Morumbi: O vendedor de cadeiras cativas

As piadas corriam soltas por São Paulo em 1952, e falavam abertamente sobre o conto das cadeiras cativas. “No ano de 2000 os filhos dos compradores ainda estarão esperando pelo dia em que poderão usá-las”, brincavam os críticos. Questionado por dirigentes tricolores sobre a possibilidade de utilizar sua imagem para a venda das cadeiras, um jogador são-paulino sequer titubeou: “Vendo, sem dúvida”, disparou o goleiro José Poy. Do primeiro lote de 12 000 unidades, negociadas a 20 mil cruzeiros cada – havia a possibilidade de serem pagas em prestações mensais de mil cruzeiros -, Poy vendeu 8 000 e, com esse dinheiro, ajudou a erguer as primeiras paredes da nova casa do São Paulo.

“Eu gostava muito do clube e queria ver concretizado seu sonho antigo”, relembra o goleiro, que atendeu a muitos pedidos. Até do exterior chegavam propostas para comprar as cadeiras do novo estádio. Oito anos mais tarde, em 1960, Poy estava novamente em ação, dessa vez embaixo das traves do São Paulo no jogo inaugural do Morumbi. “É inesquecível”, garante, emocionado.

De lá pra cá, esse argentino, hoje com 67 anos, participou de muitos outros momentos marcantes do Cícero Pompeu de Toledo. Em 1975, comandou o tricolor rumo ao título estadual, orientando uma jovem equipe como técnico. Em 1982, disputou outra decisão pelo São Paulo, mas sagrou-se vice-campeão paulista – o Corinthians venceu a final por 3 x 1.

“Até hoje, quando sento nessas cadeiras, lembro de tudo”, deslumbra-se o ex-goleiro, olhando o gramado. Com certeza, ele também traz boas recordações a cada são-paulino que o viu jogar. E toda a torcida tricolor agradece o tempo em que Poy ajudava, discretamente, a erguer o maior estádio particular do planeta.