Futebol, Teatro ou Televisão?

Capítulo V

Uma vez no ar, A TV-educativa do Rio de janeiro (Canal 2) elegeu o futebol como fenômeno cultural de frequência preponderante nas suas transmissões. Temos demonstrado que a televisão implica no domínio exacerbado da visão sobre a prática social efetiva. O que seria o futebol apenas visto, e não praticado? Não dependeria o futebol brasileiro, enquanto fenômeno cultural realmente significativo, da presença física do torcedor no estádio e de sua participação concreta nas circunstâncias do jogo?

Não seria o fenômeno futebolístico nacional incompatível com a economia e com a ideologia do sistema televisivo? Se fosse preciso fazer uma comparação, não estaria o futebol mais do lado do teatro? Neste último aspecto incidirá a nossa tônica: futebol, no Brasil, também é teatro, embora se recalque esta significação. Achamos que reencontrar as articulações históricas, que, na formação social brasileira, produzem esta significação ou este “índice” de teatralidade, pode trazer mesmo a indicação de alguns caminhos para uma semiologia (ou uma Sintomatologia) do fenômeno social.

Será preciso estabelecer dois pontos preliminares:

1) Esporte e indústria tem afinidades de estrutura – O esporte, tal como hoje o conhecemos, é filho legitimo da Revolução Industrial. Não se deve confundi-lo com o jogo físico, que se caracteriza pela espontaneidade de movimentos, pela despreocupação com relação a um fim produtivo, pela liberdade do corpo. A diferença entre os modernos jogos olímpicos (inicio: 1896) e os praticados pelos antigos gregos está em que estes, embora voltados para a competição individual, não eram esportes, mas torneios, que recebiam o seu sentido das celebrações rituais exercidas no interior de uma Polis (a comunidade politicamente constituída) sacralizada. O indígena, por sua vez, não pratica esportes. Pode lutar, nadar, competir, mas nenhuma destas atividades tem um sentido que se poderia chamar de «esportivo». Quando o silvícola do Xingu, ainda hoje, empenha-se numa luta corporal (o uka-uka), puramente competitiva na aparência, está desenvolvendo um esforço que não tem um fim em si mesmo, As proporções de seu corpo, a rijeza de seus músculos, a espontaneidade de seus movimentos, não estão postos a serviço da unidimensionalidade de um adestramento com uma meta prefixada. A luta do índio é sobretudo a exibição excedente (e não da poupança orientada, como no esporte) de sua força vital, e isto transcorre num clima de alegria e cavalheirismo para com o vencido, sem ressentimentos e sem necessidade de árbitros. A luta é, aí, um rito de fraternidade, puro jogo físico – e não esporte. É preciso esclarecer que, ao opormos jogo e esporte, não queremos afirmar a esterilização absoluta da função lúdica (muito bem analisada por J. Huizinga em Homo Ludens) no esporte. Queremos, sim, afirmar que o esporte está além (e aquém) do jogo, que o esporte é outra coisa. Um episódio mais próximo ilustra bem a diferença: no final do ano de 1974, jogadores profissionais do rio comemoraram o início das férias futebolísticas com uma partida de futebol. Ou seja, essas brincaram, «jogaram» (no sentido radical da palavra) realmente futebol. Jogar era o que fazia, por exemplo, Garrincha. Para ele, não havia competição (já que brincava o tempo inteiro), e as regras técnicas existiam para serem contrariadas (talvez por isso os psicólogos tenham chegado ao conhecimento diagnóstico de «retardamento»). Na Copa do Mundo de 1958, quando todo o Brasil se achava em suspense, só havia uma pessoa tranquila entre os jogadores: Garrincha.

A lógica do esporte, tal como é concebido no Ocidente, é a mesma que situa em esferas diferentes as noções de corpo e espírito. A concepção de uma «natureza dupla» do homem está presente tanto na tradição cristã quanto no pensamento filosófico – de Aristóteles a Descartes. O espírito (res cogitans) é aí pensado segundo as modalidades da experiência objetiva (res extensa), reduzindo-se assim a um fantasma do cogito. Para Descartes, a lama governa o corpo assim como o timoneiro dirige o navio: a dicotomia alma/corpo é a mesma timoneiro/navio. O corpo (que Pascal chama, com desprezo, de «este trapo» equivale conceitualmente à máquina). É algo a ser dirigido, a ser submetido.

