Mineirão: Fronteira para o sucesso

Craques os mineiros sempre tiveram. Sem grandes rendas, porém eles rapidamente rumavam para centros maiores, como Rio de Janeiro e São Paulo. Então surgiu o estádio que mudou a história do futebol no estado e brindou o povo de Minas com grandes esquadrões, jogos inesquecíveis e muitos, muitos títulos. Hoje, qualquer torcedor sabe perfeitamente como encontrar tantas emoções: basta ir ao Mineirão

Durante quase trinta anos Minas Gerais esperou por ele. A cada craque nascido nas Alterosas que abandonava os jogos do acanhado estádio Antônio Carlos, migrando para o Rio de Janeiro ou São Paulo, tornava-se mais forte a certeza de que só um novo e grandioso palco daria definitivamente aos mineiros o status de potência do futebol brasileiro. O talento dos jogadores do Estado, afinal, ficara patente nos gols de Niguinho, nas defesas de Kafunga e nos desarmes de Zé do Monte desde o final dos anos 30. A criação do Estádio Independência, motivada pela Copa do Mundo de 1950, fora um estímulo muito pequeno. Assim, quando o sonho do Mineirão concretizou-se, em 1965, ninguém duvidou: dali em diante acabava a supremacia absoluta de cariocas e paulistas. Minas entrava para o mapa da bola.

“É o ponto de partida para instituir-se o Campeonato Brasileiro”, profetizou o jornalista Armando Nogueira vendo o que era ainda um imenso canteiro de obras no distante bairro da Pampulha. A previsão cumpriu-se seis anos depois, mas antes disso aquele gramado ofereceria momentos inesquecíveis a quem sentasse em suas arquibancadas. O primeiro deles logo na partida inaugural. Em 5 de setembro de 1965, a Seleção Mineira. montada à base de revelações como Tostão e Dirceu Lopes, ganhou do River Plate por 1 x 0, gol do artilheiro atleticano Buglê aos 2 minutos do segundo tempo. A festa foi organizada às pressas e a instalação das roletas aconteceu somente na véspera do jogo. A confusãi, no entanto, não impediu a TV Itacolomy de gravar pela primeira vez uma partida de futebol em Minas Gerais.

Dois dias mais tarde, a Seleção Brasileira, representada pelo Palmeiras, pisou no gramado para vencer o Uruguai por 3 x 0 – Rinaldo, Tupãzinho e Germano marcaram. Mais do que nunca, porém, o futebol das Alterosas também estava maduro para enfrentar de igual para igual qualquer adversário. Nem o Santos de Pelé escapou. Na decisão da Taça Brasil de 1966, por exemplo, o Cruzeiro comandado pelos mineiros Tostão e Dirceu Lopes garantiu o show, goleando o melhor time do planeta por 6 x 2. O título só seria conquistado dias mais tarde, no Pacaembu (nova vitória por 3 x 2), mas o gosto daquela goleada jamais abandonou os cruzeirenses.

O primeiro grande time do Cruzeiro foi de Pedro Paulo, Neco, Wilson Piazza, William, Procópio, Raul. Natal, Tostão, Evaldi, Dirceu Lopes e Hilton Oliveira.

Ninguém marcou mais vezes que o rei Reinaldo, autor de 144 gols

Tostão fez um a menos que o atleticano, mas, na média, foi melhor.

O time azul transmitia a impressão de ter atuado a vida inteira no novo ca,po; Seus jogadores conheciam cada palmo de grama, apresentando um futebol à altura do estádio construído para acolhê-los. Assim, de 1965 a 1969, o Cruzeiro sagrou-se pentacampeão mineiro. Tanto sucesso irritava os atleticanos, que passaram a chamar o goleiro Raul pelo apelido de Wanderléa, numa alusão aos longos cabelos à camisa amarela que usava – até então, os jogadores da posição limitavam-se às cores preta e cinza. Quando a CBD confirmou as previsões de Armando Nogueira e instituiu o Campeonato Brasileiro, a vez de brilhar foi do Atlético, campeão com um gol de Dario contra o Botafogo. Só faltou uma alegria: o Galo ergueu a taça no Maracanã.

Em 1969, Atlético e Cruzeiro protagonizaram um clássico assistido por 123 mil pagantes (Cruzeiro 1 x 0), recorde de público aé hoje. A quantidade de espectadores, imaginável no período dos pequenos estádios, produziu receitas suficientes para a manutenção dos craques e o surgimento de dois novos esquadrões nos anos 70: o Cruzeiro de Palhinha, Joãozinho e Nelinho e o Atlético, com Toninho Cerezo e Reinaldo. A sorte, porém, não os acompanhou. O time azul, campeão da Libertadores de 1976 ganhando do River Plate em Santiago, perdeu no Mineirão o Mundial Interclubes (0 x 0 com o Bayern, que já vencera em Munique por 2 x 0). Um ano depois, o Atlético desperdiçou o bicampeonato brasileiro de 1977, graças a uma derrota por 3 x 2, na disputa por pênaltis contra o São Paulo. “A frustração foi muito grande, principalmente porque precisei assistir ao jogo de longe”, recorda-se o centroavante Reinaldo, que cumpria suspensão naquele dia.

Nos anos 80, a rivalidade com clubes de outros Estados continuou e gerou, em 1987, uma das maiores brigas do futebol de Minas. O nervosismo da partida entre flamenguistas e atleticanos pelas semifinais da Copa União contagiou os torcedores que se espremiam nas arquibancadas e quase provocou uma tragédia. Mas os mineiros ainda valorizaram as disputas nos Campeonatos Estaduais, Em meados da década passada, durante uma reforma, o hall de entrada foi pintado de azul e branco.

Imediatamente o presidente atleticano Nélson Campos protestou,, mas foi apreendido pelos administradores. “Ele que mande o pincel e as tintas”, ironizaram. No dia seguinte, com o material devidamente providenciado pela diretoria alvinegra, o hall ganhou as cores marrom e branco. A vitória no episódio da pintura não apagou a insatisfação insatisfação pelo menor número de títulos estaduais na Era Mineirão. Desde1965 o Cruzeiro arrebentou treze canecos, um a mais do que os atleticanos – o América conquistou o título em 1971. Hoje o estádio é muito mais do que um simples cartão postal de Belo Horizonte. Nele expressa-se boa parte da alma de cada torcedor que ali vivenciou algumas de suas maiores alegrias e decepções. É também o sinal mais forte da pujança do futebol no Estado e uma garantia de que, enquanto ele estiver de pé, o povo de Minas Gerais terá muitos motivos para vibrar vendo a bola rolar por seu gramado.