Seleção 2014: vexame e choros marcam o segundo fracasso em casa

A pior derrota em 100 anos de Seleção. É com esta marca que a Copa de 2014 será lembrada para o Brasil. Ainda que se lembrem da vibração dos torcedores ao cantar o hino nacional, do carisma e raça de David Luiz, da emoção de Thiago Silva, das defesas nos pênaltis de Julio César, ou da grave lesão que tirou o craque Neymar de ação precocemente, o vexame da derrota por 7 a 1 para a Alemanha, no Mineirão, pela semifinal, vai estar para sempre gravado na memória dos torcedores que viram a esperança de comemorarem o título se esvair no segundo Mundial sediado pelo país. Com a goleada sofrida para a Holanda na disputa do terceiro lugar, nem medalha sobrou no ponto final de uma campanha muito mais do que decepcionante.

Julio César à frente na saída desolada de campo da Seleção contra a Holanda: fora até do pódio

Da abertura até a última derrota, a Seleção empolgou o torcedor brasileiro na mesma medida que o deixou apreensivo. O bom futebol esteve presente em raríssimos momentos da campanha. A vitória na estreia, por exemplo, foi de virada, depois do susto de um gol contra. Graças a um pênalti mal marcado pelo árbitro e aos pés de Neymar, veio o alívio de arrancar com três pontos. Foi nessa partida também que apareceram os primeiros sinais de emoção transbordante. Antes de entrar em campo, o capitão Thiago Silva apareceu com os olhos cheio de lágrimas. No Hino Nacional, o goleiro Julio César chorou. O sentimento à flor da pele acabaria virando uma marca dos jogadores na Copa.

Dias depois, contra o México, Neymar repetiu as lágrimas na execução do hino. Dentro de campo, porém, não repetiu o seu bom futebol, e a Seleção parou nas mãos de Ochoa. A classificação aconteceu sem fortes emoções e com goleada sobre Camarões. Mas, nas oitavas de final, após 120 minutos de um empate dramático com o Chile, mais choro. Antes da decisão por pênaltis, Thiago Silva se isolou, pediu para ser o último a cobrar, e Julio César foi aos prantos novamente antes de virar herói. O zagueiro não chegou a bater, mas o goleiro se tornou herói ao pegar duas cobranças e classificar o Brasil.

Nas quartas de final, apesar da vitória com direito a golaço de David Luiz, as lágrimas foram de dor. Uma entrada dura de Zúñiga acabou com a Copa de Neymar, ofuscando a classificação brasileira. O camisa 10 fraturou a terceira vértebra lombar e se despediu do Mundial aos prantos contra a Colômbia. Um baque enorme para uma Seleção que não convencia.

Neymar grita de dor após levar pancada do colombiano Zúñiga

O discurso motivacional de jogar pelo craque apareceu. Felipão anunciou que a psicóloga Regina Brandão conversaria a respeito com os jogadores. O clima se expandiu para a torcida, e surgiram campanhas em redes sociais para que a Seleção jogasse em nome do craque. Tudo em vão. Sem sua principal peça, o Brasil não resistiu a força de um rival tradicional. Sem organização, apagou. Por seis minutos. O suficiente para se ver atrás da Alemanha por 5 a 0 ainda no primeiro tempo da semifinal. Era o fim do sonho do hexa. O choro agora era também de Oscar, David Luiz e de outros tantos por todo o país.

Por ironia do destino, o sonho do hexa que começou com a dificuldade de um gol contra do lateral-esquerdo Marcelo diante da Croácia, “terminou” com um a favor do meia Oscar, no minuto final do vexame histórico contra a Alemanha. Mas sem qualquer importância. Talvez o gol mais triste da história centenária da amarelinha.

Autor do “gol de honra” contra a Alemanha, Oscar chora bastante após a derrota humilhante

Confira abaixo os selos que marcaram a campanha da Seleção:

David Luiz ganhou a torcida brasileira durante a Copa do Mundo. Irreverente fora de campo e com muita raça dentro das quatro linhas, o jogador se tornou o mais popular do grupo depois do atacante Neymar. Talvez por isso, o choro do zagueiro após a eliminação para a Alemanha na semifinal tenha sido tão emblemático. A postura firme de sempre deu lugar as lágrimas. Quase sem voz, o camisa 4 pediu desculpa aos torcedores e afirmou: “Eu só queria dar alegria ao meu povo que tanto sofre”.

A forma com que o Brasil levou quatro gols em seis minutos da Alemanha foi impressionante. Um apagão que não faz jus a uma seleção pentacampeã do mundo. Descontrolado emocionalmente, o time acusou o gol do atacante Klose, aos 22 minutos do primeiro tempo, o segundo, e cedeu uma sequência de outros três em seis minutos para os alemães. Na sequência, o meia Kroos marcou duas vezes e o volante Khedira deu o golpe final do período avassalador.

O zagueiro David Luiz não chega a ser um especialista em faltas. Apesar de treinar bastante, tem poucas oportunidades de cobrar em uma Seleção que conta com Neymar. Mas contra a Colômbia, ele chamou a responsabilidade e não decepcionou ao fazer um golaço que encaminhou a classificação do Brasil para a semifinal da Copa. De muito longe, o camisa 4 acerto um chute forte no ângulo esquerdo, sem chances de defesa para o goleiro Ospina.

Contra Camarões, Neymar estava solto em campo. Além dos dois gols que marcou, o craque esbanjou habilidade em lances plásticos que levantaram a torcida. A sequência do fim do primeiro tempo é um exemplo. O camisa 10 recebe um lançamento longo, domina com categoria e emenda um chapéu em N’Koulou. Sem deixar a bola cair, ele passa a bola para Oscar com um toque suave. O meia devolve para ele na entrada da área e, girando, Neymar faz a bola chegar até Paulinho na área. No fim, Hulk chuta para a fora a oportunidade.

A partida entre Brasil e Chile, nas oitavas de final, foi dramática. As duas equipes batalharam por 120 minutos, mas não conseguiram tirar o empate por 1 a 1 do placar no Mineirão. E não foi por falta de chances de gol. Jô é um exemplo disso. Aos 28 minutos do segundo tempo, Hulk fez boa jogada individual pela esquerda e cruzou para área. O atacante apareceu por trás da defesa e, na hora de completar para a rede, furou a bola, desperdiçando a chance de colocar a Seleção em vantagem.

E se Jô desperdiçou no ataque, coube a Julio César salvar o Brasil na defesa. O goleiro operou um verdadeiro milagre aos 19 minutos do segundo tempo, evitando a virada do Chile em um momento crítico da Seleção dentro da partida. Livre, o lateral Isla apareceu na linha de fundo pela direita e tocou rasteiro para a chegada de Aránguiz. O volante chegou batendo firme de primeira, no contrapé do camisa 12, que no reflexo conseguiu espalmar a bola para escanteio.

O relógio já marcava 43 minutos do segundo tempo no Castelão. O Brasil estava perto de confirmar a vitória sobre a Colômbia por 2 a 1, no Castelão, e garantir a vaga nas semifinais. Foi quando Neymar recebeu uma joelhada de Zúñiga nas costas e caiu no gramado. Sem conseguir se mexer direito, o craque começou a chorar. Recebeu atendimento médico, mas teve que ser substituído, seguindo direto para o hospital. Depois da partida, veio a confirmação: com um lesão na terceira vértebra lombar, o atacante se despediu da Copa do Mundo.