Uma partida em imagens: Instagram, Futebol e Materialidades da Comunicação

Autores: Ronaldo Helal; Fausto Amaro e Débaro Gauziski

Introdução:
…Enquanto a Sociologia Clássica,
herdeira do pensamento e do método de Émile Durkheim, foca-se no sujeito – no homem como o grande eixo sob o qual o mundo gira e enquanto único produtor de sentido –, a “nova” Sociologia, vinda do resgate dos ideais de Gabriel Tarde por Bruno Latour e outros autores, pleiteia um olhar mais detido para os objetos (os não-humanos ou inumanos), uma vez dotados de agência e em constantes associações com os entes humanos, nas chamadas redes sociotécnicas (LATOUR, 2005).
…No campo da Comunicação e Esporte, onde esse artigo se encaixa, os trabalhos utilizam-se majoritariamente de uma perspectiva clássica, como demonstraremos à frente, seja em abordagens históricas ou sociológicas. Tentamos aqui propor um novo olhar para essa interface, seguindo a linha dos autores das materialidades. Deste modo, neste trabalho, nos propomos a analisar as formas de apropriação do Instagram, aplicativo de compartilhamento de imagens, por torcedores de futebol. A partir de algumas tags referentes à final da Libertadores 2012, efetuaremos uma investigação acerca do conteúdo e da materialidade das fotos postadas. Como principal referencial teórico, utilizaremos as contribuições
do alemão Hans Gumbrecht nos livros Elogio da Beleza Atlética e Corpo e Forma, onde ele propõe um novo caminho para estudar o esporte.

Cultura de Presença ou Prestando Atenção no Mundo Material
Nesse primeiro tópico, desejamos elaborar um breve panorama das materialidades e do crescimento da importância dos não-humanos nas teorias sociais, focalizando principalmente nas proposições de Hans Ulrich Gumbrecht. E se ainda há dúvidas sobre a real necessidade de tratar dessas teorias para falar do esporte, indagamos o que seriam a bola, as luvas, chuteiras, carros, cavalos, lanças, armas, óculos, tacos, raquetes, traves, senão inumanos  dotados de tal agência que os torna essenciais para o desempenho de todas as modalidades esportivas. A importância das materialidades pode ser resumida assim: “as condições concretas de articulação e de transmissão de uma mensagem influem no caráter de sua produção e recepção” (ROCHA, 1998, p. 18). “O conceito quer repensar a hermenêutica, pressupondo uma dicotomia entre materialidade, uma presença das coisas e situações num  nível de ‘realidade’ fora da interpretação, e, de outro lado, as respectivas interpretações” (HANKE, 2006, p. 2).
…Em poucas palavras um campo não-hermenêutico se funda no seguinte pressuposto: “a possibilidade de tematizar o significante sem necessariamente associá-lo ao significado” (GUMBRECHT, 1998, p. 145, grifos do autor).
…Trabalhar com a materialidade dos suportes implica conceder importância aos objetos e pensá-los enquanto parte de uma rede, que engloba todos os atores responsáveis por uma ação. Na perspectiva hermenêutica, essa concessão não seria possível, uma vez que é o homem o senhor de todos os objetos e quem lhes atribui sentido.
…Pensar o jornal, a fotografia, a TV, a internet não somente pelos seus conteúdos, mas, sim, em sua materialidade e nos efeitos que essa experiência de recepção diferenciada causa no público. Reiteramos que ainda que próximas e em diálogo, a teoria das materialidades não deve ser confundida com a teoria ator-rede de Bruno Latour.

