Torcida poderosa

Por baixo da faixa, ex-presidente da República vestia a camisa de seus times do coração e chegaram a beneficiá-los nos bastidores

Nem contra nem a favor – muito pelo contrário. A frase que representava o político mineiro da República pré-1964 serve também como boa definição para a relação entre os presidentes da história republicana e seus clubes de coração. Em quase todos, um traço comum: a discrição ao torcer. A devoção clubística podia se resumir a gestos mal disfarçados de comemoração, trocas de favores e frases lapidares, como a que é atribuída ao não-empossado presidente Tancredo Neves, eleito pelo Colégio Eleitoral em 1985: “Sou América-MG, mas gosto do Cruzeiro e do Atlético bem como dos times do interior”, teria dito o político mineiro, morto sem tomar posse na Presidência. De acordo com que prevêem as pesquisas para a eleição deste ano, porém, tudo indica que o próximo presidente será fanático assumido.

Lula confirma o prognóstico. O petista, que sempre se declarou corintiano de coração “e Vasco por adoração”, foi ao Morumbi às vésperas do segundo turno contra Collor. Mas cometeu um erro: declarou antes que iria torcer para o Vasco na decisão do brasileirão contra o São Paulo. Os são-paulinos interpretaram a declaração como uma “sacada” e vaiaram o candidato. Que pelo menos no futebol saiu vitorioso – com gol de Sorato, o Vasco saiu campeão.

Já o ex-ministro José Serra, segundo colocado nas pesquisas, nunca escondeu o fanatismo pelo Palmeias, a ponto de entrar em choque com o treinador Luiz Felipe Scolari em 1998. Logo após uma derrota do time em São Paulo, que eliminou o Palmeiras do Brasileiro, Serra diria que Felipão não era “apropriado” paa dirigir o time. O então irascível treinador reagiu com dureza, criticando a situação da saúde pública no Brasil.

– Ele deveria se concentrar para resolver os problemas da saúde- respondeu na época um irritado Felipão.

O ex-governador do Rio, Anthony Garotinho, também com chances de ir para um eventual segundo turno, revela seu time de coração. – o Flamengo – desde 1994, quando disputou o governo do Rio pela primeira vez, perdendo para Marcello Alencar. E Ciro Gomes é talvez o mais comedido ao escolher diplomaticamente o distante Guarany de Sobral como clube de devoção.

– O futebol é tão importante que chegaram a dar um time para o então presidente Ernesto Geisel torcer, o Inter de Porto Alegre. Ele na verdade não tinha time. Mas todos eles de uma forma ou outra sempre deixaram à mostra suas preferências clubísticas – conta o professor de comunicação da UERJ,

Ronaldo Helal, autor de vários livros de futebol, entre eles “A Invenção do País do Futebol – mídia, raça idolatria”.

Já o presidente Fernando Henrique Cardoso não é do tipo freqüentador de arquibancada. Em 1994, no Rio de Janeiro, confessou sua apatia diante do tema e ainda brincou com Marcello Alencar e Artur da Távola (então candidatos ao governo e ao senado, respectivamente):

– Marcelo jogava basquete; Artur jogou vôlei. Eu fui jogador de botão – declarou.

– Fernando Henrique na verdade é um corintiano pouco ortodoxo- confirma o jornalista esportivo Mauro Beting, da TV Bandeirantes, estudioso da política brasileira.

A discrição dos presidentes ao torcer dá vazão a lendas, uma delas desfeitas pelo jornalista Luiz Mendes, que viu todas as Copas desde 1950.

– Ninguém sabe para quem Getúlio Vargas torcia. Chegou-se a cogitar que ele fosse tricolor, pois era sócio do clube. Só que seu sobrinho, o poeta gaúcho Manoel Vargas Neto, me contou que Getúlio só se tornou sócio do Fluminense porque era perto do Palácio Guanabara, e sua família podia freqüentar – conta.

Curiosamente, a ficha de sócio de Getúlio tem a inscrição: “Observação: suicidou-se em 1954”, assim, burocraticamente resumindo o fato.

Outro expediente usado para demonstrar a paixão clubística era a doação de terrenos desocupados da União, como os generais Ernesto Geisel (1974-1979) e João Baptista Figueiredo (1979-1985); o primeiro, apesar de – segundo Luiz Mendes – ser torcedor do Cruzeiro de Porto Alegre, time extinto na década de 60, doou terrenos a Botafogo e Vasco (nenhum deles utilizados pelo clube). E Figueiredo – também torcedor do Grêmio – é responsável por ajudar o Fluminense a obter terreno onde fica um de seus maiores bens: o Centro de Treinamento de Xerém, na Baixada Fluminense.

– Hoje, o terreno seria do Vasco, na rodovia Washington Luiz, em Caxias, é ocupado por uma favela. E o do botafogo em São Gonçalo, mas jamais foi usada pelo clube – conta Luiz Mendes.

Para o Professor Ronaldo Helal, a relação clubes- Estado parece estar em um retrocesso.

– Na época de Getúlio, quando se falava em modernizar o futebol, significava interferência do Estado. Depois, o discurso foi o oposto e, agora, os dirigentes parecem ter voltado a pedir a presença do governo – diz Helal.

Se fanatismo significar realmente apoio governamental, as torcidas de Corinthians, Palmeiras e Flamengo – ou Guarani de Sobral – vão torcer muito durante a apuração. Haja boca de urna.

Getúlio começou a intervir no futebol

* As vitórias em Copas estreitaram ainda mais a relação entre ocupante da cadeira presidencial e a bola. Getúlio Vargas, porém, é que tinha dado o primeiro passo, ao aprovar durante o Estado Novo os primeiros projetos de oficialização do esporte, qualificando-o como “diversões públicas” e colocando a Censura Federal para fiscalizar os jogos e o cumprimento dos contratos dos jogadores. Em fiscalização incluía até comportamento de jogador em campo.

Getúlio, até então um interessado por golfe, se interessou por futebol depois do fascínio do povo na Copa de 1938.

Exatamente 20 anos depois era a vez do mineiro Jucelino Kubischek receber os primeiros brasileiros campeões do mundo.

Sua secretária pessoal, Cirlene Ramos, hoje diretora cultural do Memorial JK, confirma o entusiasmo dele, mas não seu time – que na época diziam ser o Botafogo.

– O presidente Jucelino não era alheio a essas conquistas, pois sabia que alçavam o país ao reconhecimento internacional. Não torcia por um time específico, gostava do espetáculo que o futebol oferecia – conta.

– Mesmo durante seu mandato, manteve a mesma característica anterior, de torcer pelo time que se destacava, não escolhendo equipe em especial – relembra. As coisas mudaram em Minas: o hoje e ex-presidente, o baiano Itamar Franco, nunca escondeu a paixão pelo Fluminense do rio.

– E pelo Atlético Mineiro – confidenciam seus assessores, muito em off.

HISTÓRIAS REAIS

O sangue azul (e preto) do general Médici

* Em 24 de outubro de 1968, o jornalista e radialista Luiz Mendes recebeu um telefonema de um amigo ligado ao então governo militar solicitando um favor: que recebesse na cabine de rádio do Maracanã um oficial ligado ao serviço de informações.

Na época, o Brasil era presidido pela junta militar que ficou até o dia 30 de outubro do ano seguinte. Os rumos do país ainda

estavam indefinidos, às vésperas do Ato Institucional número 5 (de 13 de dezembro daquele mesmo ano). Por isso, Luiz Mendes não poderia mesmo imaginar que naquela cabine ao seu Aldo estivesse o primeiro presidente a assumir após a Junta: Emílio Garrastazu Médici, o mesmo que em 1970 já como presidente exigiria a presença de Dário na Seleção Brasileira que jogaria a Copa do México.

Como ambos eram gaúchos, Médici confessou logo sua preferência pelo Grêmio, que enfrentava o Flamengo – o Flamengo de Fio Maravilha. Mas Médici, ironicamente, como presidente declararia seu amor exatamente pelo adversário naquela tarde.

– Mas ele era Grêmio, tanto que vibrou muito na hora do gol da vitória. Depois, como era bom de “marketing”, passou a dizer que era Flamengo – conta o radialista, das poucas pessoas a saber da real paixão gremista do general-presidente que naquela tarde deu um pulo na cabine na hora do gol de Alcindo a ponto de dar um susto em Luiz Mendes. Apenas mais um susto de muitos que o general daria pelo país depois.