A Nostalgia das Estrelas”, de Michel Houellebecq

Inicialmente, eu havia chamado minha conferência de “Como os EUA estabelecem sua dominação cultural no mundo”; afinal, depois de minha viagem à Rússia, preferi mudar o título para “A Nostalgia das Estrelas”.

É um título que evoca menos a reflexão e mais a literatura. Na realidade não sou um filósofo, nem mesmo um intelectual, por isso não tomem essa declaração como um sinal de modéstia excessiva. Não sou modesto, e não sou favorável à modéstia. Eu gostaria de salientar que as pessoas modestas em geral têm interesse em sê-lo, porque não têm muita coisa de que possam se orgulhar.

Como Conan Doyle, em um romance. Faz Sherlock Holmes dizer que a modéstia é, assim como a auto-estima exagerada, um julgamento errado, e que portanto não deve ser incentivado em ninguém. Eu compartilho sua opinião.

O melhor, quando temos algo de notável, é simplesmente dizê-lo, e, quando erramos, também dizê-lo. Portanto, é com toda a sinceridade que lhes digo que não sou realmente um intelectual. Meus estudos foram puramente científicos e técnicos, e não redigi uma dissertação, nem mesmo uma redação, desde os 17 anos. Em filosofia, assim como em sociologia, em economia e até em literatura sou pura e simplesmente um autodidata.

A conferência que vou pronunciar diante dos senhores será a primeira e provavelmente a última de minha vida. Não será sequer uma conferência, mas sobretudo uma série de comentários, e não espero que essa justaposição de comentários possa terminar em uma mensagem coerente.

Se no final não houver qualquer contradição flagrante, já ficarei satisfeito. Já que estou no Brasil, em Porto Alegre, pela segunda vez na vida, tenho o grande prazer de citar Auguste Comte, cujo pensamento teve um papel tão importante na formação deste país. Eu tentei diversas vezes na minha vida, em entrevistas e em prefácios, reabilitar Auguste Comte, incitar a uma releitura de seus livros, e fracassei completamente.

Há alguma coisa em Auguste Comte que o torna insuportável para o leitor francês contemporâneo. Certamente eu posso explicar o quê, mas isso me tomaria muito tempo e não é do que vim tratar hoje. Portanto, usarei o fundador do positivismo como simples introdução ao que vou dizer.

Há um ponto no qual Auguste Comte contrasta muito agradavelmente com a quase totalidade de seus contemporâneos, Hegel, é claro, mas também a maioria dos românticos: é o desprezo constante com que ele trata Napoleão. Ele o qualifica tanto de ditador retrógrado quanto de fantoche militarista.

Para Comte, a epopéia napoleônica é algo sórdido, que constituiu pura e simplesmente uma perda de tempo, um retardamento da transição entre a era militar e a era industrial. Na era militar, o principal meio de que uma população dispunha para aumentar seu nível de vida era invadir o território de seus vizinhos. Na era industrial, a guerra, pensa Comte, deve normalmente tornar-se econômica. Ela deve opor empresas multinacionais puras, ou empresas menores, pelo menos em parte sustentadas pelo Estado, ao qual estão ligadas.

Essa situação, supondo que esteja totalmente realizada, como é o caso na Europa há várias décadas, não pode deixar de causar frustrações. A concorrência econômica só pode na verdade ser suficientemente excitante para aqueles, forçosamente uma parte ínfima dos funcionários da empresa, que realmente participam de suas apostas.

Enquanto a guerra aumenta a taxa de adrenalina não somente dos generais, mas também dos simples soldados. Arriscar a vida é excitante. Matar os outros é excitante. O homem ama o combate. Ele ama os homens. E nada permite esperar que essa parte ruim possa se extinguir nele.

O desejo de violência no homem, em particular seu desejo de violência coletiva, seu lado animal de rebanho, se satisfaz diante das revoluções e das guerras. Se as revoluções e as guerras, como previa Auguste Comte, acabassem por desaparecer totalmente, dando lugar ao consenso liberal e a guerras limitadas ao campo econômico, seria necessário encontrar um canal de escoamento para esse desejo de violência.

Parece-me que esse canal já foi descoberto, na realidade. E obtém um sucesso crescente no conjunto do planeta. É o futebol. O futebol permite uma liberação de adrenalina real, embora menos poderosa que a do combate físico efetivo. Mas oferece além disso um espetáculo palpitante, de um suspense claramente mais forte que o de qualquer produção cinematográfica imaginável, enquanto a guerra real é na maioria das vezes relativamente entediante. Assim como na vida, há muito tempo morto, e na televisão, apesar de alguns belos planos de blindados e aviões de caça, não rende quase nada.

O futebol permite, pelo menos na ocasião das Copas do Mundo, a reconstituição da identidade nacional lúdica, porque temporária e facultativa, portanto tem um caráter de distração, cada vez mais evidente, na medida que continuará dissipando as identidades nacionais pesadas. Aquelas que antes serviam para iniciar e conduzir as guerras.

Depois, as frustrações ligadas ao desaparecimento das guerras são reais, mas há outro tema, e é o meu verdadeiro tema, que são as frustrações ligadas ao desenvolvimento da democracia. Desta vez recorrerei a Tocqueville, um contemporâneo de Auguste Comte.

Levei 20 anos para decidir ler Tocqueville, embora soubesse havia muito tempo que é um autor interessante. Comecei há alguns meses e fiquei muito impressionado. “Da Democracia na América” é uma obra-prima. Vou ler para vocês um de seus trechos mais famosos, e na minha opinião justificadamente.

“Quero imaginar sob que novos traços o despotismo poderia aparecer no mundo: vejo uma multidão inumerável de homens semelhantes e iguais que giram sem cessar sobre si mesmos para obter prazeres pequenos e vulgares, com os quais preenchem suas almas. Cada um deles, afastado dos demais, é como que estranho ao destino de todos os outros: seus filhos e seus amigos formam para ele toda a espécie humana; quanto a seus concidadãos, está ao lado deles mas não os vê; ele os toca e simplesmente não os sente. Ele só existe para si mesmo, e se ainda lhe resta uma família pode-se dizer no mínimo que não tem mais pátria.

“Acima destes eleva-se um poder imenso e tutelar, que se encarrega sozinho de garantir seu prazer e de velar sobre seu destino. Ele é absoluto, minucioso, regular, previdente e amável. Ele se pareceria com a potência paterna, se, como ela, tivesse por objetivo preparar os homens para a idade viril; mas ele só busca, ao contrário, fixá-los irrevogavelmente na infância. Ele gosta que seus cidadãos se alegrem, desde que só pensem em se alegrar. Ele trabalha de bom grado para sua felicidade; mas quer ser seu único agente e único árbitro. Ele provê sua segurança, prevê e garante suas necessidades, facilita seus prazeres, conduz seus principais negócios, dirige sua indústria, regulamenta suas sucessões, divide suas heranças; não pode lhes tirar totalmente o trabalho de pensar e a pena de viver?”

Gosto muito de romances, e de todo modo não seria capaz de escrever outra coisa. De qualquer modo, jamais seria capaz de escrever um trecho como o que acabo de ler. Mas ainda gosto muito dos romances, acho-os realmente encantadores. Mas um mínimo de honestidade me obriga a admitir: um trecho como esse que acabo de ler para vocês contém o germe de dezenas de romances. “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, por exemplo. Na minha opinião, um romance ruim, mas um dos livros mais proféticos do século 20, está totalmente incluído ali [na citação de Tocqueville].

Gosto muito da arte. Em geral, é ela que me dá, junto com a sexualidade, as maiores alegrias de minha vida. E eu mesmo tento, sinceramente, ser um bom artista. Mas eu lhes digo, com uma modéstia que desta vez absolutamente não é fingida, que o verdadeiro milagre neste mundo é o surgimento de um novo filósofo ou um pensador.

Romances sempre haverá, e bons. Um pensamento novo, há séculos que não temos. As idéias têm muito má repercussão, neste momento, há algum tempo, na crítica literária francesa, e certamente mais ainda na crítica literária anglo-saxã. Eu mesmo fui acusado várias vezes de utilizar idéias demais em meus livros. Já fui até, e essa é a injúria suprema, acusado de ser um autor de teses. Por isso vou me explicar um pouco sobre essa questão.

Começarei por Balzac, que na minha opinião continua sendo o pai universal dos romancistas. Não quero dizer com isso que ele seja o melhor, isso não tem muito sentido. Quero dizer que o romance, hoje, no início do século 21, continua praticamente todo incluído no âmbito definido por Balzac entre 1830 e 1850.

E Balzac nunca hesitou em expor idéias em seus romances. Sejam as de seus personagens, quando ele pensava que davam um esclarecimento interessante sobre sua maneira de ser no mundo, sejam as suas próprias, e sem esconder-se, com uma total simplicidade. Mas certas idéias de Balzac, sobre o magnetismo ou sobre a teosofia de Swedenborg, hoje podem nos parecer totalmente ridículas, enquanto nossa admiração por Balzac não diminui.

Isso não muda nada: um romancista honesto e sincero é aquele que diz tudo o que lhe parece importante dizer. E só o romancista honesto e sincero pode ser qualificado de grande romancista. Os autores de tragédias do período clássico francês não sonhavam em exprimir idéias. De um lado, porque pensavam que nenhuma idéia nova poderia surgir em um mundo que eles consideravam irremediavelmente fechado, e de outro porque exprimir uma idéia seria considerado por eles uma falta de gosto. O resultado é que deixaram uma obra perfeita, mas limitada.

Por isso a capacidade de vibração efetiva, de comoção afetiva ou intelectual, hoje está quase morta. Os autores trágicos da era clássica francesa estão mortos. Em particular, se os compararmos a essa espécie de fulgor neurótico que resta nos fragmentos deixados por seu contemporâneo Pascal.

Para passar a um extremo oposto, os romancistas americanos modernos se impedem de exprimir a menor idéia. Porque isso teria o efeito de diminuir o ritmo do storytelling. Mas, bem, voltarei a esse assunto.

Na França, a situação é diferente. Se as idéias são proscritas dos romances é constantemente em nome do estilo. E aí a passagem mais freqüentemente citada é a de Céline, onde diz, a grosso modo, ‘as idéias, como sabemos, o dicionário está cheio delas; o importante é a música’. Nunca apreciei muito Céline, na verdade. Aliás é por isso que o cito a grosso modo, em contraste com Tocqueville, que citei em detalhe.

Acho que enquanto romancista ele caiu constantemente depois de “Viagem ao Fim da Noite”, e que seu estilo, do qual ele tanto se orgulhava, pouco a pouco degenerou em tiques exasperadores. E que ele somente se refez realmente nos panfletos anti-semitas, isto de maneira pouco surpreendente, aliás, porque é o estilo de panfleto que convinha à sua alma maligna e vingativa.

Na verdade, se Céline desvaloriza as idéias é por interesse pessoal. Porque ele sabia que de fato tinha muito poucas idéias, e que seria incapaz de tê-las. E se coloca a música acima de tudo é com o objetivo de fazer crer que ele havia criado uma música superior. Céline tem de fato uma espécie de música, mas é uma música muito comum, algo intermediário entre o jazz e a canção popular francesa do início do século.

Pode ser, aliás, que a importância da música na literatura seja superestimada, inclusive na poesia. Que talvez esteja mais próxima das artes plásticas do que imaginamos, em geral. Por exemplo, se considerarmos estes versos de Baudelaire, um de seus versos mais sublimes: ‘Entends, ma chère, entends la douce nuit qui marche’ (Escuta, minha querida, escuta a doce noite que caminha). Ele tem uma beleza intrínseca. Uma beleza que seríamos tentados a classificar como plástica. E que independe do fato de rimar com “Le soleil moribond s’endormir sous une arche” (O sol moribundo adormecer sob uma ponte).

É claro, pronunciando um verso, dizemos as palavras sucessivamente. Mas a magia do verso não diminui pelo fato de que as palavras estão, desde o início, todas presentes na consciência do leitor. “Entends, ma chère, entends la douce nuit qui marche.” Podemos dizer que o fato de conhecer todos os versos antecipadamente aumenta a magia do verso.

À parte Baudelaire, que para mim continua sendo um modelo absoluto, todo autor tem um estilo-música. Céline tem uma música acre e picada, Tocqueville tem um estilo elegante, harmonioso, tenso. Mas ele exprime suas idéias.

Vou repetir seu trecho mais célebre porque penso que é importante, e porque é um prazer para mim, na verdade — adoro a maneira como está escrito. (…repete o texto)

Tem uma pontuação magnífica. É incrivelmente bem pontuado. (…)

Eu falei em Aldous Huxley, mas me parece que essa passagem também contém o germe de quase toda a obra de Philippe Muray, que infelizmente desapareceu há pouco tempo, e que nem foi convidado a vir ao Brasil, enquanto creio que ele teria adorado, mas é tarde demais, ele morreu.

E também neste trecho, que foi escrito 50 anos depois de “Assim Falou Zaratustra”, Tocqueville vai mais longe que Nietzsche em sua tirada sobre o último dos homens, que é bem conhecida.

Porque a descrição de Nietzsche continua sendo psicológica, e em um nível que Nietzsche nunca conseguiu superar. Sua aversão pela metafísica vinha do fato de que ele se sentia incapaz de contribuir com qualquer coisa para esse campo. Enquanto Auguste Comte, por exemplo, deixa a metafísica de lado, por considerá-la superada. Tocqueville, ao contrário, supera o nível psicológico e dá no conjunto de seu livro uma explicação completa, histórica e sociológica, do fenômeno que ele prevê.

A sociedade que descrevo em meus livros é a que Tocqueville havia previsto, com exceção de um detalhe: que a família, isto é, a última estrutura social que ele via subsistir, em meus livros está desaparecendo. Quer dizer que o processo de atomização social está a ponto de atingir seu estágio final. Ao mesmo tempo que, como ele havia previsto, o controle higienista social é cada vez mais minucioso e coercitivo. Proibição de fumar, etc.

Mas o mais surpreendente em Tocqueville é que, apesar de acreditar que a democracia reduz o homem, que pode degenerar para um despotismo infantilizador, Tocqueville não deixa de ser partidário da democracia. E é isso que faz dele um dos espíritos mais estranhos e mais originais da história das idéias.

Para situar Tocqueville, ele pertencia a uma família da alta nobreza. O que sua família tinha perdido com o desaparecimento do Antigo Regime é considerável. Mas em momento algum de sua obra ele questiona o caráter maciço, inevitável, do aparecimento da democracia.

Devemos concluir que é um fatalista? Que ele aceita a democracia porque sente que qualquer resistência é inútil? No fundo, creio que a realidade é diferente. No fundo, aí eu corro um risco, porque é um risco tentar chegar ao fundo do pensamento de um dos autores mais sutis que a terra já teve. Mas para mim Tocqueville era, ao fim das contas, realmente, sinceramente partidário da democracia, porque sentia a injustiça do sistema aristocrático. Nietzsche, ao contrário, inebriado por uma sensação injustificada de sua própria superioridade, aspirou durante sua vida inteira ao estabelecimento de uma nova aristocracia, da qual seria membro.

Portanto, o maior inconveniente de uma democracia, para resumir Tocqueville, é a transformação de uma sociedade em um rebanho obediente, uniforme, de indivíduos não ligados entre si, unicamente ocupados com sua saúde e seu prazer. Com um controle social cada vez mais protetor, infantilizador, em resumo, é a impossibilidade do aparecimento e do desenvolvimento de individualidades fortes.

Quando essas individualidades fortes aparecem, apesar de tudo, se elas quiserem sobreviver, se elas quiserem acabar seus dias em outros lugares que não hospitais psiquiátricos, ou muito mais raramente em uma prisão, elas só têm uma porta de saída, uma única saída socialmente aceitável: lançar-se em uma carreira artística.

Em termos artísticos, assim que tentamos agradar, assim que buscamos o consenso, assim que recebemos uma opinião diferente, em resumo, assim que nos afastamos do processo simples no qual um artista é direta e pessoalmente responsável por uma obra, caímos inevitavelmente na mediocridade.

Resumindo, a arte tem um funcionamento diametralmente oposto ao da democracia. E portanto, assim como para as frustrações ligadas ao desaparecimento das guerras temos um remédio que é o futebol, parece-me que para as frustrações ligadas ao surgimento da democracia temos um remédio que é a arte. Acrescento que é possível amar ao mesmo tempo a arte e o futebol.

Os Estados Unidos da América se consideram o primeiro país democrático do mundo, o primeiro em data e o primeiro em importância. Eles se sentem investidos de uma missão, que é a de propagar a democracia ao conjunto do planeta. Os Estados Unidos da América renunciaram a impor o beisebol ao conjunto do planeta, eles compreenderam que o futebol era mais interessante.

Por outro lado, os Estados Unidos da América não renunciaram a sua dominação cultural mundial. Eles desejam consolidá-la não somente no campo do cinema, que lhes é muito caro, mas também nos da música e dos livros.

Não me parece absolutamente impossível imaginar que os americanos acabem renunciando a sua supremacia no campo industrial e tecnológico. Que eles acabem admitindo que perderam o jogo diante da China e da Índia. Mas me parece impossível imaginar que eles renunciem a sua supremacia lingüística e cultural.

Portanto, não é desinteressante imaginar o que Tocqueville, o analista mais profundo da democracia americana desde seu início, escreveu sobre a situação da arte nos países democráticos. Não vou comentar pessoalmente as situações que se seguirão. Vou ler para que vocês possam se perguntar se elas ainda são justas ou não.
Então, é Tocqueville.

“A democracia não faz apenas penetrar o gosto das letras nas classes industriais, ela introduz o espírito industrial no seio da literatura. Nas aristocracias, os leitores são difíceis e pouco numerosos; nas democracias, é menos difícil agradá-los, e seu número é prodigioso.

“Daí resulta que, entre os povos aristocráticos, só devemos esperar o sucesso com esforços imensos, e embora esses esforços possam dar grande glória não saberiam jamais produzir muito dinheiro; enquanto nas nações democráticas um escritor pode se orgulhar se obter por bom preço um renome medíocre e uma grande fortuna. Para tanto, não é necessário que seja admirado, basta que seja provado.

“A multidão sempre crescente de leitores e a necessidade contínua que eles têm de novidades garantem a venda de um livro que não seja sequer apreciado. Nos tempos de democracia, o público age muitas vezes com os autores como fazem comumente os reis com seus cortesãos: ele os enriquece e os despreza.”

Alguns comentários de Tocqueville sobre o teatro. Ele seria hoje substituído pelo cinema.

“As peças de teatro formam, aliás, mesmo nos países aristocráticos, a parte mais democrática da literatura. Não há prazer literário mais ao alcance da multidão do que o que sentimos diante do palco. Não é preciso nenhum preparo nem estudo para senti-lo. Ele o surpreende no meio de suas preocupações e de sua ignorância.

“(…) Nas sociedades democráticas, os espectadores não têm preferências semelhantes; (…) eles gostam de encontrar no palco a mistura confusa de condições, de sentimentos e de idéias que encontram sob seus olhos; o teatro torna-se mais chocante, mais vulgar e mais verdadeiro.”

Eu repito, porque não é forçosamente evidente, que Tocqueville era um autêntico partidário da democracia. E que todas as críticas devem ser lidas à luz desse posicionamento fundamental para a democracia.

Há outros trechos em que ele critica impiedosamente os maneirismos em que começa a cair a literatura dos séculos aristocráticos. Quando ele diz “mais chocante, mais vulgar e mais verdadeiro”, há acusação e há elogio. E podemos considerar que o elogio é mais importante que a acusação. Assim como podemos preferir ser apreciados do que ser admirados.

Certa vez me aconteceu de receber um prêmio literário internacional por “As Partículas Elementares”. Chama-se prêmio Impac e foi em Dublin. Impac é o nome de uma firma de auditoria em informática de dimensão mundial, que patrocina o prêmio. Assim, em certo momento de seu discurso, o presidente da empresa se colocou a pergunta: “Por que nós, uma empresa de auditoria, e de aconselhamento, sentimos a necessidade de oferecer um prêmio literário?”

É uma pergunta que eu mesmo me fazia desde o início da noite. Portanto, escutei a resposta com muita atenção e ainda me lembro dela. É a seguinte: “Because we, walk and march companions, need the images of writers and storytellers” (Porque nós, companheiros de caminhada e de marcha, precisamos das imagens dos escritores e contadores de histórias).

Nesse momento eu estava à frente do júri, e minha vizinha, que era uma escritora islandesa, se pôs a resmungar: “I’m a writer, not a storyteller!! I’m no fucking storyteller, I’m a writer!” (Eu sou uma escritora, e não uma contadora de histórias! Eu não sou uma merda de contadora de histórias! Sou uma escritora!) Ela ficou indignada por ser chamada de storyteller.

Eu nem tanto, porque achei o presidente da empresa bastante simpático. Ele fazia a confusão entre escritor e contador de histórias com toda a ingenuidade. Realmente sem pensar no assunto. Mas evidentemente a autora islandesa tinha razão, no fundo.

E essa é a maior fonte de mal-entendidos entre a literatura e o cinema. O pessoal do cinema imagina, na verdade, que um romancista é uma espécie de roteirista, eventualmente escritor de diálogos, mas que ele é muito mais dotado que a média, a ponto de suas produções serem vendidas mesmo sem o apoio das imagens.

Ora… na realidade, se um romancista conseguir escrever diálogos, leva 20 vezes menos tempo para escrevê-lo. Podemos perfeitamente escrever um romance sem diálogos, eu gosto muito do discurso indireto. Por outro lado, exagerando um pouco, podemos dizer que a história contada por um romance, sua trama, pode não ter qualquer importância para seu sucesso final.

Há alguns meses contei uma história. É algo que raramente faço, e não muito bem, porque em geral pouco depois do começo eu anuncio a queda e depois o fim; não gosto de terminar, então corto rapidamente, com um final breve.

Eu contei a história até o fim, mas ela não fez muito sucesso, porque o ponto culminante da história, portanto sua queda, era: o personagem principal, um homem de cerca de 60 anos, rico e influente, dizia, falando de outra pessoa: “Il flippe sa race” (Ele enlouquece sua raça). Que é uma expressão um tanto mal-educada, do vocabulário da gente da periferia na França… Mas ele não tinha nada do gênero periferia.

Na verdade, se eu estava contando minha história, era para pôr em cena esse divertido incidente lingüístico. Mas ninguém a achou engraçada. Enfim, felizmente a história era curta. O que eu quero dizer é que se as pessoas têm vontade de ouvir uma história não é para apresentarmos um incidente lingüístico engraçado.

Às vezes elas têm vontade de rir, às vezes de ser aterrorizadas, comovidas, elas têm necessidade de uma identificação forte, e é o limite do ofício do contador de histórias, em relação à atividade do romancista.

Para mim, meu ofício não é um ofício. Contador de histórias é um ofício. Romancista não é um ofício: uma atividade tão livre, com tão poucas regras, não pode ser qualificada de ofício. E é por isso também que sou contra qualquer tentativa de ensinar o ofício da escrita. Também sou contra as escolas de arte em geral, mas enfim… Felizmente ainda não existem na França no campo do romance, e isso é bom.

Bem, voltando aos americanos. Segundo todas as evidências, para eles o cinema é a mais importante das artes. Eles têm consciência de que os romances são válidos e autônomos. Mas de todo modo um romance adaptado ao cinema, para eles, tem um valor suplementar. E não somente um valor comercial, embora no final tudo se resuma a isso. E é uma das conseqüências mais insidiosas da dominação da cultura americana no mundo. O fenômeno afeta em primeiro lugar os romancistas americanos, e cada vez mais romancistas do mundo inteiro. É a transformação progressiva dos romancistas em contadores de histórias.

E o que Tocqueville, na minha opinião, sentiu fortemente, mesmo que não o tenha expressado claramente, é que a passagem do Antigo Regime para a democracia teria como conseqüência uma simplificação da atividade literária. É que gêneros inteiros desapareceriam porque seu público desapareceria. Da poesia e da filosofia quase nada restaria.

