesse segundo caso, nasceu trazendo no seu sangue, nas suas veias um sangue de jornalista, do seu pai, Jarbas de Lery Santos, meu amigo, homem que prestou relevantes serviços a cidade de Juiz de Fora, e como homem publico, geralmente todos eles, são injustiçados pelo povo. De Moacir de Brito, tio do Mario, e por afinidade eu pude buscar lá longe o velho, saudoso e grande jornalista Heitor Guimarães, por afinidade, pai do Finchas que casou com a tia do Mario. De maneira que até por afinidade o Mario trouxe na veia o sangue de jornalista, então tudo para ele foi fácil, quando em 1938 eu dirigia a seção esportiva do Diário Mercantil eu vi que o filho do Jarbas já estava militando por aí, e eu já logo em seguida formava em odontologia e precisava deixar alguém no meu lugar e pensei que o Mario, novinho ainda, mas ele iria crescer, na realidade não cresceu muito, mas se tornou um grande cronista esportivo e foi exatamente na primeira reportagem dele que foi a inauguração da piscina suspensa do Sport, eu me lembro muito bem, vieram ai, entre outros, famosa Maria Lenk, de maneira que na oportunidade que nos encontramos aqui outra vez, porque depois do jornal, logo em seguida, de 1946 a 1950 nós nos encontramos na faculdade de direito que funcionava no Granbery, então possivelmente, de todos os aqui presentes, eu seja aquele mais ligado ao Mario por motivos vários, alguns que eu já citei e a faculdade de direito foi muito agradável porque era uma escola particular e nós íamos as aulas todos os dias, todas as tardes e o Mario sempre presente. De maneira que nesta hora que o Mario vai realmente deixar aqui,  no vídeo e nas fitas, a sua vida e seu passado, eu gostaria de fazer uma pergunta muito rápida, é possível que o assunto volte, mas eu gostaria que você falasse sobre o grande clube que foi do seu pai, que é o meu clube, que é o seu clube, o Tupinambás Futebol Clube:              

Tupinambás

Mario Helênio – Efetivamente , Fabio, o papai sempre prestou a sua colaboração ao Tupinambás, chegando até a ser vice-presidente da então Liga de Desportos de Juiz de Fora, mas na década de 40 o Tupinambás empreendeu uma campanha que acabou sensibilizando toda a cidade, a campanha para construção do seu estádio, ouve então o lançamento dos quinhões, papai teve uma participação destacada nessa campanha porque como homem de imprensa ele passou a divulgar muito esse plano, ao mesmo tempo que eleito depois deputado federal em 45 ele nunca deixou de emprestar seu apoio aos realizações no nosso Tupinambás, eu me lembro que foi um movimento muito grande, e até a presença da Patria aqui nos faz lembrar com muita saudade dessa figura maiúscula da historia do Tupinambás que é José Paes Soares, o Tita Patria foi sem duvida o grande comandante dessa campanha que fez com que o Tupinambás tivesse o seu estádio inaugurado em 1950, depois de uma campanha muito esforçada, depois de uma grande campanha, até mesmo seu Vitorio Torola, pai do Odoni, aqui presente, teve uma participação efetiva numa obra que foi difícil de fazer, mas o Tupinambás com a velha fibra baeta, com esse esplendimento que sempre teve o Tupinambás, acabou dando a cidade o seu estádio, numa fase muito boa do futebol do Juiz de Fora, uma fase inteiramente diferente das que estamos vivendo hoje, porque de fato hoje o futebol está bem diferente daquele de antigamente, quando era feito com muito mais idealismo, com mais esforço, com estrema boa vontade, de maneira que o Tupinambás do papai, está dentro do coração e é hoje um sustentáculo do esporte da cidade, uma gloria, enfim, do esporte da cidade é o nosso querido Tupinambás.

Agradecimento pelo convite do depoimento

Mas eu queria, agora que já respondi a primeira pergunta do meu prezado Fabio Nery, eu queria dizer que em minhas primeiras palavras, estender o agradecimento a FUNALFA, pela gentileza do convite, para que eu prestasse esse depoimento no Museu da Imagem e do Som. Quando o Natalio fez um telefonema lá para a Radio Solar e me comunicou que o Mis iria voltar a fazer as gravações e que eu seria o primeiro dessa nova fase, eu analisei o fato sobre dois aspectos, afinal de contas são 54 anos, graças a Deus,  de vivencia, ininterrupta na imprensa, e agora 42 anos esse mês que estou atingindo de atividade radiofônica, também, graças a Deus, diária. O outro aspecto, vi na indicação do meu nome uma homenagem a uma classe idealista, uma classe destemida, uma classe, por que não dizer… sofrida, que é a classe jornalística, que tem dado nesse anos todos a maior contribuição no desenvolvimento de Juiz de Fora, a imprensa de Juiz de Fora tem fatos memoráveis, e ela sempre batalhou para que Juiz de Fora atingisse, hoje, essa posição privilegiada que ocupa no conceito nacional. E fiquei muito honrado pelo convite, porque é de se considerar o fato de que o Museu da Imagem e do Som têm gravado a palavra, o depoimento de personalidades da maior expressão no cenário da cultura, no cenário intelectual, literário, no cenário político, quer dizer, histórico da cidade, e integrar esse depoimento a uma gama de gente tão laureada, tão brilhante, para mim realmente constitui uma satisfação muito grande, meu agradecimento a FUNALFA, agora dirigida pela professora Pátria Soares Zambrano, que conheci como grande voleibolista, depois como professora de educação física, recebeu comigo em 80 o mérito esportivo José Calil Ahouagi, é minha dupla colega, de Panaton e também de muitos anos na prefeitura, principalmente na secretaria de educação, e a Pátria pertencendo a uma família genuinamente esportista, eu lembrei aqui do País, lembro também do Oceano, quer dizer, os dois irmãos baetas, da mesma forma que os tios da Pátria, o Céu Azul e o Solear que eram carijós, de maneira que uma família dividida esportivamente, mas sempre dentro daquele espírito… a gente cansou de ver Tupi e Tupinambás com Oceano e País de um lado e o Sol e o Céu do outro lado, os agradecimentos então na pessoa da Pátria, do Natálio Luz, não sei onde o Natálio é melhor se como teatrólogo, se como ator, se como narrador, se como pintor, se como autor , é um artista que a cidade conhece bastante e aprecia também. E na pessoas também da Regina Rodrigues Santos que é a coordenadora aqui do Museu da Imagem e do Som.

Valeu a pena

Mario Helênio – Em 1986, nós vamos em frente, quando eu completei 50 anos de imprensa, de atividade na imprensa, uma pergunta que me era feita constantemente: “Mario, valeu a pena?” E eu sempre respondi que sim, que se eu tivesse um dia que começar de novo, eu queria começar da mesma forma que eu estou, quer dizer, escrevendo em jornal, falando em radio, mexendo no esporte, quer dizer, trabalhando e colaborando para que clubes e entidades sempre posam fazer o melhor possível para Juiz de Fora. É uma constante na minha vida dizer que se pudesse começar de novo eu realmente começaria da mesma forma que estou. E ao reverenciar a memória de todos aqueles jornalistas que se foram, aqueles jornalistas que deixaram marcada de forma indelével a sua passagem pela imprensa de Juiz de Fora, eu gostaria de ver a situação dele agora, vendo a tecnologia em que se encontra a imprensa, porque antigamente fazia-se jornal com tipo, metade de um palito, com uma letrinha minúscula no componedor, depois veio a linotipo, antes era o noticiário feito pelo telefone, hoje é telex e agora o fax, a impressão, só podia imprimir duas páginas, tinha que esperar um tempão para poder imprimir outras duas, depois, é bem verdade, veio a rotativa, e agora essas maquinas notáveis que imprimem a cores dezenas e dezenas de páginas, era um tempo difícil, fazer imprensa naquele tempo era uma tarefa espinhosa, e o Dormevely  é desse tempo, eu pediria que participasse dizendo como era difícil, porque o Dormevely pegou, eu tenho a impressão isso tudo, do componedor, o tipógrafo…

Dificuldades de começar no jornal e o trio dos M

Dormevely – É Mario, você tem ampla razão, a imprensa daquela época, nós éramos levados, de inicio, para a cozinha do jornal, o que nós chamávamos de cozinha do jornal que era aprender a compor e pequenas noticias, só depois desse estagio de tipógrafo nós passávamos a redação, geralmente recebendo a incumbência de fazer a cobertura da policia inicialmente, que era a cobertura mais difícil, para chegar a ser um cronista, naquela época, o cronista social, que escrevia pequenas crônicas, crônicas sentimentais, crônicas amorosas, para chegarmos nesse estagio era um sacrifício muito grande e quando se chegava ai, já era uma gloria muito grande, o jornalista começava a ser glorificado, até passar para uma redação maior, poder assinar os artigos, ou poder escrever os artigos de fundo do jornal, ai sim, ai era um estouro da alegria, ai o jornalista estava realmente realizado. Mas Mario, passou aqui pela minha memória, um fato muito interessante da sua vida, da nossa vida, quando a Radio Industrial reiniciou os seus trabalhos em Juiz de Fora mudando da rua Halfred para a Rua Batista de Oliveira, nós fomos convocados a escrever um programa especial para a inauguração e nessa inauguração teríamos que apresentar todos os elementos da emissora, e nós tínhamos um trio interessantíssimo na radio, que era o trio dos três M , Mario, Mauricio e Mauro e o interessante quando você se lembrou da família Soares, dos dois que eram carijós e dos dois baetas, eu me lembrei do fato desses três trabalharem em conjunto, Mario baeta, o Mauro tinha o apelido de Tupizinho porque era carijó e o Mauricio era do Sport, quando esse trio foi formado, a pergunta que se fez foi a seguinte, fizeram essa pergunta a mim… “Como vai ser essa trapalhada? Esses três vão torcer para os seus clubes…” ”Não, eu confio plenamente na qualidade dele, na honestidade deles como profissionais…” E realmente, esse trio foi um dos trios mais brilhantes  da vida esportiva de Juiz de Fora. Mas outras lembranças virão Mario.

O apelido de Tesourinha

Mario Helênio – O Fabio lembrou que em 38 ele me levou para o Diário Mercantil, porque que o que acontece é o seguinte, o que acontecia, eu fiz o primário no Santos Anjos, ali na Avenida Rio Branco defronte o Exélsio, ondeanos depois iria a redação do Diário Mercantil, quer dizer, eu que frequentei os bancos escolares do Santos Anjos, acabei depois na redação do Diário Mercantil, nessa oportunidade inclusive eu fui contemporâneo de um ator hoje muito conhecido na televisão que é o Claudio Corrêa e Castro, que estudou em Juiz de Fora no Santos Anjos. Em 36, 37 eu saia do Santos Anjos e ia para a redação do Farol e do Jornal do Comércio, que eram os jornais do Francisco Valadares e que o papai dirigia. E nessa ocasião eu fiquei conhecido, e eu até hoje… eu até prefiro que o Fabio Nery fale como eu sou conhecido…

Fabio Nery – O tesourinha.

Mario Helênio – É porque eu chegava na redação e pedia a tesoura… “Cadê a tesourinha? Cadê a tesourinha…? Então recortava os jornais do dia e quando o pessoal chegava para trabalhar eu mostrava o meu jornal, eu cortava os jornais e já colava, ai apresentava o meu jornal… Daí então tesourinha, hoje inclusive se perguntarem ao Valdir Amaral quem é Mario Helênio, ele não sabe, mas se falar Tesourinha ele vai lembrar…

Claudio Temponi – Há uma pessoa que infelizmente não está mais aqui entre nós, mas que sempre chamou você de Tesourinha e com muito carinho, o Strique, você sempre como Tesourinha para ele.

O Inicio do Mais jovem jornalista do Brasil

Mario Helênio – Eu lembro, por isso que eu estou dizendo, têm muita gente que se falar Mario Helênio nunca… Tesourinha. Mas Tesourinha foi um apelido da turma antiga, Arídes, Edgar Guimarães, Chileno, e tantos outros que lidavam comigo ali. Nesse mesmo ano, o papai como presidente da associação mineira de imprensa, ele coordenava os congressos nacionais, a participação de fora nos congressos nacionais, foi nessa oportunidade que eu fui ao Rio de Janeiro e a tia Aparecida que veio do Rio de Janeiro agora só justamente para acompanhar esse depoimento, contou um caso há instantes atrás, que nós ficávamos no Hotel Globo ali na Avenida dos Andradas no Rio de Janeiro e ouve uma ocasião em que telefonaram da redação do O Globo que eu estava lá no O Globo querendo falar com o Herbert Moses, que eu queria dar uma entrevista ao Herbert Moses, porque o Herbert Moses é hoje o que é o Ataíde na Associação Brasileira de Letras, era o presidente eterno, um homem do maior conceito, a ABI, presidente da ABI, fez aquele bonito prédio, foi o Herbert Moses… Então a tia Aparecida registrou isso, que eu saí do hotel, não falei com papai… quando papai me procurou… depois que O Globo avisou, porque O Globo é na Avenida Carioca, pertinho da Andrada… “Têm um menino aqui na mesa, diz que quer falar com o doutor Herbert Moses, vêm apanhar ele aqui.” E nessa mesma ocasião, nesse congresso no Rio de Janeiro, nós fomos recebidos no Palácio do Catete pelo presidente Getulio Vargas, que papai havia conhecido em 33, 34, por aí, e nós fomos nesse congresso e eu me lembro perfeitamente que O Globo registrou presença, dizendo que estava no Rio o mais jovem jornalista do Brasil, uma fotografia que eu apareci ao lado do Getulio Vargas. Bem, dois anos então depois, o Fabio me levou para o Mercantil, ai eu já estava no Bicalho e um desportista muito conhecido na cidade, era o Adelino, professor Adelino Alberto, o Adelino cuidava do vôlei, do basquete do colégio Bicalho, então já estava no colégio Bicalho, cuja direção era de uma insígnia educadora, dona Áurea Bicalho, um nome de maior prestigio nos meios educacionais do estado e do país. O Adelino pedia para eu levar a notícia esportes no colégio Bicalho, hoje Instituto Bicalho, era em São Mateus, onde é hoje, continua lá, desativado…  E ia levar sempre a notícia para o Fabio porque o Adelino tinha também nessa ocasião o time Adelino, que posteriormente se transformou em Olímpico, o Fabio também tem uma historia a respeito para contar, e o Fabio falou… “Em vez de você trazer, senta ai e faz a matéria…” Então nessa ocasião realmente que eu me integrei ao Diário Mercantil. Em 1940, quando eu fiz 15 anos o Renatinho assinou minha carteira, porque depois o Fabio se afastou. Em seguida veio a fundação do Diário da Tarde, porque o Mercantil era matutino, então o Diário da Tarde, logo no inicio da década de 40, o papai que já era naquela ocasião inspetor de ensino passou a figurar no quadro redatorial do Diário da Tarde, até uns dias atrás eu tive vendo um artigo do saudoso professor Hipólito Teixeira referindo-se a morte do papai, um artigo que ele escreveu sobre uma explosão que houve na fabrica Juiz de Fora que foi uma comoção na cidade inteira, papai escreveu um artigo genial e o professor Hipólito citou esse artigo, porque o papai era realmente uma pena brilhante, para escrever realmente tinha qualidade excepcionais nos seus escritos. Mas nessa época de Diário da Tarde e Diário Mercantil, com esse negócio de eu fazer aquele mesmo jornalzinho no Farol e Jornal do Comércio, eu sempre queria ter o meu jornal e já conhecendo alguns companheiros também ligados ao esporte surgiu a “Vida Esportiva”. Eu até perguntei ao Dormevely se ele tem por acaso, na sua fabulosa biblioteca, alguma “Vida Esportiva”, teria?

Dormevely – Tenho, só não trouxe para você ver porque o tempo não me permitiu.

Mario Helênio – Era noticiário de radio e esporte né?

DormevelyExato, mas eu trouxe aqui o número 1 da “Equipe” que foi posterior. Eu trouxe aqui a ficha “Esportes em Revista”  “Esporte em Equipe” “Vida Esportiva” e “Esporte em Revista” eram suas.

Mario Helênio – A equipe era feita na Avenida Getulio Vargas, em uma oficina que nós tínhamos ali e uma demonstração positiva do que vale o idealismo, era feita no “tipo” ainda, no componedor, aos domingos, porque circulava as segundas-feiras, nós tínhamos uma oficina só, uma oficina tipográfica… O jornal era preparado domingo, nove e meia, dez horas da noite, era alugada uma carrocinha, as paginas eram colocadas na carrocinha e eram levadas para o lampadário, na Espírito Santo, porque as sete horas da manha o jornal era impresso e distribuído. E o meu primeiro leitor, quem primeiro lia “A Equipe” depois de rodada na impressora da lampadário era Dom Justino, quer dizer, o Bispo é que dava, praticamente, a saída; quando nós íamos buscar os exemplares o Bispo já estava aprovando “A Equipe”. Sacrifício incomum, fazer o jornal no “tipo”, na Getulio Vargas, levar para o lampadário e imprimir….

Inicio no Radio

…Sob esse aspecto, até 48, 49, era essa minha participação no jornal, porque 48, 49 começou a mudar para o lado do radio, eu tenho aqui o Rubens Cleto Moreira e tenho também o Cláudio Temponi, eu queria aproveitar primeiro o Rubens, porque falou-se na implantação de uma nova emissora em Juiz de Fora, em 49, e de repente o Rubens Cleto Moreira me leva para a Radio Industrial… Eu queria que o Rubens contasse de fato como foi, de que maneira ele conheceu Seu Alceu Nunes da Fonseca que era um grande empresário de radio, tinha varias emissoras e era o responsável pela implantação da Industrial em Juiz de Fora. Rubens Cleto Moreira, como ouve essa indicação do meu nome, o que aconteceu?

Rubens Cleto Moreira ­- Antes de eu responder, você falando me fez lembrar da razão da nossa amizade, me fez lembrar a canção que dizia… “Amigo é para se guardar do lado esquerdo do peito.” E está aí uma verdade, eu procurei te conhecer para te levar para a Radio Industrial, ouvindo um dia você, me despertou…eu tinha ligado para a Radio Nacional, e o mesmo comentário tinha sido feito a respeito de um jogo, não me lembro bem se São Januário, não sei que estádio foi na época, e que o comentarista dizia assim… “Um estádio repleto, nesses dias difíceis…” muita dificuldade de dinheiro, já naquela época tinha dificuldade… E eu doido para saber o resultado do jogo e não conseguia, e ele falando sobre o que havia acontecido no estádio, repleto, houve incidentes, policiais etc… Para no fim dizer assim… “Com a vitória do time tal, sobre o time tal…” Não sei precisar que time foi. Ouvindo a mesma notícia no dia seguinte, essa a razão que me despertou para te convidar, daí que nasceu nossa amizade, ouvindo um comentário seu na Radio Tiradentes, você começa com o espírito jornalístico vendendo a notícia… “Vitória do fulano sobre… de tanto a tanto, aconteceu hoje no estádio fulano de tal, que estava repleto, com dificuldades…” Na época eu pensei… “Bem, genial, ele sabe fazer a venda da noticia…” Porque a notícia era sobre esporte, era o que tinha que ser vendido e não a lotação do estádio. Gostei, fixei aquilo. Meses depois, conhecendo Alceu Nunes da Fonseca, nosso grande amigo, me convidou para que eu ficasse aqui como representante dele para instalar uma radio, não sabia até então que tipo de radio e não sabia também como o Alceu desempenhava a função dele, estava acompanhado do Doutor Barros, que era também engenheiro e também do ministério da aviação e obras públicas, naquela época dava concessão as rádios, então ele me revelou… “Olha, eu tenho 79 emissoras, representadas, e muitas delas em minha propriedade. Estou pensando em instalar aqui uma radio. Tem condição? A cidade suporta uma radio moderna?” “Podemos estudar…” Ficamos dois dias em estudo… ele disse: “Precisamos de localização… tem possibilidade?” Eu disse: “Tenho” Consegui a localização para ele no edifício Baependi, recém inaugurado… Por coincidência as chaves estavam comigo, passei as chaves para ele… E ele gostou do meu desempenho e disse… “Olha, quem sabe se você me conseguir dois elementos bons para que se possa formar aqui uma equipe… Há possibilidade disso?” “Há possibilidade, vamos conseguir.” A primeira coisa que ele me diz: “Têm possibilidade de conseguir um comentarista esportivo? Não conhecia o Mario Helênio, aí que eu fui procurar o Mario, a razão da nossa amizade, eu tinha guardado aquela transmissão, aquele comentário dele… “Têm sim, vamos conseguir.” “Então pode-se  pôr em campo, que nós vamos iniciar os trabalhos para instalar a Radio Industrial. Mas é bom que vá conseguindo os elementos, você vai ficar como nosso representante aqui, vai receber os matérias, torre, enfim, tudo o que precisa e pode-se colocar em campo…”  Procurei o Mario Helênio, me apresentei, Mario ficou meio assustado até, ficou assim meio arredio, falei: “Vai ser instalada uma radio em Juiz de Fora.” “Radio!” Ele recebeu assim, com bastante entusiasmo… “Uma nova radio?” “Sim, e pela informação que tenho uma radio moderna, vai atingir toda a Região da Mata… vai ter um alcance muito bom…” O Mario entusiasmou-se… “Mas eu tenho meu amigo também aqui que é o Mauricio de Campos Bastos, Mauricinho, você aceita Mario?” “Perfeitamente, pode marcar hora, dia… que lá estarei.” Telefonei então para o Alceu Fonseca que já tinha ido para o Rio, falei: “Arranjei dois talentos.” Ele disse… “Que isso?” Isso me valeu mais tarde ele me apelidar de o Lobo da Mantiqueira, por causa do Mario, porque ele chegando aqui, dias depois, marcou um encontro lá no Bacaendi, lembra disso Mario? Na sala vazia e falou: “ Pega uma caneta como se fosse um microfone e faz qualquer coisa…” O Mario fez um comentário espetacular, o Seu Alceu disse: “Escuta, uma vitória espetacular, um jovem extraordinário…” Então não desmereceu, me honrou demais, até hoje me sinto envaidecido de ter conquistado para o Mario essa posição que para ele seria muito fácil, mas na época que se lutava contra a falta de profissionais, aquele foi uma grandiosidade para a ZYT-9, Radio Industrial. Daí para frente, o Mario desenvolvendo o trabalho dele com o Mauricinho e o Mauro Lucio. Então essa é a razão desse honroso convite do Mario para que hoje aqui participasse, daí para frente vão se desenrolar novos fatos importantes  e eu vou lembrar… Inclusive jornalismo… fui seu eleitor muitas vezes no sindicato, não é isso Mario? E eu te perguntaria agora o seguinte Mario, você já respondeu em parte ali que se fosse começar tudo de novo, começaria e estaria satisfeito; eu pergunto para você o seguinte, a sua entrada na Radio Industrial, o que representou para você naquela época?

Mario Helênio – A principio foi difícil, porque de radio só tinha a experiência em alguns programas esportivos que o Céu Azul fazia para a Radio Tiradentes, cujo operador era nada mais nada menos que nosso Claudio Temponi, era o estúdio perto do Faisão Dourado, o que seria o restaurante Faisão Dourado, eram as transmissões para São João… a Radio Tiradentes, doutor Gilberto de Andrade… Até que em 1948, aqui em Juiz de Fora, ouve um jogo internacional, em maio de 48, a seleção da cidade contra o Southampton da Inglaterra, o Céu Azul era o locutor e me fez um convite para ser o comentarista da partida; em uma época em que ainda dias na TV Educativa o Luiz Mendes lembrou que as rádios tinham locutor esportivo mas não tinham comentarista, no intervalo do primeiro para o segundo ia para o estúdio para tocar musica. Então a figura do comentarista não era muito conhecida em radio, então a minha experiência de radio começou exatamente na Tiradentes em 48, mas ai veio a Industrial em 49 e foi a fase de ouro da radiofonia em Juiz de Fora, porque a Radio Industrial entrou dentro de um novo esquema de radio, porque a nossa querida, tradicional e velha B-3 funcionava no Parque Halfred, inclusive na biblioteca, tocando musica, um anunciozinho… E a Radio Industrial, da maneira que ela entrou no cenário radiofônico, foi uma saída de forma surpreendente, nós fizemos no sábado da inauguração um show no Palace Hotel, na boate do Palace Hotel, neste mesmo sábado uma batalha de confete na rua Marechal Deodoro, do nosso querido Antonio Cury… Eu, Mauro, Mauricio que transmitimos a batalha de confete… No domingo de manha foi realizada uma corrida de automóveis em Juiz de Fora, pegando uma boa parte da cidade, o miolo central, pela primeira vez, isso nunca tinha acontecido em Juiz de Fora, a Industrial falou de quatro pontos, de cima da marquise do Ciampi, aqui na esquina da Marechal Deodoro com a Getulio Vargas, na Santa Rita e mais um ponto… Aquilo, uma corrida de automóveis, transmitida, a cidade já ficou… “A industrial realmente vêm para fazer qualquer coisa.” A tarde, Torneio Inicio de Futebol… a B-3 na radiava muito futebol, periodicamente não radiava futebol, nós radiamos todo o Torneio Inicio, e foi justamente na semana que antecedeu o carnaval de Juiz de Fora… Então o que acontece no carnaval de 49? A Industrial fala de todos os clubes da cidade de meia em meia hora… Era Clube Juiz de Fora, era Circulo Militar, era Tupi, era Sport, era Ásia ali na Rua Halfeld… Quer dizer, de todos os clubes, a Radio Industrial… ela radiava o carnaval… Além de transmissão de pronto socorro, da Central do Brasil, da rodoviária, o movimento policial, aquilo foi um cartão de visitas que bem demonstrou que a Radio Industrial veio para dar uma dinâmica no radio de Juiz de Fora. Tanto que um ou dois anos depois a B-3 sentiu necessidade, tinha que sair do Parque Halfeld, foi então adquirido aquele ali na rua São João, a B-3 passou para ali e teve que seguir a mesma linha de conduta da Radio Industrial que continuou realizando reportagens importantíssimas, por exemplo, em 1950 eu me lembro, alias quase todos se lembram do incêndio no clube Juiz de Fora, nós tínhamos acabado de transmitir para Juiz de Fora, estávamos no Faisão que nós sempre íamos lá comer alguma coisa, quando chegou a noticia de que o Clube Juiz de Fora estava pegando fogo… O que nós fizemos? A Industrial era no décimo andar, lembrou o Rubin… Puxamos um fio lá de cima e ficamos até duas horas da tarde, a mesma equipe que tinha saído de lá e que estava esperando a outra que estava no outro clube, a mesma equipe, nós trabalhamos até duas da tarde transmitindo o incêndio do Clube Juiz de Fora que era na Rua Halfeld esquina com a Avenida Rio Branco e o Faisão era na galeria ao lado do Central, um ponto dos boêmios simpáticos, todo mundo lembra do Faisão nessa oportunidade, o Dormevely também era freguês assíduo do Faisão Dourado, o saudoso Miguel Luiz Detz toda madrugada lá no Faisão batendo papo, conversando… E a Industrial entre outros grandes eventos de 49, irradiou o campeonato sul-americano que se realizou no Rio de Janeiro, em São Januário, eu, Mauricio e Mauro fomos ao Rio de Janeiro transmitir o campeonato sul-americano. E em 50, na Copa do Mundo realizada no Brasil, na inauguração do Maracanã a Industrial tinha uma cabine… a Industrial irradiava de São Paulo, irradiou do Rio… transmitiu toda a Copa do Mundo. E entre outras grandes reportagens da Radio Industrial que eu participei, eu me lembro do júri do Tenente Bandeira, ficou muito conhecido o crime do Sacopã, que durou quatro dias e quatro noites, eu Ulisses de Andrade e Valmir que transmitimos todo o júri… a parelhagem instalada em uma sala ao lado do tribunal de júri, um júri de grande repercussão, o júri do Tenente Bandeira.

Mauricio de Campos Bastos e Mauro Lucio

Mauricio de Campos Bastos estudava na Academia, rubro negro como eu, então a gente estava sempre se encontrando e eu já tinha… com o Mauricio na “Vida Esportiva” depois no “Esporte em Revista”… O Mauricio tinha muito jeito, muito tato, gostava muito de escrever e de falar… Então o que aconteceu com o Mauricio foi o seguinte, eu perguntava para ele o time de aspirantes do Bom Sucesso ele dava, muito interessado, comprava tudo o que era revista… O Mauricio aposentou como juiz de trabalho brilhante, o Mauricio hoje é advogado em Brasília, foi também presidente da justiça do trabalho, entre os grandes presidentes que eu tive como vogal durante dezoito anos de trabalho, o Mauricio sempre se destacou.

E o Mauro Lucio, o Fabio já teve dizendo era o Tupizinho, ele era da equipe do Bié, trabalhava na Radio Sociedade com o Bié, funcionário do Banco do Brasil até aposentado, o Mauro veio então e se integrou. Era um trio e nós fazíamos todas essas reportagens porque… eu tenho a impressão que o comunicador do interior, o jornalista do interior, tem que fazer de tudo, então nós fazíamos… sempre tem a primeira vez…

Dormevely – Daí porque todos os jornalistas que trabalharam em Juiz de Fora naquela época e que saíram daqui se deram muito bem lá fora, porque eles chegaram lá fora como professor de jornalismo…

Mario Helênio – Nós irradiávamos semana santa, inauguração de loja, de banco… Íamos nós para irradiar, qualquer coisa que tinha a radio cobria.

Força da Radio Industrial

Dormevely – Em face de toda essa atividade foi que o Genival Rabelo escreveu nessa altura mais ou menos, 1948, 49, que a Radio Industrial era a melhor emissora do interior do Brasil, que com a prata da casa a radio conseguia fazer o que estrelas de São Paulo e do Rio de Janeiro não conseguiam fazer.

Mario Helênio – E a verdade é que o Seu Fonseca, o Rubinho pode até comprovar isso, sempre achou a Radio Industrial o doce de coco das emissoras dele… Ele tinha em Ilhéus, Barbacena, Caxias do Itapemirim, tinha em Barra Mansa, mas a Radio Industrial… Qualquer coisa em termo de moderno vai para Juiz de Fora…

Rubens Cleto Moreira – E sempre dizia assim… “Os talentos que você me arranjou é uma grandiosidade, a Industrial hoje me deixa impressionado.” Levava aquelas gravações, naquele tempo deficiente as vezes, mas ele levava os gravadorezinhos com as fitas… Era uma maravilha, ficava encantado.

Mario Helênio – Mandou um carro de reportagem, um volante, antigamente chamava de FM, então a reportagem era na rua, era no local, acontecia alguma coisa nós estávamos lá…

Rubens Cleto Moreira – Tinha uma plataforma em cima do carro.

Dormevely – A Felicidade Bate a Sua Porta…

Mario Helênio – Um programa de âmbito nacional era transmitido aqui de Juiz de Fora.

Rubens Cleto Moreira – Show ao vivo! Aquilo foi uma novidade, em 1949 uma coisa impressionante para Juiz de Fora. Show ao vivo na rua…

Mario Helênio – Justamente pelo conhecimento do Seu Fonseca no Rio de Janeiro, constantemente os grandes artistas do radio do Rio vinham a Juiz de Fora. Eu tinha um programa na radio, que era o “Serpentinas Coloridas”, constituiu, sem duvida, esse programa, a minha colaboração a musica popular de Juiz de Fora. Porque um mês antes do carnaval nós fazíamos esse programa “Serpentinas Coloridas” de duas horas, de dez à meia noite, e a maior parte reservada a musica de Juiz de Fora, então os compositores de Juiz de Fora, todos os dias, iam cantar, levar sua musica na radio…

Dormevely – E nessa época nós tínhamos a associação de compositores de Juiz de Fora, que depois do afastamento do Oceano Soares a associação acabou.

Mario Helênio – Outra coisa importante também nessa fase da Radio Industrial, quando já passou para a rua Batista de Oliveira, quando saiu do Baependi, a Radio Industrial sentiu necessidade de sair de lá, ganhou nome, ganhou projeção… Se deu ao luxo de fazer um programa de auditório por noite e sempre com grandes artistas, nomes famosos que vinham a Juiz de Fora. Além de cobertura de eleição, em suma Radio Industrial deu uma sacudidela na radiofonia de Juiz de Fora e a B-3 então teve que sentir necessidade, teve que chegar ao mesmo nível.

Rubens Cleto Moreira – Eu estou lembrando aqui, não sei se você ainda lembra, a Radio Industrial foi pioneira da transmissão de televisão no Brasil. Teve uma ata, não sei se você assinou a ata naquela transmissão.

Mario Helênio – Em 1950 o Olavo Bastos Freire, ele foi o verdadeiro pioneiro da televisão, era uma imagem na caixinha de fósforo, do tamanho da caixinha de fósforo, na Casa do Radio, ou no Clube Juiz de Fora, onde ficava?

Dormevely – Na Casa do Radio, ele transmitia o jogo para a Casa do Radio e depois do Clube Juiz de Fora para a Casa do Radio. Mas depois transmitiu do Tupi para a Rua Halfred.

Mario Helênio –  Nesse dia é que aconteceu esse fato, que estava em Juiz de Fora, foi um jogo, se não me engano Tupi e Bangu, quem veio foi Antonio Cordeiro que era um grande amigo nosso aqui. E o Antonio Cordeiro, depois do jogo, telefonou para o Eron Domingues e pediu que pessoalmente ele desse a noticia que Juiz de Fora tinha transmitido o primeiro jogo pela televisão da America do Sul.

Dormevely – E o Olavo, felizmente ainda está vivo, está preparando uma exposição de todas as coisas dele para comemorar os quarenta anos de transmissão.

Mario Helênio – Deve ser uma coisas formidável. Eu fiquei tão entusiasmado… Em me lembro que rapidamente eu fiz um comentário nesse dia. Mas eu fiquei tão entusiasmado que terminado o primeiro tempo, depois que eu falei, eu peguei o primeiro bonde, desci, vim para ver a imagem do jogo, porque foi uma coisa sensacional, o Rubinho lembrou bem, o advento da televisa… esse jogo transmitido pela televisão. E ele chegou a transmitir também o programa “Serpentinas Coloridas” lá do Baependi…

Rubens Cleto Moreira – Você não participou dessa transmissão não Mario? Eu tenho uma vaga lembrança sua na transmissão…

Mario Helênio – Participei, e depois eu desci no primeiro bonde para ver lá me baixo o jogo porque ficava todo mundo comentando… Era uma televisão do tamanho de uma caixa de fósforos, era o vídeo, a gente podia ver… Mas a essa altura, 48, 49, eu já conhecia, passei a conhecer o Claudio, primeiro como um dos grandes voleibolistas da cidade, o Claudio jogava no Mangueira, São João da Pombocena, depois veio para Juiz de Fora… E o Claudio deve ter muita coisa para contar, principalmente uma passagem nossa pela TV Mariano Procópio, não é Claudio?

Contato com Claudio Temponi

Claudio Temponi – É sempre muito bom ver você, especialmente em uma ocasião dessa, eu quero saudar a FUNALFA pela lembrança feliz de colocar o Mario onde ele tem estado e vai estar sempre, na posteridade, na historia da cidade, da comunicação… Isso em um dia muito feliz, porque hoje é dia do artista plástico, nós temos três aqui, o Natálio, o Dormevely e o próprio Mario que tem uma plástica maravilhosa na sua dialética, então são três, e hoje é dia da vitória, há 45 anos atrás terminava a guerra, o Brasil era vitorioso também, e o Mario deve ter noticiado isso há 45 anos atrás. Mas o meu conhecimento com o Mario começou só pela voz, Mario Helênio… era a mesma voz de garoto que ele tem até hoje, a voz do Mario é a mesma voz de menino, ele tinha naquela época…  você tinah quantos anos na época…

Mario Helênio – Eu nasci em 25… Faz a conta…

Claudio Temponi –  Não começa com… Eu era operador de radio da Radio Tiradentes de São João ZYO-5, lá em São João, onde tinha transmissores e estúdios, nós mantínhamos também um estúdio em Juiz de Fora, aqui no edifício Baependi também. Então eu era operador de radio, era locutor esportivo José Céu Azul Soares, já citado aqui pelo Mario Helênio, tio da Pátria etcetera e tal, comentarista era o Marcos Sobrinho, nessa tarde, não sei porque cargas d’água, veio jogar em Juiz de Fora o Southampton, um time da Inglaterra, foi uma novidade, um reboliço na cidade, e o Céu Azul convidou Mario Helênio para ser comentarista, eu era operador… E quando eu vi eu pensei que era um garotinho, um menino, já não era, já tinha mais de vinte anos, uma voz de menino e falando fluentemente, eu falei… “Que maravilha, que gênio!” Mais tarde eu conheci o Luis Carlos que é o mesmo gênio que ele. Foi quando eu conheci o Mario Helênio. Quando eu vim em Juiz de Fora em 49 para conhecer a Radio Industrial, já famosa, foi então que eu conheci o Mario Helênio fazendo “Serpentinas Coloridas” no estúdio, programa feito ao vivo, foi quando conheci o Mario Helênio, falei: “Esse que é o Mario Helênio, puxa vida, não sabia…” Não era tão garoto assim, apesar de baixinho. Mas então comecei pela voz a conhecer o Mario e depois vieram outras reportagens… E a fluência do Mario em falar impressionava especialmente a nós radialistas do interior, que também é uma grande escola, ficava impressionado, como pode falar assim? O Mario falava com uma fluência incrível, o Mario não repetia palavras, o Mario não errava, não tropeçava… Ta lendo? Não, não estava lendo… As reportagens que ele se referiu aqui, ele fazia com a maior facilidade, como se estivesse lendo um script. Esse era, como é hoje, Mario Helênio. E vocês que não conhecem deviam ver o Mario fazendo programa de esportes hoje… E é até bom que ele fale muito isso ai sobre a Radio Industrial na época porque eu costumo dizer para os garotos de hoje, os jovens que estão nos honrando com a presença aqui, pessoal esportista de hoje, quando digo que a tecnologia não avançou não, no radio regrediu, isso que tentamos fazer hoje nós fazíamos a quarenta anos atrás e com facilidade, com um pé nas costas, transmitir de seis, oito, dez lugares ao mesmo tempo… futebol, transmitíamos sem linha telefônica, direto, e o Mario fazia isso, o trio M, Mario Helênio, Mauricio Campos Bastos e Mauro Lucio, famoso trio M. E o Mario desenvolveu a vida esportiva dele com abrangência maior porque o radio alcançava antes, como hoje e sempre, onde o jornal não chega, o radio vai onde não vai a televisão. Alias em recente entrevista, em pesquisa feito pelo IBGE o radio demonstrou-se como o veiculo mais penetrante no Brasil, deu acima de 70% nos outros, o radio é um alcance incrível, então a palavra do Mario, muito fluente, muito leve e sempre muito equilibrada, isso que é importante frisar, chegava no Brasil inteiro, não em Juiz de Fora, mas no Brasil inteiro. E o Mario Helênio ficou famoso realmente, você fez um outro programa… Serenata também, seresta, de meia noite as duas da manha, Nelson Gonçalves etcetera e tal…

Mario Helênio – É eu tinha um programa de uma as duas horas da manha…

Claudio Temponi – Com era…? Serenata… Mas ai na onda tropical, não existe mais não. Hoje me cobraram inclusive por que o radio não volta à onda tropical… O radio quer, talvez queira, eu queria, mas onda tropical ficava entre a onda curta e a longa… Então… As que tem não vendem, não emprestam, já estão acabando… Mas em 1927, como diria o nosso Chico Anísio, as coisas aconteciam realmente de uma forma diferente, mas com muito amor, amor mesmo, eu comecei a trabalhar com radio, não sou eu o entrevistado é o Mario Helênio, mas é que o Mario ficou ligado a mim direto, porque, por incrível que pareça, você vê que falaram aqui o Fabio Nery, o Vivy que não nasceu ontem também,  Rubin que nasceu anteontem, o Odoni que vai nascer ainda, não falou ainda, o Mario Helênio que nasceu anteontem… eu me senti meio jovem naquele instante, mas engraçado, em termos de radio eu sou mais velho que o Mario, eu tenho um ano a mais, eu comecei em 47, na Radio Tiradentes ZYO-5 de São João da Pombocena Gilberto de Andrade, de onde eu vim para a Radio Industrial já em 51 a essa altura… Ai então começou a minha grande amizade com o Mario, amizade que perdura hoje, são poucos os da época que continuam vivos no radio até hoje, uns vivos fora do radio, outros nem vivos mais, mas Mario Helênio e eu estamos vivos e no radio até hoje, nos encontramos diariamente, eu termino o programa as onze e meia, ele entra as onze e meia, até hoje os velhos se encontram, o encontro dos velhos e isso é muito bom.

Mario Helênio – Sobre a TV Mariano Procópio, quantas vezes nós fizemos…

Claudio Temponi – Começou a inauguração em 61, em 61 inaugurou-se a TV Mariano Procópio em uma jogado do Renato Dias Filho, está vivo entre nós, nadando até hoje, ele vendeu ações da TV Mariano Procópio como sendo da B-3, ele fez uma jogada e colocou em Juiz de Fora a TV Mariano Procópio, associada, aqui no morro São Bernardo, lá em cima, então inaugurou-se, foi no Clube Juiz de Fora a inauguração, eu tenho fotos, tenho noticias, tenho tudo, uma festa bonita… Eu entrevistando a alta sociedade, Raimundo Nonato Lopes, era só alta sociedade, entrevistando o pessoal… E o Mario já participou de programa esportivo… Mais tarde começamos a transmitir futebol do Rio também, transmissão de futebol por televisão, nós não tínhamos a nossa imagem, a nossa imagem era proxenetada da TV Itacoluni em Belo Horizonte que eu fundei também em 55, e a gente transmitia só som, a gente ficava atrás da cabine de radio do Maracanã transmitindo, o Mario era comentarista, alias hoje encontrei sabe com quem? Mauricio Menezes, que você lançou no radio, em 1956 ou 7…

Lançamento do Mauricio Menezes

Mario Helênio – O caso com o Mauricio, rapidamente eu vou explicar, a Dona Irene, tia do Mauricio foi professora da minha mulher, Aparecida, e ela constantemente encontrava com a Aparecida e dizia assim: “Aparecida, vê se o Mario Helênio coloca o Mauricinho no radio porque ele fica o dia inteiro em casa irradiando futebol… de maneira que ele adora futebol e eu tenho a impressão que daria certo em radio porque irradia bem e etcetera.” Acontece que nós tínhamos um jogo para transmitir no Rio de Janeiro, um jogo a noite, Botafogo e Vasco e o Barbosa da Silva de Barbacena que era o nosso locutor esportivo, vinha periodicamente a Juiz de Fora, telefona cedo dizendo que tinha extraído dois ou três dentes e que não podia… “Mas Barbosa a essa altura… você me providencia o Odécio Reis…” Odécio Reis era outro de Barbacena que irradiava, ele falou: “Olha Mario, o Odécio é banco do Brasil… não libera ele não… Eu não sei como você vai fazer…” Ai eu me lembrei da Dona Irene, pedi para a Aparecida… “Telefona para a Dona Irene e pedi para o Mauricinho vir aqui as duas e meia da tarde no radio que eu quero falar com ele…” O Mauricio chegou, nós o colocamos na caminhonete e eu levei para o Rio de Janeiro para irradiar o Botafogo e America, ele nunca tinha ido ao Maracanã e acho que nunca tinha visto um jogo… 

Claudio Temponi – Eu também tenho que entrar nessa daí, sabe por que? Porque eu estava também, naquele dia nós fizemos radio e televisão…

Mario Helênio – Era conjugado com a TV Mariano Procópio…

Claudio Temponi – Nesse dia, tem um caso que você não sabe, não te contei até hoje, Mauro Pinheiro, grande comentarista de São Paulo, que é nome famoso até hoje, já falecido, me perguntou no intervalo… falou assim: “Temponi, quem é esse rapaz ai em?” Falei: “É veterano em Juiz de Fora…” “Comenta bem em rapaz… Será que ele não vai para São Paulo?” “Pergunta a ele, vê se ele vai…” E o Mauricinho, com quem encontrei agora, Mauricio Menezes, hoje pela manha, ele disse: “Pois é, bons tempos aqueles nossos, você me ajudou a colocar no radio…” eu falei: “Eu não, o meu mérito…” O Mario que levou o Mauricinho para o radio…

Mario Helênio – É, isso ele reconhece até em uma reportagem na revista “Amiga” ele frisou isso, que fui eu que o coloquei em radio…

Claudio Temponi – O meu mérito na participação do Mauricio em radio hoje, eu falei com ele, é a seguinte, o Mauricinho, o pai dele se chamava Mauricio também, Doutor Mauricio Menezes, era dentista, o meu mérito era o seguinte… o Mauricinho era garoto, eles moravam em uma pensão de propriedade do meu pai, ali na Marechal Deodoro, e Mauricinho era um garoto chato rapaz, e chutava a perna da gente, tinha um pé pesado, dava vontade de dar um chute também… Mario Helênio que te colocou no radio viu…

Mario Helênio – E hoje ocupa uma função importantíssima na Radio Globo…

Claudio Temponi – E não se esquece da gente…

Apoio ao inter-colegial e contato com Odoni Turola

Mario Helênio – Tem razão, está sempre ai, perguntando… Nessa fase assim, de radio, jornal, eu sempre apoiando todo e qualquer empreendimento esportivo, qualquer evento esportivo, na década de 50, em Juiz de Fora, fez-se uma promoção inter-colegial, o Zé Arídes Pinho Tez, hoje uma pessoa também muito conhecida, juiz de paz na cidade, o Zé Arides fez uma liga e me solicitou que ajuda-se a fazer um torneio inter-colegial e nessa ocasião que eu tive o meu primeiro contato com o nosso Odoni Turola, não é Odoni, você lembra?

Odoni Turola – Perfeitamente Mario, hoje realmente é um dia especial para nós, porque nós estamos homenageando uma pessoa que realmente tem prestado os mais relevantes serviços a radiofonia e ao esporte de Juiz de Fora, e nós achamos que homenagear quem presta relevantes serviços é uma questão de justiça e nós estamos realmente envaidecidos por vermos essa homenagem. E a prova evidente disso é que durante esse período todo falou-se sobre a vida desse extraordinária companheiro, dessa extraordinária figura que é o Mario Helênio… E agora que nós estamos chegando na nossa época, 1954, foi quando nós mantivemos o primeiro contato através dos jogos inter-colegiais e o Mario Helênio como sempre vibrador, apoiava a todas as entidades esportivas, colégios, agremiações, dava uma parcela violenta de colaboração para que se pudesse realizar esse empreendimento. E nós lembramos que nós esperávamos terminar as partidas esportivas e levava os resultados para ele na sede do Diário Mercantil na esquina da Rua Batista de Oliveira com a Halfeld, levávamos os resultados para que pudesse ser publicado no Diário Mercantil e no dia seguinte no programa esportivo dele. E nós aproveitávamos a oportunidade exatamente para perguntar ao Mario Helênio também a participação que ele teve, não só no Tupinambás que é o clube de seu coração, mas no Olímpico que nós sabemos que ele foi uma bandeira dentro dessa agremiação, então nós gostaríamos de ouvir dele a sua participação efetiva dentro dessa entidade.

Participação no Olímpico

Mario Helênio – A minha participação no Olímpico data de 37, 38, quando eu já me referia ao nome do Adelino, o Adelino tinha o time… era o time do Adelino, a dissidência do Clube Ginástico,  o Adelino era meu professor no Instituto Bicalho, então, como eu ajudava o Adelino lá na arbitragem e na organização de jogos internos no Bicalho, o Adelino disse assim: “Eu tenho um time de basquete ai…” Era na Rua Santo Antonio onde hoje é a reitoria da Universidade Federal de Juiz de Fora… “Eu tenho um time ali , você dá um pulinho lá para me ajudar…” Ai eu me integrei a esse grupo, estou até sabendo agora que o Fabio vai escrever um livro vai fazer referencia justamente ao time do Adelino, ficava muito desagradável no jornal o “time do Adelino joga amanha…” “o time do Adelino treina amanha…” Que eu também, quando o Fabio me levou para o Diário Mercantil, também era a mesma coisa, não era só esporte no colégio Bicalho não, era… “o time do Adelino treina amanha…” “o time do Adelino treinou ontem…” Então tinha sempre a noticia do Adelino, o Adelino pedia, a gente estava sempre dando noticia do treino do time do Adelino… Então surgiu a questão… vamos mudar o nome… time Adelino, time do Adelino… era time do Adelino, um grupo de rapazes… Em 1936 foram realizados os jogos Olímpicos de Berlim, não havia uma oportunidade mais propicia do que o nome Olímpico, daí a realização de uma reunião foi no lar Riachuelo, no porão da família Loureiro, Loureiro era um dos fundadores do clube, era do grupo do Adelino e eu fui secretario dessa reunião, da ata que transformou o time do Adelino em Olímpico Atlético Clube, quer dizer, um clube que realmente dominou praticamente toda a minha vida. O Olímpico inclusive impressionava muito, o Eurico Surias até aqui está ele pode dizer que eu estou falando a verdade, porque era um grupo pequeno mas animado, 25, 30 rapazes, um sacrifício enorme para se comprar uma bola, para se comprar um tênis, se comprar uma camisa… O Olímpico nem tinha local para treinar, treinava por favor lá na Rua Santo Antonio, e posteriormente conseguiu aqui onde hoje é a praça Antonio Carlos, uma quadra ali, quadro de Circulo Militar, por favor, nós só pagamos a luz, quer dizer o grupo mesmo se cotizava para pagar a luz a companhia mineira de eletricidade. O Olímpico em 1940, na década de 40, teve uma grande fase no basquetebol de Juiz de Fora, foi tetracampeão, chegando ao titulo no centenário, foi em 47, 48, 49 e 50, nessa mesma ocasião, alguém aqui deve lembrar, o Nicolau Chueri que era presidente… nós conseguimos a vinda da Universidade Utah dos Estados Unidos, fez um jogo lá no Olímpico, arquibancada de madeira, que foi improvisada, quase nessa mesma época trouxemos também um time uruguaio que estava em excursão no Brasil e jogou aqui em Juiz de Fora… E sentimos a necessidade de dar ao Olímpico uma casa, um local, um terreno, porque o clube estava crescendo, ganhava nome, ganhava conceito, em 1947 o Olímpico foi a Santos, foi o primeiro clube de Juiz e Fora a ir aos jogos do interior de Santos, papai era deputado e tinha grande amizade, eu não sei Alencarcio Guimarães que era o diretor da Central do Brasil, papai então conseguiu passagens de Juiz de Fora para Barra do Piraí, fizemos baldeação fomos a São Paulo e de São Paulo fomos a Santos, levando uma delegação de 40 pessoas a Santos nos jogos do interior de Santos naquele ano com mais de 100 cidades paulistas e mineiras só nós e São João Del Rei apenas, de forma que o Olímpico era um clube simpático, popular, justamente porque lutava com muita dificuldade, não tinha nada… E foi ai que graças ao prestigio do patriarca da família Bara, que é o saudoso Zé Gatazo Bara, amigo particular e pessoal do Dilermando Cruz Filho que era o prefeito da cidade, e o nosso pedido calcado na sensibilidade de uma câmara que marcou a sua passagem para a historia, uma câmara sóbria, uma câmara de vereadores que era brilhantíssima, da qual fazia parte o Fabio Nery, então o Olímpico conseguiu o terreno, inicialmente apenas a quadra, quando meu cunhado Teles Costa era presidente de uma piscina… posteriormente conseguiu com o plano de vende de quinhões fazer o parque aquático, fazer o ginásio, quer dizer o Olímpico hoje tem todas essas instalações…

Claudio Temponi – Mas como você, Mario Helênio foi cestinha de um campeonato de cesta livre, de lance livre lá no Olímpico?

Mario Helênio – Havia antigamente o campeonato de lance livre…

Odoni Turola – Mas não tinha ninguém para bloquear não né…?

