Chutes no traseiro, erros de tradução, desinformação e desvio de foco

Henrique de Almeida Soares Coelho

Em meio à desorganização da Copa do Mundo no Brasil (aspecto que infelizmente não nos é estranho em vários outros níveis sociais), uma certa polêmica vem se desenrolando desde o dia 2 de março. Jérôme Valcke, secretário-geral da FIFA e interlocutor principal entre a Federação e o governo brasileiro, fez, na ocasião, duras críticas aos atrasos de cronograma da Copa no Brasil. Destaco aqui a frase, na íntegra, dita pelo secretário-geral: “Não consigo entender porque os estádios não estão mais seguindo o cronograma inicial. Por que tantas coisas estão atrasadas? O Brasil precisa avançar, tomar um chute no traseiro e entregar a Copa do Mundo”.

Brasília – O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, e o secretário-geral da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Jérôme Volcker, reúnem-se (2011) com a comissão especial responsável pela análise do projeto da Lei Geral da Copa do Mundo de 2014 (PL 2330/11, do Executivo). Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

A reação, como poderia se esperar, foi de absoluta indignação, não completamente despropositada. A expressão em francês, “Se donner un coup de pied aux fesses”, pode ser absolutamente comum e não chula na sociedade francesa, mas aqui é bem diferente. Até explicar toda essa situação idiomática, e ficar constatado que houve um erro na tradução, muita coisa foi dita e atitudes foram tomadas, revelando-se aí as atitudes de alguns de, literalmente, “jogar para a galera”. Era o que os organizadores da Copa no Brasil precisavam: em vez de tomar atitudes drásticas para melhorar a organização da competição aqui no Brasil (principalmente com relação aos estádios e às obras de mobilidade urbana) e “dar um tapa de luva de pelica”, acusa-se Valcke de atacar a honra brasileira e a capacidade do país de sediar um evento deste porte. Como se vê, muito conveniente.

Aldo Rebelo, Ministro dos Esportes desde a saída de Orlando Silva, disse que não aceitava mais a presença de Valcke como interlocutor imediatamente após essa declaração. Marcos Aurélio Garcia, assessor da Presidência da República, disse que o dirigente da FIFA era um “vagabundo”. E o foco da discussão acabou sendo a frase de Valcke em detrimento dos assuntos mais importantes e sérios a serem discutidos em torno da Copa do Mundo no Brasil, que é subserviente à FIFA mesmo com alguns rachas entre esta última e a CBF nos últimos meses, envolvendo acusações de corrupção para os dois presidentes, respectivamente Joseph Blatter e Ricardo Teixeira. Este último é muitíssimo mal visto, aliás, pela presidente Dilma Roussef, que não quer vê-lo nem “pintado de ouro”.

Aldo Rebelo, ministro dos Esportes. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

(Nota: Aldo Rebelo enviou a tal carta para a FIFA, exigindo a troca de interlocutor, para a Suiça, mas não para Zurique, onde fica a sede da entidade, e sim para Lausanne. Ainda chama o presidente da entidade de Joseph Sepp Blatter, sendo que Sepp é apelido do dirigente. Leia a carta na íntegra aqui. Continuemos.).

O responsável pela frase infeliz já pediu desculpas oficialmente ao governo brasileiro, e garantiu que a Copa será feita aqui. Já corre nessa manhã a informação de que Jérôme teria mentido a respeito de ter usado a expressão em francês, o que já configuraria uma postura mais hostil por parte do secretário, e aí o pedido de desculpas é absolutamente necessário. Mas isso é o que menos importa a essa altura do campeonato. A falta de diplomacia não pode encobrir o fato de que há, sim, muitas coisas a melhorar se quisermos fazer uma Copa do Mundo funcional, que traga benesses ao povo brasileiro e seja feita com idoneidade. Não essa bagunça generalizada que vemos em muitos aspectos da organização desse evento. Na terça feira (6 de março), foi votada a Lei Geral da Copa, que está sendo criticada por muitos, tal como o deputado Chico Alencar (veja o video aqui), criticando a falta de diálogo com as leis vigentes no Brasil para eventos esportivos.

Brasília – O secretário-geral da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Jérôme Valcke, o presidente da Câmara, Marco Maia, e o ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, durante entrevista coletiva (2011) concedida na residência oficial do presidente da Câmara, sobre a Copa do Mundo de 2014. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

E o pior: provavelmente, a lei irá passar, Jérôme Valcke irá continuar, a Copa será organizada, de forma mambembe, e haverá pouco ou nenhum legado em várias das 12 cidades (um número gigantesco, tudo para satisfazer politicamente os que estão alinhados com a CBF) que devem sediar jogos da Copa. Muita água vai rolar por baixo dessa ponte. O que não pode acontecer é uma cegueira que só será curada depois que a tempestade já tiver passado e as dívidas chegarem. Porque elas podem até demorar, mas elas chegam.

https://www.ludopedio.com.br/…/chutes-no-traseiro-