Breve estado da arte dos estudos sobre esporte/futebol e a contribuição de Gumbrecht para o campo
Inicialmente, na década de 1970, durante o regime militar no Brasil, o futebol era trabalhado por poucos autores das Ciências Sociais no país e sempre com um viés apocalíptico. Era uma situação de descaso mesclado com críticas – uma consequência direta da influência marxista no período, sintetizada pela frase: “o futebol é o ópio do povo”. Podemos citar o livro Futebol: ideologia do poder de Roberto Ramos como exemplar do cunho marxista predominante. Ramos (1984) trabalha o futebol enquanto aparelho ideológico do estado, apropriando-se do conceito original de Althusser. Posição mais branda, mas igualmente crítica, tem José Carlos Rodrigues. Em seu artigo “O rei e o rito” (1982), o antropólogo brasileiro adota uma perspectiva crítica em relação à construção da figura mítica de Pelé, que, segundo ele, esconde uma tentativa de imposição de uma “reverência a uma imagem politicamente forjada da sociedade” (1982, p. 18). O objetivo central de Rodrigues é interpretar a festa de despedida de Pelé como um rito.
…O primeiro trabalho a romper com essa lógica apocalíptica foi Universo do Futebol: esporte e sociedade brasileira (1982), organizado pelo antropólogo Roberto DaMatta. Sua importância não se esgota no ineditismo do livro, mas no que ele representou para todo um campo de estudos ainda recente. O nome de DaMatta, já reconhecido nacionalmente, agregou prestígio e relevância aos estudos sobre esporte. Além disso, ele trouxe uma nova perspectiva teórica, que lidava com o esporte enquanto “drama da vida social”, e não mais como mero instrumento político a serviço das elites políticas e da classe dominante. O futebol, para o antropólogo brasileiro, era visto como um instrumento válido para se entender a sociedade brasileira (um meio para se atingir dado fim).
Antes dessa obra emblemática de DaMatta, Muniz Sodré, no último capítulo de O Monopólio da Fala (1977), apesar de seu tom marcadamente pessimista, já apresentava sinais de um olhar mais benevolente em relação ao esporte, como no excerto: “a torcida (…) faz parte necessária do show” (SODRÉ,1977, p. 141). Helal salienta que “o texto de Sodré […] talvez tenha sido a primeira análise acadêmica sobre futebol inserida mais clara e assumidamente dentro da área da ‘Teoria da Comunicação’” (2011, p. 17).
…Um ponto recorrente dos estudos está no diálogo entre futebol e identidade nacional. Inúmeros artigos e livros em Ciências Sociais foram produzidos sobre o tema Inicialmente, destacava-se a importância daquele esporte para a construção de um ethos nacional, enquanto atualmente estaríamos vivenciando uma diminuição nessa associação. A fonte básica para essas análises era o discurso midiático, principalmente através dos jornais impressos, em época de Copa do Mundo. Assim, vemos como o futebol segue uma trajetória que vai do ocaso até o destaque como temática válida dentro das Ciências Sociais, passando de ópio do povo à drama social e, finalmente, um meio para entender a cultura e a sociedade. Todas as perspectivas e abordagens, por mais diversas e contraditórias, tiveram sua importância para o desenvolvimento do campo. É válido destacar que, em 2010 e 2011, diversas revistas na área de Comunicação dedicaram dossiês à temática de esporte, como, por exemplo, a Organicom (USP), a Logos (Uerj) e a Comunicação, Mídia e Consumo (ESPM). Além disso, o Intercom 2012 também deu destaque às pesquisas sobre esporte, adotando como tema geral “Esportes na Idade Mídia: Diversão, Informação, Educação”. De modo geral, as obras utilizadas como referência pelos autores brasileiros.

Quem é Gumbrecht?
…A influência da teoria das materialidades perpassa todos os textos de Gumbrecht utilizados como base para o presente artigo. Ele reitera, sempre que possível, que “[…] é um equívoco crer que as humanidades e as artes devam lidar exclusivamente com fenômenos constituídos de significação e não com fenômenos baseados na substância” (2011a, p. 3). Destaca também a importância do fascínio exercido pelo esporte sobre as pessoas para a continuidade e o sucesso do mesmo. Sem essa vontade e prazer dos torcedores em estarem presentes nos eventos esportivos, esses, com certeza, não ocupariam o lugar de destaque que hoje possuem em nossa sociedade. Não podemos esquecer de mencionar o caráter crítico relacionado ao esporte que permeia alguns trechos de sua obra, afastando-se do tom almejado por sua história descritiva7.
…Pensar o esporte, pelo viés da teoria das materialidades, implica considerar as condições sócio-históricas e materiais da recepção (no estádio, em casa, no bar, pela TV, pelo rádio), e a produção de presença que lhe é inerente.
Destacamos, porém, que Gumbrecht não exclui essa dimensão interpretativa. Ele apenas postula que algumas experiências prescindem dessa interpretação – assim, seriam mais sensação do que sentido. No caso do esporte, ele tende a crer que dimensão de presença seria maior que a de significado.
…Ressaltamos também que Gumbrecht sempre procura relativizar suas afirmações, evitando cair em determinismos, justamente um dos fatores que critica na hermenêutica.

Produzindo presença no Instagram
…Nesse artigo relacionamos o Instagram à perspectiva gumbrechtiana, considerando o aplicativo como um “produtor de presença”: “[…] é verdade que  alguns ‘efeitos especiais’ produzidos hoje pelas tecnologias de comunicação mais avançadas podem revelar-se úteis no re-despertar do desejo de presença” (GUMBRECHT, 2010, p. 15).
A “intensidade da concentração” (GUMBRECHT, 2007, p. 45) no esporte poderia ser registrada por uma foto, que congelaria esse momento único de êxtase, sem, contudo, ser capaz de voltar a reproduzi-lo em toda sua intensidade. A materialidade da experiência se faz aqui presente. A presença produzida pela assistência do espetáculo esportivo ao vivo é, para Gumbrecht, especial e incomparável. Ao transpormos para outro suporte, como a TV, o papel, o celular ou o tablet, ela transmitiria uma experiência distinta daquela originalmente vivida pelos presentes no estádio.
…Essa tipologia será peremptória para a descrição subsequente, partindo do princípio que as imagens são capazes de nos contar uma história – no caso, o relato da final do torneio. Gumbrecht, em seu livro Elogio da Beleza Atlética (2007), critica a falta de obras sobre história do esporte que enfocassem a “presença” nesses espetáculos: “A maioria dos livros e ensaios sobre a história do esporte está cheia de relatos biográficos ou dados cronológicos, mas raramente oferece materiais ou até sugestões para nossa imaginação visual” (2007, p. 69). Desse questionamento, nós propusemos outro: por que não pensar um acontecimento histórico do futebol sob a perspectiva de imagens e dos sentimentos ali expostos? E, indo além, uma história produzida pelos torcedores, o polo receptor do espetáculo esportivo, já que são eles que “alimentam” o Instagram com imagens. Contemplamos assim a dimensão do esporte assistido, e não apenas do esporte praticado (cf. Gastaldo 2004, 2006 apud TELLES; SILVEIRA, 2011, p. 8).

Considerações finais
Neste artigo, conseguimos entrar em contato com um corpo teórico relativamente novo e pouco utilizado nos trabalhos em Comunicação que enfocam o esporte como tema. Utilizar o Instagram como objeto e fonte de dados foi outra, “digamos”, novidade, tanto para nós quanto para o campo da Comunicação e Esporte. A teoria das materialidades e o objeto pesquisado (tags de um evento esportivo no Instagram) mostraram-se profícuos para outras futuras incursões.

Referências Bibliográficas
DANTONIOLLI, Juliano; BATALHONE, Vitor. Entrevista com Hans Ulrich Gumbrecht. Aedos, v. 2, n. 5, Julho-Dezembro 2009.
ARAUJO, Valdei Lopes de. Para além da auto-consciência moderna: a historiografia de Hans Ulrich Gumbrecht. Varia Historia, Belo Horizonte, v. 22, n. 36, p.314-328, Jul./Dez. 2006.
BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: ADORNO et al. Teoria da Cultura de massa. Trad. de Carlos
Nelson Coutinho. São Paulo: Paz e Terra, 2000. p. 221-254.
CALLON, Michel; Law, John. After the individual in society: lessons on collectivity from science,technology and society. In: Canadian Journal of
Sociology, Spring, v. 22, n.2, p. 165-82, 1997.
DAHER, Andrea. Panfleto contra ‘tédio’ da teoria. Caderno Prosa e Verso, O Globo, 19 fev. 2011a, p. 3
._____. Equívoco da equivalência. Caderno Prosa e Verso, O Globo, 05 mar. 2011b, p. 5.
DAMATTA, Roberto (org.). Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1982.
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de presença. Contraponto/PUC-Rio, 2010, Rio de Janeiro.
____. Corpo e Forma. Ensaios para uma crítica não-hermenêutica. Org: João Cesar de Castro Rocha. Rio de Janeiro, EDUERJ, 1998.
____. Elogio da Beleza Atlética. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.
____. Uma questão de sentido. Caderno Prosa e Verso, O Globo, 26 fev.2011a, p. 3.
____. Uma segunda resposta ‘cordial’. Caderno Prosa e Verso, O Globo,12 mar. 2011b, p. 5.
HANKE, Michael. A Materialidade da Comunicação: um conceito para a ciência da comunicação?. Interin (Curitiba), v. 1, p. 1-8, 2006.
HELAL, RONALDO. Futebol e Comunicação: a consolidação do campo acadêmico no Brasil. Comunicação, Mídia e Consumo. São Paulo, v.8, p. 11-37, 2011.
LATOUR, Bruno. Jamais Fomos Modernos. Rio de Janeiro: 34 letras, 1994.
____. Reassembling the social. An Introduction to Action-Network-
Theory. Nova Iorque: Oxford University Press, 2005.
RAMOS, Roberto. Futebol: Ideologia do poder. Petrópolis: Vozes, 1984.
ROCHA, João Cezar de Castro. A materialidade da teoria. In:
GUMBRECHT, Hans Ulrich. Corpo e Forma. Ensaios para uma crítica não-hermenêutica. Org: João Cesar de Castro Rocha. Rio de Janeiro: EDUERJ, 1998.
RODRIGUES, José Carlos. O Rei e o Rito. Revista Comum, n. 1, jan./mar. 1982, p.16-29.
SÁ, Simone. Explorações em torno da noção de materialidade da comunicação. In: XXVII Congreso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2004, Porto Alegre. Anais da XXVII Intercom: Comunicação, Acontecimento e Memória. Porto Alegre : Intercom, 2004.
SANTOS, Joel Rufino. “Na CBD até o papagaio bate continência”. In: Encontros com a Civilização Brasileira, número 5, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1978,
SILVEIRA, Fabrício. Além da atribuição de sentido. Verso e Reverso, v. 24, n. 57, p. 183-186, setembro-dezembro 2010.
SHAVIRO, Steven. The Universe of Things. Disponível em: <http:// 94 Helal, Amaro e Gauziski Uma partida em imagens: Instagram, Futebol e Materialidades da Comunicação
LOGOS 37 A Cientificidade da Comunicação: Epistemologias, Teorias e Políticas. Vol.19, Nº 02, 2º semestre 2012 www.shaviro.com/Othertexts/Things.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2012.
SODRÉ, Muniz. “Futebol, Teatro ou Televisão”. In: SODRÉ, Muniz. O monopólio da fala. Petrópolis: Vozes, 1977.
TELLES, Márcio; SILVEIRA, Fabrício. O espetáculo do futebol: experiência estética e experiência midiática. In: XXXIV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2011, Recife. Anais da XXXIV Intercom. Quem tem medo de pesquisa empírica?. Recife: Intercom, 2011.