Clássicos Históricos: Trincheiras da Rivalidade

No Rio Grande do Sul, a eterna briga entre Grêmio e Internacional não fica só a disputa de cada título. É preciso ter também a maior torcida e reafirmar a superioridade de seu patrimônio em relação ao inimigo. Por isso, o Beira-Rio e o Olímpico transformaram-se em verdadeiros campos dessa batalha sem fim.

Foi a partir de um indomável sentimento de superação perante o rival que se fez a construção do Olímpico e do Beira-Rio, os dois grandes estádios gaúchos. Durante anos, os colorados, humilhados pelos torcedores gremistas (donos do moderno e espaçoso Olímpico desde 1954), sonhavam com sua nova casa própria, pois o velho campo dos Eucaliptos. Onde o Inter mandava seus jogos desde os tempos do amadorismo, há muito tempo já se tornara ultrapassado. Mas só em 1969 o clube se tornaria dono de um estádio maior que o rival: o Gigante da Beira-Rio. O local, cedido pela prefeitura, era um aterro às margens do rio Guaíba, eu geralmente alagava. Irônicos, os tricolores desprezavam a campanha da venda das cadeiras do futuro estádio colorado, chamando-as de “boias cativas”. E enquanto o Grêmio ganhava tudo o que disputava (como o heptacampeonato gaúcho, entre 1962 e 1968), embalado pelos gols do Bugre Xucro Alcindo, o maior artilheiro da história tricolor, milhares de sacos de cimento chegavam do interior do Estado para dar forma ao colosso da Beira-Rio. Um comovente esforço de torcedores de todos os cantos, que chegava, a roubar material de construção das obras de Porto Alegre na calada da noite para, ao amanhecer, depositar tudo às margens do Guaíba.

“Foi como sair de um casebre e entrar num palácio”, comenta o ex-ponta-direita Valdomiro, carrasco do Grêmio e um dos maiores ídolos da história do clube, referindo-se ao dia em que seu time entrou pela primeira vez no gramado trocando o acanhado campo dos Eucaliptos pela nova casa. Um inesquecível 6 de abril. Em 1969, em que uma vitória do Inter sobre o Benfica de Portugal por 2 x 1 deu início à saga de conquistas coloradas no Beira-Rio.

As superlotações que se seguiram (recorde de público no Rio Grande, quando 103 mil pessoas viram a Seleção Brasileira empatar em 3×3 com o Combinado Gaúcho, em 1972; 95 mil pessoas assistindo a um novo empate entre duas equipes, por 2 x 2, antes da Copa de 78) justificam o gigantismo do estádio. Não havia mais dúvida: o palco onde o Inter conquistaria o octacampeonato gaúcho (entre 1969 e 1976) e o tri brasileiro (em 1975, 76 e 79) já era o maior do Estado. Por isso, a inscrição “A maior torcida do Rio Grande” foi orgulhosamente colocada no local que a torcida batizou de “aba do Borda” (parte coberta das arquibancadas assim chamada em homenagem a José Pinheiro Borda, fanático benemérito colorado que sonhava em ver o Beira-Rio coberto, mas morreu antes de sua inauguração. Hoje, ele cede seu nome ao estádio).

Preocupados com a ascensão do Internacional, os diretores gremistas iniciaram então uma campanha de ampliação do Olímpico (de 38 mil para 85 mil lugares), para deixa-lo igual ou maior que o Beira-Rio.

Em 1980, a casa tricolor era reinaugurada, com sofisticados camarotes, ar-condicionado, bar e garçons. Era questão de honra proporcionar ali arrecadações tão grandes quanto as do Beira-Rio, mas o máximo que conseguiu até hoje foi juntar 98 421 gremistas para assistir à semifinal do Campeonato Brasileiro de 1081 (85 721 pagantes). Mesmo derrotado por 1 x 0 pela ponte Preta, o Grêmio assegurou ali a classificação para a final contra o São Paulo. O que os colorados não imaginavam é que o “Remendão”, como chamavam o Olímpico, marcaria o início da fase mais gloriosa do clube. P Grêmio seria campeão gaúcho em 1980, brasileiro em 81, da Copa do Brasil em 89 e hexacampeão gaúcho entre 1985 e 90, além de ganhar a Taça Libertadores e o Mundial Interclubes de 1983. Se o Beira-Rio recebia maiores públicos, o Olímpico comemorava as mais importantes conquistas, E isso já justificava a euforia expressa no troco dado ao rival, com uma inscrição na marquise do estádio tricolor: “A verdadeira maior torcida do Rio Grande”.

Os troféus eram uma recompensa justa para os idealistas que começaram a erguer o Olímpico, quando o time ainda mandava seus jogos no antigo estádio da Baixada, palco do primeiro Gre-Nal da história (goleada gremista por 10 x 0). Com o sonho concretizado, em 1954, a dificuldade passava a ser montar um time capaz de acabar com a hegemonia nos pampas. Sem dinheiro para investir em reforços, o presidente tricolor Saturnino Vanzelotti propôs a troca do pavilhão de madeira com dez lances de arquibancadas da velha Baixada pelo passe do zagueiro Aírton, então com 20 anos, que jogava no Força e Luz.

“Achei estranho, mas, como o salário era bom – 2 000 contos -, acabei concordando”, recorda o zagueiro. A troca deu certo. Aírton tornou0se o melhor central da história tricolor, ganhou o apelido carinhoso de Pabilhão e, com ele, a equipe chegou ao pentacampeonato gaúcho entre 1956 e 1960. Se não bastasse, nos anos seguintes à construção do Olímpico a torcida ainda seria premiada com doze títulos em treze campeonatos (de 1956 a 69 o time só perdeu o de 1961).

Só faltou o privilégio de vencer o primeiro Gre-Nal do estádio como acontecera com a Bixada. O Inter ganhou a primeira no Olímpico por 6 x 2, com quatro gols de Larry e dois de Bodinho. Para compensar, foi ali que o rei Pelé viveu seu momento mais emocionante no Rio Grande di Sykm em 1968. As luzes se apagaram e todo o estádio cantou “Parabéns a Você” para cumprimenta-lo por seu 28º aniversário. O Rei retribuiu no resultado do jogo: o Santos bateu o Internacional, que ainda tinha o Beira-Rio em construção, por 3 x 1.

Os altos e baixos dos dois gigantes dos Pampas continuaram como antes das inaugurações de Beira-Rio e Olímpico. Mas fizeram os dois clubes alçarem voos muito mais altos do que os dos tempos de Eucaliptos e Baixada. Afinal, a cada vez que gremistas ou colorados dão um passo à frente, o rival não para antes de igualar o feito. “Esta gangorra não vai terminar nunca”, garante o ex-presidente do Grêmio Hélio Dourado. Sorte dos gaúchos, lançados no olho do furacão desta guerra, e que podem acompanhá-la de camarote. Seja no Olímpico ou no Beira-Rio.