O esporte pressupõe não só esta filosofia do corpo, mas também a mecanização dos meios de trabalho (aos quais surge uma reação) e um certo processo de produção que submete inapelavelmente o corpo do homem. Em princípio, o esporte parece gerar uma reação ao controle do corpo pela máquina, mas é logo envolvido pela mesma trama de relações em que esta funciona. Não demora a converter-se numa forma de organização técnica do corpo, capaz de reproduzir as regras políticas dominantes, como qualquer outra organização produtiva. Pode, assim, funcionar à semelhança de uma indústria, desde a execução mecânica dos movimentos de um atleta (tecnicamente avaliável por instrumentos de precisão) até a fixação de fins (a vitória sobre o próprio corpo, sobre os competidores ou a conquista de recordes), o relacionamento entre os esportistas e os meios de acesso à prática esportiva. Desta maneira, o corpo do atleta submete-se a uma linha evolutiva, a um progresso técnico, exatamente como uma máquina. Por exemplo, um campeão de natação da década de 20 nada seria em comparação a um nadador olímpico dos anos 70: houve progresso ao nível dos recordes estabelecidos, das técnicas de treinamento e dos instrumentos de avaliação do desempenho.

Futebol não é «popular esporte bretão» por acaso. Embora desde os tempos antigos o jogo da bola tivesse sido praticado por chineses, Gregos, egípcios, astecas e bretões (século XII), o futebol só apareceria, no quadro conceitual do sport, no país que primeiro realizou sua Revolução Industrial: a Inglaterra. Quando surge no Brasil, tem como focos de irradiação, o meio industrial (fábricas e usinas) ou círculos mais aristocráticos, ligados aos hábitos de lazer da colônia europeia presente nos começos de nossa moderna formação econômica urbana.

2) A prática do esporte pode ser, predominantemente, uma prática política – Na medida em que incorpora técnicas de exercício corporal numa forma produtiva (aquisição de reflexos, harmonia muscular), o esporte produz necessariamente relações sociais – que permitem caracterizá-lo como uma prática política. É a partir da Idade Clássica Europeia que o corpo se torna objeto de um poder exercido através de uma verdadeira economia política corporal, implicada nos métodos disciplinares dos exercícios. O soldado, por exemplo, é tratado como uma máquina, a fim de tornar-se aquilo que Michel Foucault chama de «corpo dócil», ou seja, o corpo definido, em suas mínimas operações, numa relação coercitiva com o aparelho de produção. Nos locais públicos, na escola, à mesa, os atos e os gestos amoldam-se a uma nova economia do corpo, em que este deixa ver o funcionamento metódico do organismo. O esporte, com suas regras e sua organização interna, surge com o desenvolvimento externo dessa economia corporal do tempo livre do sujeito. O corpo do atleta é uma análise dos investimentos tecno-políticos contidos no exercício físico. Como no soldado, o corpo atlético é um corpo disciplinado, adestrado na harmonização de forças supostamente capazes de produzir saúde, como máquina eficaz. O esporte implica realmente numa política do corpo. E em certas conjunturas históricas, a Ordem social – que é o objeto formulado ou produzido por toda prática política – transparece claramente na ideologia esportiva.

No Ocidente de hoje, é preciso buscar o fato político sob os muitos véus com que o cobre a Ordem Social. Se no passado as ideias políticas (humanistas) de liberdade e igualdade serviram, como valores universais, para a ascensão de uma classe (a burguesia) em luta contra a aristocracia, hoje as mesmas ideias empalidecem para que ganhe força uma nova, muito mais vital à etapa presente da produção monopolística: a ideia universal do consumo de bens. Na chamada sociedade de consumo, impõe-se o apagamento da função política, da qual o cidadão tende efetivamente a desinteressar-se, em nível manifesto. Mas quando se retorna o antigo conceito aristotélico de política, vê-se que o homem contemporâneo continua sendo o velho zoo politikon (animal político), na medida em que seus atos fundamentais permanecem ligados à sua posição contraditória no interior da Polis. Como na neurose mística, onde o desejo disfarça a sua presença, a política está sempre presente no universo mítico do consumo, e é uma política de discriminação de classes e de preservação do sistema atuante. Assim, o fato político pode ser hoje encontrado, por deslocamento, em outros lugares, outras coisas, explodindo sobas máscaras e os véus.

