De Queixo Caído

Assim ficavam todos que viam jogar Ademir de Menezes, o Queixada

Felizes os jogadores admirados até pela torcida adversária. O Queixada foi um desses.Torcendo contra ele, na geral do Maracanã, havia um jovem chamado Armando Nogueira, que assim resume suas tardes de domingo:

Se o futebol me quisesse dar um presente, bastava que me desse um domingo inteirinho só de gols de Ademir Menezes. O estádio embandeirado, a multidão ali, em peso, todo mundo cantando e pulando pela glória do artilheiro inesquecível do Vasco da Gama.

Nesta tarde de lembranças, quero rever, sobretudo, certos gols que ele fazia contra o meu time e que eu, doido de paixão, jurava que eram feitos pessoalmente contra mim”.

Ademir Marques de Menezes, com seu queixo limpa- trilho, é considerado o primeiro ponta-de-lança da história. Técnicos tiveram que inventar novos esquemas para segurar o Queixada. Foi um dos maiores ídolos da história do Vasco da Gama. Um dos mais célebres cidadãos pernambucanos a pisar num gramado de futebol. A maior preocupação de um técnico que tinha Ademir Menezes como atacante era conseguir alguém que lhe lançasse a bola. O resto era moleza.

Ademir de Menezes nasceu dia 8 de novembro de 1922 num lugar de nome improvável: Vila de Bico do Mocotolombó. Em 1941, já era tricampeão pernambucano pelo Sport (onde o pai era dirigente). O Sport na época era tão forte que saiu em excursão nacional e ganhou 10 jogos em 16. Em março de 1942, o time do recife ganhou do Vasco de 5 x 4, num dia inesperado do Queixada.

No mesmo dia, Ademir de Menezes foi procurado pelos dirigentes vascaínos e passou a fazer parte do lendário Expresso da Vitória, ao lado de Jair Rosa Pinto, Lelê e Djalma. No ano seguinte, o técnico do Fluminense, Gentil Cardoso, declarou: “Dêem-me Ademir que eu lhes dou o campeonato”. Ademir foi. No primeiro jogo contra o Vasco, entrou sob vaias. Pegou a bola, atravessou o campo, driblou o goleiro Barbosa e entrou  com bola e tudo no gol vascaíno. O Flu foi campeão de 1946.

Mas o coração de Ademir de Menezes estava com o Vasco, e para lá ele voltou para marcar mais de 400 gols em 552 jogos. Virou ídolo nacional Os cartórios registraram uma onda de “ademiradores”  nos batismos. Em 1950, um pai desesperado contou ao Queixada que seu filho precisava passar por uma cirurgia e implorou que Ademir de Menezes o acompanhasse no hospital. O artilheiro foi e o garoto se salvou.

Ademir de Menezes aliás estava na seleção de 1950. Marcou nove gols, foi artilheiro absoluto da Copa. Mas não conseguiu reverter a tragédia final. No total, fez 32 gols em 39 partidas com a camisa amarela e venceu 28 delas.

No final de 1955, Ademir de Menezes voltou para o Sport para encerrar a carreira. No seu último jogo, perdeu para o Bahia por 2 x 0, em 1956. “Abandonei o futebol antes que ele me abandonasse”, disse. O futebol jamais o abandonou : ele ganhou uma penca de cccampeonatos regionais, nacionais e internacionais, pelo Sport, Vasco, Fluminense e pela Seleção Brasileira.

Já aposentado, Ademir de Menezes faria uma respeitável carreira como comentarista. Mas manteria um outro comentarista enfeitiçado para sempre: “Hoje, mestre Ademir de Menezes costuma aparecer no telão das minhas insônias mais o artilheiro do que nunca”, lembra Armando Nogueira. “E com aquela alegria revejo, agora, aqueles gols arrebatadores que ele fazia com a veemência de um predestinado! Gols que ontem sangravam e que hoje só enternecem o meu coração. Ademir guardava em campo o rigor de um espartano e a retidão de um cavalheiro. Nunca perdeu a esportiva. Se alguém lhe dava um pontapé, ele dava, de volta, a outra face: jogava como um cristão. O futebol era a sua religião. Ademir era alto, fino de corpo, tinha as pernas alinhadas e do rosto, que parecia feito a mão, sobrava-lhe um pedaço de queixo. Daí vem o apelido de “Queixada”, como ternamente o tratam até hoje os seus amigos. Fecho os meus olhos saudosos para reencontrar Ademir Marques de Menezes, herói dos estádios nos anos românticos do nosso futebol.”

Ademir Marques de Menezes faleceu no Rio em 11 de maio de 1996.

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra