2014: Árbitro do milésimo gol de Túlio temeu pela carreira: ‘Fiquei receoso’

Puxão de camisa dentro da área tornou-se tão comum, que os árbitros costumam relevar com uma chamada de atenção. Mas quando é feito de forma muito acintosa, fica difícil não marcar. Igor Junio Benevenuto seguiu a regra da infração na área e assinalou o pênalti de Thales em Wellington. Seria mais um lance com as costumeiras reclamações de um lado e a comemoração do outro, não fosse a possibilidade daquele lance marcar a carreira de Túlio Maravilha com seu milésimo gol.

E aí levantaram suspeitas. Assim como é contestada a veracidade das contas de Túlio para chegar aos mil gols, também foi posta à prova a marcação de Benevenuto a favor do time do artilheiro, o Araxá, contra o Mamoré, pelo Módulo II do Campeonato Mineiro, no último sábado. As câmeras captaram o momento do cruzamento na área sem que o puxão apareça. O ângulo não favoreceu, e o árbitro passou a ser questionado pela sua intenção em assinalar o lance na vitória dos anfitriões por 2 a 1, no estádio Fausto Alvim.

– Fiquei receoso porque a mídia e as pessoas comentaram de forma negativa, e poderia prejudicar a minha carreira. Fiquei preocupado por um momento, mas estava ciente que fiz o correto – lembrou o juiz da partida.

Porém, em um vídeo do patrocinador de Túlio, o momento em que Thales segura o adversário aparece e, de certa forma, ajudou a aliviar o juiz

– Graças a Deus a câmera pegou a penalidade. Às vezes, eu ouvia em campo as pessoas falando: “Marcou o pênalti por que quer aparecer, né?” Mas consegui administrar. No final (os jogadores) vieram falar comigo, mas nenhum tipo de hostilidade.

Na comemoração, alguns atletas, comissão técnica, jornalistas e torcedores entraram em campo.

O problema não foi só esse. Feito o gol, algumas pessoas invadiram o gramado. Na súmula, o juiz não soube identificar quem eram, mas informou que o tempo de paralisação foi de cinco minutos. A diretoria do Mamoré, no entanto, entendeu de outra forma. Além de contestar a marcação do pênalti, ela quer a anulação da partida por se sentir prejudicada, pedindo o cancelamento dos pontos do clube alvinegro e ainda uma multa indenizatória de danos morais.

– A única coisa que pude fazer foi parar o relógio e procurar o policiamento para ver aquilo. Mas o tempo paralisado foi apenas de cinco minutos. Fiquei preocupado pela invasão, que normalmente não teria acontecido, mas por ser um gol histórico já previa, não de torcedor, mas de repórteres e comissão técnica. Como é uma situação para ser julgada, que o Mamoré entrou com o pedido de anulação, prefiro não comentar. Os fatos estão colocados, têm as provas, as medidas que tomei… Anotei tudo na súmula – disse o árbitro.

Súmula da partida cita a invasão do campo e minutos de paralisação

Passado o tumulto, veio a conversa com Túlio. Em alusão ao número de gols que tinha, segundo as suas contas, o atacante entrou em campo com o 999 nas costas. Ao marcar, trocou para uma camisa número 1.000, e a partida não poderia recomeçar se ele não voltasse a usar a numeração anotada na entrada em campo.

– Ele queria ficar com a 1.000, e não pode. Eu tive que advertir quando ele tirou a camisa em campo. Colocou e tirou de novo. Aí pedi para colocar de novo (a 999) senão teria que expulsá-lo. Mas depois ficou tudo bem.

Benevenuto conversa com os jogadores do Mamoré após o gol de Túlio.

Quando não está apitando partidas, Benevenuto é assessor parlamentar de um vereador da região do Barreiro, em Belo Horizonte, Minas Gerais. É formado em enfermagem, com vocação para arbitragem de partidas de futebol. No início da carreira era bandeirinha, mas em 2006 resolveu começar do zero e apitar. Estreou profissionalmente em 2008. E, apesar das polêmicas, guardará o gol mil na memória com boas lembranças.

– Me sinto privilegiado de ter apitado o jogo, como outros árbitros que apitaram o gol mil do Pelé, o gol mil do Romário. Me sinto um dos três árbitros que apitaram o gol mil de uma pessoa que criou uma história no futebol.