Trechos do texto de José Miguel Wisnik- Folha de São Paulo – 03/05/2009

“Enquanto as jogadas financeiras, as metas empresariais e os deslocamentos do capital são restritivos, implacáveis e impalpáveis ao alcance da maioria, o campo de futebol é a grande tela reconhecível em que a ação humana, o acaso e o destino contracenam de maneira lúdica e trágica, épica e dramática, cômica e lírica. Com todo peso do mercado, nele é ainda a medida humana, coletiva e individual, física e mental, que testa seus limites, e é a performance visível, em jogo com os acasos e com o poder decisório e implacável do apito final, que dirá o que pode a sorte e o calor de cada um.

Em certa medida, o futebol torna verificáveis os valores e os méritos que a vida embaralha, confunde, oculta e perverte. Mas o futebol só faz isso até certo ponto: ele é o jogo de bola mais sujeito à interpretação, ao questionamento do feito e do mérito, à discussão da justiça e da injustiça de um resultado, à disparidade das preferências por diferentes estilos, à distorção imaginária. Toda essa nebulosa de demandas pelo reconhecimento converge na figura do jogador máximo, cuja eleição é a forma atual do fetiche idolátrico: nela, a cabeça coroada é posta a prêmio para ser cobrada e negada com a mesma virulência da sua consagração. Pois se o Número Um é, na sociedade da concorrência, o lugar mítico por definição, o limite que ele alcançou, sendo inultrapassável, é quase que necessariamente o trampolim da sua desgraça, já que dele não se aceitará a “áurea da mediocridade”, a volta pacífica ao patamar da mediania – é o holofote ou o ostracismo, a idolatria ou a difusa maldição do (onde foi parar?)”…

… Ronaldo foi o primeiro emblema da era do futebol globalizado: quando a Nike buscou o perfil de um jogador emergente inequívoco, capaz de corresponder ao que fora Michael Jordan para o basquete, que projetou mundialmente a marca perante as novas audiências conquistadas pela televisão a cabo, não encontrou ninguém melhor do que ele, que jogava então no Barcelona, para cumprir o papel. Chegou à Copa de 1998 nesse lugar de máximo prestígio, em plena ascensão da Roda da Fortuna, indo cair, no entanto,na famosa “convulsão” antes da partida final daquela copa em que o Brasil perdeu para a França por 3 a 0…

Depois vêm as contusões no Milan, o retorno com o corpo visivelmente modificado, agora gordo, mas ressuscitado… Uma etimologia de algibeira dá ao nome Ronaldo o sentido de “aquele que governa com mistério”. O mistério de Ronaldo Fenômeno, no caso, é a força com que ele retorna do nada quando mais fundo tenha sido o mergulho.