A História da Seleção Húngara

Uma final que acabaria selando o fim de uma equipe que fez a cabeça de muita gente

  Encerramos, hoje, o que eu chamaria novela de um sonho do futebol mundial: a seleção húngara, vice-campeã mundial em 1954, em decisão histórica com Alemanha.

  O Uruguai está em campo como campeão do mundo. traz currículo de três vitórias, uma das quais esmagadora: deu 2 x 0 na Tchecoslováquia, de 7 x 0 na Escócia e de 4 x 2 na Inglaterra.
  Como será hoje contra a Hungria, que chega às semifinais depois de esquartejar três vítimas? 9 x0 na Coréia do Sul, 8 x 3 na Alemanha e 4 x 2 no Brasil. O escore das duas seleções, até aqui, ultrapassa a conta de um campeonato inteiro : o Uruguai fez 13 gols e tomou 2. A Hungria fez 21 e tomou 5. Total : 34 a sete. Uma avalanche de gols que só exaltava o poderio das duas seleções. E explica a enchente de público. É gente que não acaba mais!
  Um rosto na multidão como que ilumina todo o estádio. É ela, a princesa italiana que meu amigo, brasileiro e milionário, trouxe de Roma para tornar a temporada esportiva um pouco mais amena. Afinal, nem só de futebol é feita a vida.
  Com licença, princesa,que os reis da Copa estão entrando em campo. Em fila indiana. Ombro a ombro. De um lado, a Celeste, de Obdulio e Schiaffino: do outro, a camisa grená, sangue-de-boi,de Puskas e Boszik
  Em dez minutos de jogo, cumpre-se o sabido ritual: a Hungria já vence o jogo por 2 x 0, com gols de Gzibor e Hidegkuti. Pelo visto, teremos,aqui, mais um massacre húngaro. Os uruguaios estão meio grogues. Mas, a bem da verdade, não parecem mortos. Dito e feito. A reação uruguaia arrebata a multidão. De um escore ingrato, os campeões do mundiais chegam a um empate épico, no segundo tempo. E levam o jogo  a 30 minutos de prorrogação.
  No intervalo da epopéia, voltei ao vestiário húngaro. Os jogadores estavam todos deitados no chão, as pernas estendidas contra a parede, o mais alto possível. O médico da Hungria explica a Janos que é para apressar a circulação de retorno. Mais uma bossa dos húngaros. Em matéria de fisiologia do espote, os países da Cortina de Ferro estão dando as cartas, sem sombra de dúvida.
  Na prorrogação, a seleção húngara faz 2 x 0 em dez minutos. Pra variar. E, agora acabou de vez o gás dos uruguaios. O que os mantém na luta, agora, é o brio. Por isso, a Celeste merece o honroso paradoxo: caiu de pé.
  A Hungria sai finalista. O estádio aplaude, de pé, a exibição magiar que, mesmo privada de Puskas, seu primeiro violino, transformou a partida numa bela rapsódia.
  No finalzinho do jogo decisivo da Copa, ninguém acreditava no que estava acontecendo. A seleção da Alemanha, encurralada, resistia à pressão húngara. Era um cerco irrespirável. Os lenhadores Baviera tinham emergido de 2 x 0 fulminante , no começo do jogo, para um escore de 3 x 2, a dez minutos do encerramento. e a bola não entrava. O goleiro Turek, da Alemanha estava com o diabo no corpo. Pegava até pensamento. Nunca esqueci o ae de desânimo de Puskas, o major-galopante da grande seleção. Ele deixou o campo, morto de cansaço e puxando de uma perna. Não devia ter jogado. A lesão de 15 dias atrás não estava curada de todo. No vestiário, antes da partida, o técnico Giula Mandi rolava a bola. Puskas comandava o gesto de chutar. Sinal de que doía o tornozelo. Mandi foi o chefe da delegação, Gustav Sabes, e contou que Puskas não estava legal. O  chefe respondeu com um olhar de soberba:
 – Puskas não pode ficar no banco. Hoje, vamos ganhar a Copa e ninguém mais que ele merece a taça…
  A taça acabaria nas mãos do capitão Fritz Walter, certamente o único e solitário craque mesmo,da seleção alemã. Dois meses depois do Mundial, a imprensa européia descobria que metade do time campeão adoecera de icterícia.
  Naquele tempo, ainda não havia exame de doping. Mas certamente, já havia doping…
  Regressei ao Rio desolado. Afinal, eu tinha perdido duas vezes a mesma Copa. com o Brasil nas quartas, e com a Hungria na finalíssima. E o que era mais doído para um cronista estreante: o futebol dos meus sonhos acabava de sofrer a segunda maldição em apenas quatro anos.

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra