Racismo: É tudo um complô, acusa Quilmes

As lideranças do Quilmes afirmaram que o time argentino está sendo alvo de uma campanha do setor esportivo brasileiro, que pretende utilizar como “bode expiatório” para mostrar, perante os times europeus, de que o Brasil também luta contra a discriminação racial nos estádios. Segundo José Luiz Meiszner, integrante da diretoria, os representantes do São Paulo “estão magnificando as coisas”. Meiszner sustentou que a diretoria do Quilmes “compartilha o repúdio à discriminação racial”. Admitiu no entanto, que “um jogo quente leva à discussões” no campo. Além disso, afirmou que é impossível, nas gravações do jogo realizado na quarta-feira à noite no Morumbi, ler nos lábios do jogador Leandro Desábato alguma frase racista.

“Vamos tentar resolver esta questão pelos correspondentes canais esportivos e diplomáticos”, explicou em declarações ao canal de TV “Todo Notícias”. Segundo ele, Desabato “é um rapaz do interior, incapaz de fazer esse tipo de discriminação”.

Os jornais argentinos, com edições são encerradas após a meia-noite, cobriram o jogo, mas ignoraram a detenção de Desabato, um jogador praticamente desconhecido do público argentino. Somente o “La Nación” citou brevemente o caso em uma pequena coluna. Os analistas atribuem a relativa falta de interesse no caso pelo fato do Quilmes ser um time pequeno, com uma torcida inexpressiva.

O racismo em relação aos brasileiros no futebol argentino tem raízes profundas. Em 1996, quando ainda estava indefinido se a Argentina se enfrentaria no campo com a seleção do Brasil ou a da Nigéria o jornal esportivo “Olé” (do grupo Clarín) publicou a manchete “que vengan los macacos”. Diante da onda de repercussões negativas, o “Olé” emitiu um pedido de desculpas, alegando que o palavreado era parte da “linguagem jovem” que queriam dar ao novo jornal.

Maradona referiu-se muitas vezes a Pelé como “esse negro”, além de fazer alusões a suposta iniciação sexual homossexual do ex-jogador brasileiro.

No entanto, a maioria das expressões racistas no âmbito esportivo argentino, mais do a afro-americanos, são anti-semitas e destinadas contra torcidas de imigrantes de Peru, Paraguai e a Bolívia. Denominar alguém de “negro” na Argentina pode ter vários significados. Pode ser carinhoso a alguém de cabelos pretos ou pele morena, como a cantora Mercedes Sosa, chamada de “La Negra” por ser morena, descendente de índios. O ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-2003) é chamado de “El Negro”, pela tez morena e cabelos pretos.

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Argentinos chamam a cantora Mercedes Sosa, muitas vezees, de La Negra

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A palavra pode ser ser depreciativa como na expressão “negro de mierda” ou pejorativamente contra os argentinos descendentes de indígenas. Nos anos 40, os “cabecitas negras” eram os imigrantes do interior da Argentina, mestiços de índios, que chegavam a Buenos Aires para trabalhar como operários. Mas, referir-se a um rival, no meio de cotoveladas, no campo de futebol, como “negro” dificilmente poderia ser usado com sentido carinhoso.