Portanto, a atividade literária da humanidade em seu conjunto se resumiria ao teatro e ao romance. É o que vivemos hoje, a não ser que o teatro foi derrotado pelo cinema. O romance, pelo contrário, vai muito bem e nada parece anunciar um eclipse.

As razões da dominação americana no cinema não são misteriosas. Primeiro, o cinema americano tem mais dinheiro. Portanto, ele usa esse dinheiro para fabricar filmes, mas também para exportá-los, enquanto mantém um rígido protecionismo sobre os filmes estrangeiros em seu território. Ele o utiliza, enfim, para comprar muito caro qualquer talento suscetível de se manifestar fora dos EUA.

No campo do romance, a dominação americana tem causas menos evidentes. Porque para escrever um romance o dinheiro nunca serviu nem jamais servirá para nada. Existe um traço comum com o cinema, que continua eficaz no caso dos livros: uma política comercial agressiva na exportação e um protecionismo estrito à importação.

Também há uma adaptação ao gosto presumido do público, e até a literatura americana está cheia de admiráveis contra-exemplos, mas globalmente, de todo modo, é uma coisa mais comercial.

Mas além de tudo isso eu creio que a dominação cultural americana tem uma causa mais profunda: a consciência, e até a certeza, de sua própria superioridade. Quando estamos plenamente, visceralmente convencidos de nossa superioridade, acabamos por convencer os outros. E, o que é mais extraordinário, acabamos nos tornando realmente superiores.

Apesar das aparências, não estou proferindo uma conferência antiamericana. Nem sequer tenho certeza de que a dominação cultural americana seja uma coisa ruim. Eu queria apenas destacar o fato que é a dominação cultural de uma nação essencialmente democrática. E o desaparecimento certeiro e programado das culturas locais de origem aristocrática.

No campo do cinema, o que é certo, é que a quase totalidade dos atores, dos técnicos, diretores, aceitam com entusiasmo qualquer proposta que possa ser feita por Hollywood. Eles o fazem atraídos pelo ganho, mas não somente. O fazem também para realizar filmes melhores, em melhores condições de trabalho. E o fazem cada vez mais tranqüilamente.

Porque a tradição de uma certa política de autor européia, em particular francesa, pelo fato de que um diretor, e não um produtor, se beneficie do corte final, está desaparecendo em grande velocidade. E como na Europa, como na América, cada vez mais é o produtor o verdadeiro autor do filme.

No campo da música popular, a dominação anglo-saxã se justifica plenamente no início. Na medida em que o rock, nos anos 1960, era uma música, me parece, muito superior à música local que ele substituiu e destruiu. Hoje, quando rock está quase morto, é mais duvidoso.

E se a dominação anglo-saxã dura no campo musical é essencialmente por causa da dominação lingüística do inglês. Ao contrário dos romances, uma canção não pode ser traduzida, o intérprete é essencial. Só uma canção escrita e interpretada em inglês pode conhecer difusão fora de seu próprio país.

Levando em conta o aumento dos intercâmbios, uma língua mundial é indispensável. O francês podia servir nas cortes européias do século 18. Mas quando a democracia venceu ele teve de desaparecer, porque o francês é uma língua complicada demais, que gera complicações absurdas.

O espanhol poderia ter-se tornado uma boa língua internacional. Mas a história decidiu de outro modo, e agora será o inglês. Portanto, é uma dominação que me parece inevitável. Quase desejável. Em todo caso, eu a aceito.

Portanto, a grande maioria dos habitantes do planeta é suficientemente inteligente para aprender duas línguas. Uma bem, com prazer, sua própria língua; a outra geralmente mal, por motivos utilitários, limitando-se basicamente ao inglês.

Parece-me que nos dirigimos a uma situação insana: em diferentes países do mundo, a língua majoritariamente falada será a língua local, e o inglês, embora não seja dominado pela quase totalidade da população, será não somente a língua das trocas comerciais mas também a da cultura.

Portanto, depois de um longo desvio, chegaremos a uma situação elitista, em que apenas uma parte da população de cada país terá acesso à produção cultural difundida em seu território. E portanto só terá acesso nas produções culturais ao que for transmitido pelas redes de televisão, que, evidentemente, continuarão transmitindo em língua local.

Então nos encontraremos um pouco na mesma situação que na Idade Média, quando o conjunto do saber e da cultura difícil era divulgado em latim, língua unicamente acessível aos clérigos.

Para evitar essa situação desagradável, creio que só há uma solução, que pode parecer bizarra psicologicamente: é desenvolver o orgulho. Porque quando temos consciência de nosso próprio valor, quando nos percebemos com energia, acabamos efetivamente produzindo obras de valor. Isso é verdadeiro para os indivíduos e para os povos.

Dois anos atrás, eu estava fazendo uma palestra na Rússia e um leitor me fez uma pergunta estranha. Era um homem de cerca de 60 anos e me perguntou: ‘Nós não erramos ao renunciar à conquista espacial?’ Eu disse que não sabia nada sobre isso, que não tinha opinião.

Mais tarde, meu editor me disse que era uma pessoa muito conhecida na Rússia, um antigo cosmonauta. E, refletindo sobre esse momento, eu me disse que o nacionalismo russo, por mais exasperante que possa ser às vezes, e até perigoso, tem uma vantagem para a população russa.

Porque a Rússia tem consciência de ter sido um grande país, capaz de realizar projetos grandiosos, de levar o homem ao espaço. A Rússia tem a nostalgia das estrelas. E é essa nostalgia que pode lhe dar novamente a ambição de produzir grandes coisas.

Mais recentemente, dois meses atrás, lendo o último livro de Bernard-Henri Lévy, compreendi de repente o que nos separa. Eu gosto muito dele, ele odeia o nacionalismo. Evidentemente, na essência, ele tem razão, porque a primeira conseqüência do nacionalismo, a mais evidente, é produzir guerras.

Eu compreendi naquele momento que Bernard-Henri Lévy, no fundo, é um utópico, e eu é que sou um realista. Ele é um utópico porque gostaria que o mundo fosse organizado com base no consenso e no contrato, e que uma sociedade politicamente organizada fosse totalmente boa.

Enquanto do meu ponto de vista organizar politicamente a sociedade é aceitar desde o início a presença de contradições, de forças negativas e violentas, e tentar canalizá-las em um sentido positivo. Isso me aproxima indiscutivelmente de Charles Fourier. Como de Tocqueville e de Auguste Comte, vou falar de Fourier.

Talvez não seja gratuitamente que eu tomo minhas referências de intelectuais e de pensadores da França da primeira metade do século 19. Como se nada tivesse acontecido desde então. Eu assumo. Porque não aconteceu muita coisa desde então.

A Revolução Francesa é um acontecimento considerável, uma delimitação sociológica e histórica das mais importantes da história mundial. E não é nada surpreendente, depois do episódio napoleônico retrógrado, que tenha havido na França uma intensa fermentação intelectual. No mundo inteiro, mas particularmente na França, onde havia acontecido a revolução, em torno dessa questão da base de uma possível organização das sociedades.

E sobre a maioria dos problemas que se colocaram na França nessa época, creio que não conseguimos nenhum avanço significativo e importante.

Volto a Fourier. Dele, conhecemos em geral os falanstérios e o ambiente de comunismo sexual, e tratamos essas questões com um sorriso. Devo dizer que esse sorriso irônico não se justifica. A passagem do regime aristocrático para o regime democrático devia necessariamente ser acompanhada da passagem do casamento por razão, no qual se tratava de unir patrimônios e famílias, para o do amor.

Portanto, obrigatoriamente, a infidelidade conjugal, que havia sido tacitamente admitida na França do Antigo Regime, devia se tornar um assunto dramático e provocar sofrimentos morais atrozes. Como a supressão de um desejo sexual multiforme e quase impossível, a instituição do casamento não pode resistir, nem a família.

Portanto, esse tema da moral sexual, que tem uma incidência direta na demografia, que teria uma incidência direta na sobrevivência da própria humanidade, não há do que sorrir. No fundo são temas muito mais sérios que a economia, que a geopolítica, etc.

E normalmente são temas muito dolorosos. Já em “A Prima Bette”, de Balzac, ele extrai vibrações dolorosas inéditas. Balzac se pronuncia a favor da fidelidade conjugal heróica, mas no fundo ele descreve o desejo com tal violência que não posso imaginar que acreditasse nisso.

Como é um romancista, de todo modo, ele não é obrigado a propor soluções realistas. Eu também sou um romancista, e portanto posso, não sou obrigado a nada. A não ser que aqui faço uma conferência, portanto faço um esforço para ser realista.

Auguste Comte também se pronuncia a favor da fidelidade absoluta. Ele a estende mesmo após a morte do cônjuge. O que a Igreja Católica nunca ousou fazer. É de todo modo um pouco burlesco, podemos dizer de passagem, que um país como o Brasil, que não é muito famoso pelo puritanismo, tenha sido fundado pelos positivistas.

Deve-se dizer que Comte muitas vezes se aproxima da loucura. Vemos bem isso em sua escolha de palavras bastante anormal, em sua maneira de construir as frases, que é tão bizarra. Ele também é um filósofo que se tornou o símbolo da razão, do bom senso, ou mesmo do bom senso burguês, seja o único filósofo da história, que eu saiba, que tentou se suicidar por desespero amoroso. Ele se atirou da Pont des Arts no Sena. E depois passou meses em instituições psiquiátricas.

Também é o único na filosofia que foi radicalmente modificado pelo encontro com uma mulher, Clotilde de Vaux. Portanto, um sujeito estranho, enfim.

Fourier propõe uma solução muito diferente, é o mínimo que podemos dizer, original e interessante, e que merece ser estudada. Aqui não tenho tempo, é muito complicado, todo o resumo de uma idéia muito simples. Ele também se aproximava da loucura às vezes. Mas, diferentemente de Comte, não de uma maneira obsessiva, é sobretudo histeria. Em todo caso, isso não pode ser resumido como “comunismo sexual” nem como “troca-troca” (de parceiros sexuais).

Eu mesmo constatei seu fracasso em uma fórmula de “Plateforma” que era “o troca-troca tem tantas possibilidades de sobreviver hoje quanto a carona nos anos 70”. Isso chegou a me acontecer em uma casa de swing em Paris cujo proprietário tem simpatia por mim. Ele acabara de ler o livro e me lembrou a fórmula, e ela lhe causou pena.

É isso que é terrível na literatura. O lado árido, terra queimada. De transformar a vida ao seu redor em literatura. De se distanciar à margem das possibilidades de vida.

Eu falei de Fourier porque seu grande tema, fora as relações sexuais, é a utilização das paixões negativas. Como a vaidade e o desejo de distinção na constituição da sociedade. E isso também é muito interessante. Ele busca utilizar todas as paixões humanas. Ele não pressupõe nem mesmo pacificar, ele observa uma humanidade cheia de desejos, de vaidades, e transforma essa sociedade de maneira que essas forças possam ter um valor positivo.

E eu creio que podemos fazer a mesma coisa com o nacionalismo. Sabendo que ele pode sempre degenerar em chauvinismo, e que o limite é estreito. E sabendo disso, que quando dizemos delicadamente podemos afirmar nossa identidade sem rejeitar o outro, infelizmente não é totalmente verdadeiro.

Em resumo, jogar com o nacionalismo é jogar com forças perigosas. Mas é melhor tentar integrá-las na reflexão do que ignorá-las, ou pensar que ignorá-las as fará desaparecer. E sabendo também que em termos artísticos, evidentemente, é o cosmopolitismo que é verdadeiro. Todas as grandes produções intelectuais, artísticas, filosóficas, científicas, pertencem à humanidade inteira.

A França foi um dos países mais orgulhosos do mundo. E hoje perdeu qualquer vestígio de orgulho nacional. A ideologia lhe causa horror. O ambiente predominante na mídia francesa em relação à cultura francesa é a dominação inevitável e anunciada da cultura americana, que é recebida com um prazer masoquista. Os franceses são as pessoas mais inquietas e mais angustiadas da Europa. Portanto, do mundo — é sua especificidade.

E é verdade que uma das atividades preferidas da mídia francesa é comentar o declínio da França. Enquanto a Alemanha, a Itália e a Espanha, que decaem igualmente, e em certos sentidos muito mais, tanto no plano demográfico quanto no da resistência à hegemonia cultural americana, não falam absolutamente em sua própria decadência.

Os franceses há cerca de 30 anos são os comentaristas fascinados de seu próprio declínio. E eu volto à Rússia. O que desapareceu na França e existe, por exemplo, na Rússia, apesar de todos os problemas, é a alegria de viver. Os franceses ficam felizes em ganhar cada vez mais dinheiro e consumir cada vez mais. Na França, por outro lado, o tema da moda neste momento é o declínio.

Portanto, o que nos dá alegria, neste momento, na França, é respeitar a natureza, porque ela nos é superior, e para as atividades humanas recomenda-se a maior modéstia. O pior é que no fundo os partidários da democracia têm razão. Se cada vez mais pessoas vivas consumirem cada vez mais, a superfície é limitada, a vida na terra vai se tornar cada vez mais inviável.

Mas se eu raciocinar egoisticamente por um instante devo convir que é mais agradável viver em um país onde há alegria de viver. E o apetite ingênuo do consumo e do prazer. Viver em um país que pareça a França do glorioso pós-guerra. Que na verdade durou de 1948 a 1973 — primeiro choque do petróleo.

Portanto, não sei bem no fundo como está o Brasil. Talvez tenha correspondências com a Rússia. O fato de ser um país vasto, com uma grande parte dos recursos naturais inexplorados, o fato de ter uma tradição antiamericana muito viva, o fato de ter um sistema federal, o fato, tocante para mim, de ter uma espécie de amor pela literatura francesa, de esperar algo dela, que se manteve na Rússia com todos os regimes, na época stalinista, é muito surpreendente.

O fato de ter mulheres muito bonitas, sexualmente ardentes, outro ponto em comum, digo isso porque estive na Rússia há dois meses, portanto, digo que talvez haja pontos em comum entre a Rússia e o Brasil. Bem, não é realmente uma conclusão, mas é algo que me pergunto…

E há outro ponto em comum, finalmente! Por exemplo, a idéia do Brasil é que há pessoas muito ricas, poucas, e outras muito pobres, muitas, e é exatamente o caso da Rússia dez anos atrás. E agora se desenvolve claramente uma classe média instruída e medianamente rica, e é bem possível que seja a mesma coisa que no Brasil, mas não sei. Vocês me dirão.

Tradução : Luiz Roberto Mendes Gonçalves