Mario Helênio – Não… Eu era reservado do segundo quadro, mas sempre tive boa pontaria na cesta… e havia o campeonato de lance livre, que eram cinco atirando no intervalo do primeiro para o segundo tempo, parava o jogo no intervalo, nós entravamos para os lances livres… E houve um campeonato brasileiro por correspondência, porque a gente fazia aqui, Belo Horizonte fazia, o Rio fazia, Rio Grande do Sul fazia, todos os estados… Eu integrei… no correspondência eu fiz 18/20, mas o Olímpico ficou em terceiro lugar no Brasil, somava os pontos e via… Agora, aqui em Juiz de Fora eu fui realmente bi-campeão, em Minas Gerais eu também sempre fiquei bem posicionado em lance livre, quer dizer, boa pontaria…

Odoni Turola – Mario, eu gostaria de perguntar, nesse período de muitas dificuldades, em que o Olímpico tinha somente uma quadra, não tinha nem arquibancada, lá na Benjamin Constam, na parte baixa, como vocês conseguiram trazer aqueles globetrotters?

Mario Helênio – Foi um espetáculo, alias choveu muito aquela noite, porque o problema de Juiz de Fora, o Fabio lembra também, nós não tínhamos ginásio até 60, praticamente ginásio nenhum, então os jogos de basquete e voleibol, quando começava a escurecer no cristo era nossa medida de chuva, a gente lembrava do coronel Miranda, coronel Miranda tinha o batalhão, o galpão do batalhão era a garagem, então assim, 4 e pouca, 5 e pouca… “Coronel nós vamos para aí.” O que ele fazia? Ele colocava uns 20 soldados limpando, tirando o óleo da quadra, gasolina, sujeira, lavava o ginásio de ponta a ponta, que não era ginásio, era um galpão né? Hoje sim, hoje está tudo adaptado, hoje é um bom ginásio, e fazia o seguinte, mandava à soldadesca pegar na vizinhança toda da Tapera, cadeiras, nas casas, justamente para cercar… Então o batalhão era o recurso que nós tínhamos, mas a essa altura, da vinda dos norte-americanos, os globetrotters, a chuva caiu de repente, não tinha jeito, era realmente uma capacidade maior de público porque o Olímpico teve até que ser adaptado… Agora, os norte-americanos, com muita técnica, com muita pericia, de baixo de chuva, eles deram um show, foi um espetáculo bonito…

Odoni Turola – O Olímpico mandou fazer umas arquibancadas de madeira para poder abrigar todas as pessoas?

Mario Helênio – Capacidade de publico, porque lá no batalão realmente não dava né… Embora a essa altura, não, ainda não tinha o ginásio dos esportes, ginásio dos esportes é de 60 para cá, não é isso? Agora, o Olímpico não brilhava apenas no basquete, teve a fase do basquete até 50, 50 e pouco… Depois o basquetebol esfriou, a gente não sabe até hoje o que houve, depois passou para o futebol de salão, não é Odoni?  Um bom futebol do salão, tinha bocha, tinha natação…

Odoni Turola – Senhor Mario, você não acha que a morte do professor Caetano Evangelista contribuiu para que houvesse uma queda muito grande no basquete…

Mario Helênio – Influência decisiva porque a mocidade esportiva de Juiz de Fora tinha no professor Caetano Evangelista uma escola, o professor Caetano foi um homem de extraordinária capacidade em tudo, em vôlei, em ginástica, basquete… As equipes de Juiz de Fora, depois de 39, 40, saíram do Clube Ginástico, todo mundo jogou no Clube Ginástico, com raras exceções, o pessoal do basquetebol passou pelo Clube Ginástico… Então a morte do professor Caetano influiu de mais…

Fabio Nery – Já que vocês estão falando de basquete, eu vou daqui a pouco perguntar a você sobre a liga de vôlei, eu fui presidente da liga de basquete e você sabe como era naquele tempo, o juízes eram daqui e quando havia um jogo muito disputado a gente trazia um juiz do Rio…

Mario Helênio – Grandes árbitros do Rio vinham aqui…

Eurico Surerus

Fabio Nery – A gente pagava a passagem, pagava a hospedagem e dava a eles cinquenta mil réis, mas nós temos aqui entre nós nos assistindo um grande atleta do nosso tempo de basquete, vôlei e natação que é o Eurico Surerus e eu perguntava se ele podia vir aqui na frente apenas para ser fotografado Natálio?  É uma homenagem que nós vamos prestar aos atletas antigos de Juiz de Fora sobretudo porque veio aqui o Eurico simplesmente assistir e foi muito agradável e acho que a mesa está muito honrada com sua presença aqui… Depois ele foi campeão de natação e depois foi para o Flamengo…

Mario Helênio – Rever o Eurico foi um prazer muito grande… Na inauguração da piscina do esporte o Eurico foi vencedor de uma das provas, não é Eurico?

Eurico Surerus – Eu fui… Em primeiro lugar eu quero parabenizar você por esse exemplo, você bem merece, eu acompanho você muitos anos… Se bem que estive fora cinquenta anos no Rio de Janeiro, mas voltei e não esqueço daqueles bons tempos que você transmitiu o meu basquete, minhas cestas e outros esportes também… De maneira que eu fui um dos campeões da piscina suspensa dos esportes, cem metros nado peito, depois eu fui para o Rio de Janeiro em 38, tirei medalha de bronze representando Minas Gerais, terceiro lugar no Brasil. O voleibol você sabe que foi invicto aqui, é imbatível, e o basquete vocês ganharam muito e nós ganhávamos mais ou menos…

Fabio Nery – Exatamente, em 1950 houve uma briga tremenda no Clube Ginástico, o técnico do Sport rasgou a camisa do Ender Santos, então eu suspendi o campeonato e o técnico foi suspenso por seis meses, não assistia mais jogo do Sport, ainda assim, no final do ano o Sport foi campeão do centenário de Juiz de Fora. Mas quando eu era presidente da liga de basquete, o Vicente Ferreira dos Santos era fundador e presidente da liga de vôlei, logo depois ele passou para o Mario Helênio, como nós já falamos muito de basquete aqui eu gostaria que o Mario falasse um pouco sobre o vôlei de Juiz de Fora. Agora, eu queria lembrar o seguinte, quem acabou com o basquete na minha opinião foi o futebol de salão, porque eu não posso concordar com uma cidade que tem uma universidade com oito mil estudantes e não ter o basquete.

Contribuição do Mario com o vôlei de Juiz de Fora

Mario Helênio – É porque o futebol de salão, cinco de cada lado, o brasileiro já nasce chutando uma tampinha…

Fabio Nery – Gosta de jogar com os pés e não com as mãos…

Mario Helênio – Exatamente. Então o basquetebol é um esporte que exige mais aprendizado, mais treinamento… Realmente o futebol de salão acabou fazendo com que o basquetebol ficasse num segundo plano. Mas o voleibol Juiz de Fora, de 64 para cá, ou antes um pouco, o advento do estádio… porque nós precisávamos é de local para jogos, o Sport fez o ginásio dele, o Olímpico também, hoje nós temos quinze ginásios ou até mais na cidade, de forma que foi o fator preponderante do desenvolvimento do voleibol, logo no inicio o Sport colocou inteiramente a disposição o ginásio, fizemos o campeonato de interior, depois até nós vamos contar… o Claudio… equipes que nós trouxemos uma vez… eu, Claudio e o saudoso Ivan Soares de Oliveira, fomos a Belo Horizonte trouxemos os uruguaios e os argentinos aqui para Juiz de Fora, fomos ver jogo em Belo Horizonte e acabamos trazendo os uruguaios e argentinos aqui para Juiz de Fora, mas a gente podia trazer porque tinha condição, tinha campo. Mas então no principio de 60 aconteceu isso, o voleibol começou a despontar, em 53 a liga foi fundada e um torneio que foi feito pela Radio Industrial, contou até com a colaboração do Dirceu Siano… 52, porque foi um torneio de mais de 20 equipes… universitárias… até de Matias Barbosa, ele jogava em Matias Barbosa, o torneio agradou tanto que a alternativa foi a fundação da liga. Ai o Vicente, que era um desportista também entusiasmado, criador da corrida da fogueira, fez recentemente 90 anos de idade, o ginásio Mariano recebeu o nome dele recentemente, muito justo… Nós então fundamos a liga de voleibol… e o voleibol daí para frente sempre passou a desfrutar de muita simpatia…

Claudio Temponi – Por falar em voleibol, o Fabio, o negocio é o seguinte, porque o Mario é o depoente para a posteridade, então ele tem que depor o seguinte também, não é só como desportista, como locutor, comentarista não, é como realizador no campo do voleibol, porque ele fez o maior campeonato brasileiro que nós vimos até hoje de voleibol, 1964…

Mario Helênio – 1964 o juvenil, 1967 o infantil. E você era o meu desenhista especial para as flâmulas…

Claudio Temponi – Foi tanto entusiasmo… foi uma loucura. Vieram aqui eu acho que 20 equipes do Brasil inteiro. Então teve um gaucho, por exemplo, até encontrei com ele outro dia, que chorou de emoção e foi abraçar o Mario… ele só não abraçou mais tempo porque não iria ficar bem, com a Aparecida lá olhando… se não ele não largava mais… Mas o Mario fez o maior campeonato de voleibol que Juiz de Fora fez até hoje.

Mario Helênio – Pois é Claudio, é justamente isso que o Fabio quer, quer falar sobre o voleibol. Então em 61 fizemos a Taça Brasil feminina de voleibol em Juiz de Fora, 63 o campeonato mineiro e 64 então esse campeonato brasileiro… União Soviética e Brasil, fizemos um jogo no ginásio do esporte… O Spartak da Tchecoslováquia jogou aqui, a Bélgica veio também em uma promoção do Olímpico, as seleções sul-americanas juvenis da argentina jogaram aqui, eram promoções que a gente sempre coordenava pelas amizades e pelo conhecimento que nós tínhamos no Rio de Janeiro com o pessoal que controlava o voleibol. Mas em 64, pena realmente o José Carlos não estar presente porque na época do inicio do campeonato brasileiro, na semana, eu perguntei ao presidente Roberto Moreira Calçada o que eu faço na abertura, o Doutor Calçada disse assim: “Ano passado Mario, em Campinas, foi uma festa bonita na sede…” Acho que foi do Automóvel Clube de Campinas, as mães dos atletas de Campinas providenciaram salgadinhos, arrumaram bebidas, então lá em certa altura uma moça tocou piano, outra declamou poesia… foi uma festa bonita… “… Vê se você faz isso aqui em Juiz de Fora…” Acontece que em 64, no ano anterior tinha tido crise total, quem que eu tinha que recorrer para fazer uma festa para a abertura do campeonato? Ao Zé Carlos, procurei o Zé Carlos e o que o Zé Carlos fez? Aquarela do Brasil. Até hoje, o Claudio tem razão, esse espetáculo teve que ser repetido no sábado seguinte, porque foi uma beleza, uma empolgação… que foi realmente aquela noite no esporte.

Claudio Temponi – Nós reunimos três mil jovens no campo do Sport para o espetáculo.

Mario Helênio – Você foi um dos narradores?

Claudio Temponi – Dos jovens não, dos narradores sim.

Mario Helênio – Foi um espetáculo para a historia realmente que o José Carlos fez, agora, em matéria de organização… Porque isso foi sábado a noite, no sábado cedo nós oferecemos um coquetel aos chefes das delegações e aos técnicos no Palace Hotel e cada chefe de delegação recebeu uma sacola com produtos de Juiz de Fora, meia, café Apolo, mandou fazer umas cadernetas a saudosa Celeste, dentro da sacola que o chefe de delegação saia, uma lembrança de Juiz de Fora e quem é que eu pedi para saudar as delegações? Saudoso padre Wilson Vale da Costa, que fez um senhor discurso, eles já saíram dali bambeando… Virou o Doutor Castro: “Vocês vão fazer mais alguma coisa depois disso?” Eu falei: “Não Doutor, nós vamos fazer a noite, o tal espetáculo…” Depois em 67 veio o outro brasileiro que nós fizemos aqui, o infantil, e Juiz de Fora se tornou rapidamente a capital do voleibol.

Claudio Temponi – Mas você afeta esse voleibol…

Mario Helênio – Justamente pelas relações que eu tinha na CBV…

Fabio Nery – Por isso que eu provoquei, eu quero que ele conte essas coisas todas…

Mario Helênio – O caso das japonesas por exemplo, quando vieram pela primeira vez no Brasil, Juiz de Fora foi a única cidade que recebeu as japonesas na primeira vez, porque o Doutor Calçada sabia do meu entusiasmo, do empenho que eu sempre queria ter pelos espetáculos, bastava um telefonema dele… “Mario, eu tenho isso, assim, assim e assim…” E não foi só uma vez que a seleção japonesa veio aqui não, se tornou  quase que obrigatório, baixava no Rio de Janeiro as japonesas, tinha que vir a Juiz de Fora porque era uma praça que já estava totalmente dominada pelo voleibol. Como até hoje, a gente lembrou a fase áurea do esporte, do voleibol feminino, não é Claudio? Você que teve participação efetiva até pouco tempo…

Vida política do Jarbas, pai do Mario, e o motivo para o Mario não seguir na política.

Rubens Cleto Moreira – Vou fazer uma intervenção, já que nós estamos fazendo uma gravação para a posteridade, você tem que deixar marcado aqui varias outras facetas da sua vida e uma que está me implicando, eu estou com curiosidade de perguntar… Faço a seguinta perguntar, conta para nós aqui por que você não se interessou pela política, tendo em casa uma escola que foi o seu saudoso pai? E você com todo esse seu potencial, foi por que não te atraiu, não te fascinou…? E conta para nós direitinho em detalhes por que você não se aprimorou para a política… 

Mario Helênio – Eu acho que não só eu, mas os dois primos, o Heitor Augusto e o Zé Carlos que podiam também tranquilamente militar na política pela versatilidade da sua palavra, pela inteligência, mas acontece que a política marcou muito, mas muito mesmo a nossa família. O papai veio de Rio Novo para servir ao exercito em 28, 29, ele inclusive tinha jornal lá mas era tipógrafo, papai começou também como um tipógrafo e veio para Juiz de Fora para servir ao exercito e em 1930 ele fez a cobertura da revolução de 30, papai era repórter do Jornal da Noite, que era um dos jornais mais famosos do Brasil, papai ficou nas trincheiras, lá no túnel fazendo reportagem, ao mesmo tempo o comandante do segundo batalhão era o tio Edmundo,o coronel Edmundo de Lery Santos era o comandante do batalhão, era irmão do papai. Abraçando a carreira de jornalista o papai assumiu o Farol, Jornal do Comércio, tinha a Sarna também, na é Dormevely? A Sarna era um jornal satírico que dominava as segundas feiras em Juiz de Fora.

Dormevely – A Sarna foi o jornal satírico mais importante que já apareceu em Minas Gerais e talvez no Brasil na época. Muito bem ilustrado pelo Ângelo Biche com o espírito do Ireu e ele aproveitava velhos clichês, vou dar um exemplo, esse exemplo é típico da Sarna… Aparece um trem, uma locomotiva e ele põem a legenda: “Locomotiva que trouxe o senhor Fulano de Tal da viagem…” Ele não colocava o retrato, ele colocava o… Felizmente eu tenho a coleção completa desse  jornal, da Sarna.

Mario Helênio – Porque a Sarna, realmente você tem razão, era um jornal satírico como poucos no Brasil.

Fabio Nery – Já que estamos falando tanto do Jarbas, vamos mostrar aqui o Jarbas. Dá para ver?

Mario Helênio – O papai em 37, 38… O Farol, Jornal do Comercio… Já tinha amizade com o então presidente Getulio Vargas… Em 40 foi para o Diário da Tarde, quando o Diário da Tarde começou o papai foi da primeira equipe de redatores, era do Diário Mercantil mas passou para o Diário da Tarde, era inspetor federal de ensino, foi até posteriormente colega do Cleto, do saudoso Cleto irmão do Rubinho. Papai ai resolveu abraças a carreira política, foi o chefe do queremismo no estado de Minas, homem da confiança do Getulio… Conseguiu a sua eleição em 1945, foi constituinte de 45 e nessa época o papai se dava bem demais com o presidente Eurico Gaspar Dutra, papai saia do hotel Itajubá na Cinelândia bem cedinho para tomar café com o presidente Dutra entrando pela porta dos fundos do Palácio do Catete, em algumas oportunidades inclusive eu cheguei a acompanhar o papai nessa ida dele ao Palácio do Catete. E graças a essa amizade com o general Dutra… O Fabio Nery se lembra bem de tudo aquilo que o papai conseguiu na ocasião que foi deputado… antes até, inclusive com o presidente Getulio Vargas a regularização do rio Paraibuna, porque nós tivemos uma enchente em 40 aqui que foi um desastre na vida da cidade, uma verdadeira catástrofe, o rio Paraibuna encheu, transbordou e foi até a galeria Pio X, nós inclusive perdemos tudo, nós morávamos na Floriano Peixoto entre a Batista e a Rio Branco, quando nós acordamos já com o pé dentro d’água, saímos com a roupa do corpo, quer dizer, foi uma tragédia em Juiz de Fora essa enchente de 40, papai conseguiu posteriormente com o Getulio a regularização do rio.

Dormevely – A tragédia foi tamanha que hoje, a não ser o Diário Mercantil e a Gazeta Comercial, os demais jornais perderam as suas coleções, coleção do Foral, Jornal do Comercio…

Mario Helênio –  Inclusive Dormevely, até lembrar, falar em Farol que na época era o jornal mais antigo do estado, eu soube com uma tristeza enorme que naquela época, logo depois, que toda a coleção do Farol tinha sido talvez até vendida em açougues para embrulhar carne, um desastre isso, uma tristeza… Com o Jornal do Comercio também, não ficou nada no arquivo, do Farol nem do Jornal do Comercio. Mas voltando a amizade do papai, ele conseguiu, o Fabio me lembrou aqui, o Clovis Pestana, que era ministro da aviação da época, eu tenho aqui alguns dados, algumas comunicações que eram feitas ao papai… então está dizendo aqui: “… em levar ao seu conhecimento que acabei de concordar com a inclusão do plano Salte na dotação de 125 milhões de cruzeiros para a conclusão das obras.” Isso foi na Lima Duarte, Bom Jardim, o Fabio lembra o Salte é da Santa Casa, que começou realmente com a verba que o papai conseguiu para a construção da Santa Casa. O Sapes que era na ocasião o local onde os que estudavam em Juiz de Fora tinham condição de almoçar e jantar, os operário e também os estudantes, o Sapes na Avenida dos Andradas, o Sapes também foi uma senhora obra do papai. O Posto de Higiene e Segurança do Trabalho, Juiz de Fora não tinha nada disso; a implantação das casas populares, na vila Furtado de Menezes. Aqui tem do Daniel Carvalho que era ministro também… “25 milhões para a construção da barragem de Chapéu d’Uvas “ Tem também aqui o palácio do trabalho, na rua Marechal, quando o  doutor Octacílio Negrão de Lima, que era ministro do trabalho, ocupava essa posição o papai conseguiu com ele a construção, só que informando aqui: “A idéia é ter catorze andares para comportar todos os serviços constantes, infelizmente o saldo de construção de que disponho não me permite arcar no momento com despesas tão vultosas.” Mas mandou fazer seis pavimentos, base suficiente para mais tarde suportar outros andares. Tem também o hospital da grama, que foi também uma obra de vulto.Quando ele se candidatou a reeleição em 50, ele fez justamente o livreto citando… A construção do novo e moderno hospital da Santa Casa de Misericórdia, verba para a maternidade Terezinha de Jesus, sanatório da grama para tuberculose, verbas para a escola de engenharia, escolas de farmácia, odontologia e faculdade de direito…

Fabio Nery – Dois mil e quinhentos cruzeiros para cada um, Agora, isso tudo aqui que o Mario está falando, uma grande homenagem ao Jarbas e sobretudo cabe aqui a resposta que ele deve dar ao Rubens, por que ele não ficou em política? O homem fez tanto disso ai, de repente veio uma eleição e o povo não o elegeu…

Ruben Cleto Moreira – Eu fiz essa intervenção exatamente para que você pudesse homenagear o deputado Jarbas…

Mario Helênio – Fez bem. Aqui também um projeto federalizando a faculdade de direito, aeroporto de Juiz de Fora, aqui frisa que desde 48 ele vem trabalhando para a construção do aeroporto de Juiz de Fora e no orçamento de 49 fez constar uma verba… O centro rural também teve apoio… O IAPI… Associação das damas protetoras da infância, que mantém o lactário São José; o abrigo profissional Dom Bosco que é também uma senhora obra, até hoje ai, foi justamente o papai que conseguiu; Educandário Carlos Chagas, conseguiu também verba; abrigo dos mendigos…

Dormevely – O Jarbas não foi um deputado de plenário, ele foi um deputado de gabinete, ele ia e trazia os benefícios para Juiz de Fora. Mas como o eleitor brasileiro gosta de ouvir promessas, gosta de discursos, o povo esqueceu, lamentavelmente.

Mario Helênio – Eu tenho até um final muito interessante de uma carta que ele recebeu do Elmano Cardim, que ele frisa: “O iminente representante das alterosas na câmara federal, bem merece o dito que lhe dei.” Irmã Paula de Juiz de Fora. Porque o papai também, um jornalista muito relacionado, muito conceituado que era o Benedito Mergulhão, Benedito Mergulhão chegou em certa oportunidade a dizer “O deputado Quem Quem.” Ele deu essa alcunha ao papai porque era sempre aquela pergunta: “Quem é… quem é que esteve aqui? Quem é que pediu para Juiz de Fora? Quem é que levou para Juiz de Fora?” Então era o deputado Quem Quem, “Isso foi para Juiz de Fora… Quem?” Deputado Quem Quem, ficou. Foi um artigo celebre. Ai veio 1950, com todas essas obras o papai não teve dois mil votos, é bem verdade que o eleitorado naquela ocasião não era grande, mas não teve dois mil votos. Veio 1954, talvez dois mil votos tenha tido o papai, com as mesmas obras e o povo reconhecendo assim: “É só o Jarbas que têm feito…” Veio 58… a terceira vez. Ai o papai já não tinha mais o braço direito dele que era a mamãe, mamãe era um exemplo de política, o nome da mamãe disputava do maior respeito…

Fabio Nery – Ela controlava todo o eleitorado dele.

Mario Helênio – Papai ficava em casa recebendo os amigos e cuidando… E a mamãe que saia, três, quatro dias que eu passava sem ver a mamãe, porque eu trabalhava na Rádio Industrial, tinha esse programa de uma as duas da manha, “Serenata” que até o Julinho queria saber sobre esse programa… O que acontecia? Eu chegava em casa as três e meia, quatro horas da manha que era o Faisão, não é Dormevely? Era obrigatório dar uma passadinha no Faisão. Depois ia para casa… Acordava meio-dia, cadê a mamãe? “Ela está na Borboleta, porque tem um reduto lá, ai ela foi lá…” Almoçava, saia, tinha um programa na Radio Industrial de 19 as 19 e trinta,voltava para casa… “Cadê a mamãe?” A Lucinha falava: “A mamãe lá da Borboleta foi pra Grama, porque tem lá um negocio agora a noite e ela tem que fazer uma coisa…” Quer dizer, no dia seguinte era quase o mesmo ritual, porque ela chegava de madrugada e saia cedo, então eu ficava dois, três dias… A mamãe faleceu em 55, quer dizer, em 58 o papai já não tinha mais…

Dormevely – Não tinha cabo eleitoral que agüentasse… Não havia mesmo.

Mario Helênio – E com esse detalhe, que em 58 o papai teve doze mil votos, em um eleitorado de quarenta e poucos mil. Ai todo mundo… “Que beleza de votação!”. Mas acontece que o papai já estava no PR, e o PR era um partido de tubarão de votos, liderado pelo lendário Artur Bernardes, e o papai ficou em uma décima primeira suplência, não teve a menor condição, com doze mil votos, mas em um partido que era um senhor partido, não é Fabio?

Fabio Nery – No estado eram dois partidos só, o PR e o PSD…

Mario Helênio – A resposta é essa Rubinho, eu sempre tive muito desencanto com a política, a política sempre me deu essas bordoadas, o Zé Carlos e o Heitor também, sabendo disso…  Embora em 50 eu tenha entrado. Em 50, quando o papai se candidatou a reeleição, entre os partidos que o apoiaram tinha o partido, eu não sei se era PPRN ou PTN, a chapa de vereadores, o Riani fez parte da chapa, então eu entrei… Afinal de contas em 50 eu tinha formado em direito, já mexia em jornal a mais de dez anos, estava a Radio Industrial em grande evidencia, era conhecidíssimo então… “Você vai entrar na chapa para fazer numero, para arrumar voto…” Porque o nosso objetivo realmente, o ponta de lança era o Riani, era ajudar o Riani. Então saíram de casa duas mil cédulas, porque antigamente era cédula, eu tive cento e sessenta e seis votos, só ai já foi uma decepção e acabou por completar, eu vou fazer o que em política? Mesmo você, não é Fabio, que foi um político serio, sóbrio, você acabou sendo injustiçado também?

Fabio Nery – Não dá, sobretudo em política o candidato pobre não tem jeito, candidato pobre não ganha eleição.

Mario Helênio – Inclusive Fabio, depois que o papai perdeu deputado, em 50 ele voltou a ser inspetor de ensino e acontece que para se meter em política ele tinha que conseguir fundo, tinha que conseguir verba e dinheiro, cédula, que era impresso… não era brincadeira. Então ele sempre conseguia as amizades com o governo do estado… o Credito Real sempre ajudava o papai. Ele faleceu em 61, eu sei que logo depois da morte do papai eu fui chamado no banco Credito Real pelo saudoso doutro Teixeirinha, para me apresentar infelizmente algumas promissórias que o papai tinha deixado sem poder saldar. O que eu fiz? Eu já estava na justiça do trabalho, o meu salário, eu combinei com o Teixeirinha, o Credito Real descontava do salário da Caixa Econômica para poder, graças a Deus, em dois, três anos, conseguir pagar. O papai deixou então dividas… O que ele deixou? Deixou um grande nome, graças a Deus respeitado, deixou também… coitado, porque ele não tinha recurso…

Fabio Nery – Uma das eleições que eu disputei para deputado, acabado o pleito eu estava devendo a onze agencias de banco em Juiz de Fora. Era pouco, era dois conto em um e três no outro, mas eram onze… Não tinha jeito, e perdia a eleição assim mesmo porque o dinheiro era pouco…

As aulas da faculdade de direito

Fabio Nery – …Eu quero mudar de assunto, porque possivelmente a hora já vai adiantada e é minha ultima intervenção. Eu fui seu colega na faculdade de direito do Grambery, as aulas eram das quatro e meia até as seis e meia, era uma hora muito boa, o time era muito bom… Eu queria que você fizesse uma homenagem aos nossos colegas da faculdade de direito, uma palavra que fosse sobre o nosso curso…

Mario Helênio – Era ótimo freqüentar as aulas da faculdade de direito, professores consagrados, do maior prestigio na cidade… grandes professores, de maneira que foi a turma do centenário, os colegas ótimos, quase todos ainda por ai, lamentavelmente um ou dois faleceram, inclusive o nosso orador que foi o Candido Pereira de Almeida, Teresinha Camper também… Uma fase ótima da faculdade de direito.

Companheirismo da Aparecida

Odoni Turola – Nós sabemos que por trás de todo grande homem, existe sempre uma grande mulher e eu gostaria que você falasse alguma coisa sobre essa sua companheira de longos anos.

Mario Helênio – Ela compreende, não é Odoni? Porque chegar em casa as duas e meia, três horas da madrugada como na maior parte da nossa vida de casado eu tenho chegado em casa, tem que compreender. Aparecida é uma companheira formidável, ela realmente tem sido uma grande incentivadora da carreira. Tinha que ser, porque se não eu não estaria esse 50 e tantos anos mexendo em esportes.

Mensagem a posteridade

Natálio Luz – Na oportunidade, Mario Helênio, eu gostaria que ao encerramos essa primeira fase em audiovisual e a principal do seu depoimento a posteridade, que você deixasse algumas ultimas impressões, algumas ultimas palavras, que fosse, essas palavras, uma mensagem aos posteros.

Mario Helênio – O que precisa ser principalmente ressaltado é a escola de jornalismo que eu tive para chegar a esse ponto, pelo sangue, pelo coração, as raízes da imprensa, ai estão comprovadamente positivas e positivadas, porque o pai do papai, meu avô, Prezalindo, que era professor em Rio Novo, o papai tinha um irmão Mario que era jornalista, de maneira que o jornalismo sempre correu, o sangue do jornalista sempre correu nas nossas veias. Rômulo, tia Aparecida, que também trabalhava no jornal com o papai, o Zé Carlos, o Heitor Augusto, O Zé Navalha que é o tio Moacir de Brito, recentemente o Dormevely fez uma citação dele no Hoje em Dia, o meu cunhado Curci Junior aqui presentes que também teve uma participação na imprensa, o Bruno filho do Zé Carlos que já esta também na imprensa… Por ai se vê que a questão da imprensa esta integrado em nossa vida, com uma outra circunstancia que precisa ser ressaltada, que mesmo meu filho, Mario Augusto, teve uma incursão pela imprensa, pela imprensa e pelo radio, só que por questão de sobrevivência ele teve que tentar outra carreira mesmo, ser engenheiro em São Paulo, graças a Deus muito bem casado, com dois filhas e um filinho, de maneira que a nossa vida tem sido toda de trabalho, de operosidade, de fazer alguma coisa em favor da cidade, que afinal de contas é a nossa cidade, nós temos que procurar dentro do jornalismo, dentro dos meios de comunicação, dentro do esporte, fazer tudo para que Juiz de Fora continue desfrutando do devido conceito que graças a Deus Juiz de Fora merece e desfruta. Mais uma vez meus agradecimentos a FUNALFA, pela gentileza desse depoimento no Museu da Imagem e do Som, estou muito honrado realmente e como eu já dize no principio, lembrar que personalidade afamadas já depuseram e eu estou nesse grupo, para mim é uma satisfação, não há realmente maneira melhor de se sentir mais a vontade do que eu estou nesse dia memorável que eu estou vivendo aqui hoje, no espaço Bernardo Mascarenhas, graças a essa gentileza da atual administração da FUNALFA, muito obrigado.

Mario Helênio dirigente e apoio ao esporte

Mario Helênio – São quarenta anos de atividade diária em radio, alem disso, como dirigente de clube, durante muito tempo, o Olímpico, inclusive eu fui secretario da reunião que mudou a denominação, o Olímpico era Time Adelino, em 1937, passou a ser Olímpico por causa das Olimpíadas, os jogos Olímpicos de Berlim, então nós resolvemos fazer a mudança para Olímpico, então como dirigente desde esse tempo. Também diretor de futebol do Tupinambás e nesses anos todos, nesse cinquenta e tantos anos, dirigindo varias entidades, vários órgãos do esporte de Juiz de Fora e emprestando a minha colaboração efetiva, porque eu sou um apaixonado pelo esporte, um apaixonado pela noticia, um apaixonado pela informação, sei do esforço que fazem os dirigentes de clubes e de entidades, de maneira que eu tenho dado nesses cinquenta e tantos anos o maior apoio, justamente ao desenvolvimento do esporte, porque sei que a luta é difícil e que sem divulgação não se consegue nada.

Mario Helênio – Eu estou honrado, até frisei no inicio do meu depoimento aqui no Museu da Imagem e do Som que eu entendo a minha indicação como uma homenagem a classe jornalística, uma classe idealista, destemida, mas sofrida, uma classe que tem batalhado dentro da sua função importante e por essa razão, eu acho que o fato de eu prestar esse depoimento hoje é uma homenagem a todos os meus companheiros, até reverenciei a memória de todos aqueles que já nos deixaram e ficando deles um exemplo de honestidade, de inteligência através desses anos todos.