O jogo e o teatro

Estabelecidos os dois pontos preliminares, podemos começar observando que o futebol, mais do que mero esporte, tende hoje a transformar-se num grande espetáculo de massa. No caso brasileiro, ele se afigura, sob o véu da classificação esportiva, como uma prática política teatralizada. Existe, claro, um lado esportivo inconteste, já que uma partida de futebol se baseia na prova de qualidades físicas ou de destreza com a bola, sendo incerto, no início do jogo, o seu resultado. O jogo tem um sentido ritualístico (a exceção das mesmas regras), mas com uma taxa elevada de informação, contida na surpresa quanto ao afrontamento físico dos atletas. Por outro lado, a profissionalização do jogador permite-lhe converter-se num especialista em sua função, capaz de constituir, por si só, um espetáculo. O grande show, entretanto, é criado pelo o que se poderia chamar de circunstâncias do futebol. Esta expressão abrange os jogadores, os juízes, os comentaristas e, principalmente, o próprio público. No espetáculo futebolístico, o torcedor é espectador e ator ao mesmo tempo. Espectador, porque não participa fisicamente do que se passa no campo. Ator, porque a «torcida» (a discussão acalorada, o arrebatamento, enfim a maneira como o espectador desempenha o seu papel) faz parte necessária do show.

Esta aproximação entre o descontraído futebol e o tão elaborado teatro não é absolutamente arbitrária. Brecht encarava a diversão ou a recreação como as funções mais gerais do espetáculo teatral. Teatro, para ele, tanto o antigo como o moderno, não é mais do que a produção de «representações vivas de fatos humanos urdidos ou inventados, com o fim de divertir». Até a famosa catharsis (efeito de purificação através do horror ou da piedade) que hoje nos parece tão grave, tinha um propósito divertido na tragédia grega. O teatro tem relações estreitas com a brincadeira e o jogo. Freud chega a observar que as crianças brincam de adultos, e os adultos, no teatro, através do fenômeno da identificação, são heróis imaginários, de brincadeira, que se poupam das vicissitudes do herói de verdade. Em O declínio da idade Média, nota Johan Huizinga que os fatos esportivos «sempre e por toda parte contiveram um elemento dramático e um elemento erótico». Explica: «Nos torneios medievais, estes dois elementos eram de tal modo dominantes que o seu caráter de competição, de força e de coragem quase tinha sido obliterado em favor do seu conteúdo romântico. Com seus bizarros ornamentos e a pomposa representação, a sua poética ilusão e veemência equivalia-se ao drama de épocas ulteriores».

Efetivamente, no final da Idade Média, a arte dramática era predominantemente sacra, não satisfazendo a fantasias da época (as ideias do amor cortês, da Cavalaria, etc.) que ficavam expressas nas justas de cavaleiros. Hoje também o futebol se investe da expressão de determinadas fantasias populares que não encontram representação nas formas artísticas ou paraartíticas contemporâneas. O jogo da bola pode afigurar-se, assim, como um lugar de representações sociais afetadas por valores que circulam no campo ideológico das diferentes classes na formação social brasileira. O conceito (econômico) freudiano de investimento pode ser aqui hipoteticamente invocado para melhor compreender o fenômeno. O futebol, enquanto forma privilegiada da relação social esportiva no Brasil seria investido por produções significativas diversas do corpo social nativo. Se no teatro falamos de catharsis, no futebol conviria falar de cathexis. A hipótese pode tornar-se mais explícita se considerarmos a questão da mobilização de uma determinada quantidade de energia psíquica, no indivíduo, pelo sintoma. Por exemplo, a substituição inadequada do objeto sexual (capaz de gerar um sintoma do tipo perverso-fetichista) tem como base de alteração uma energia específica, a libido. O que sugerimos como hipótese é a existência (lógica) de uma energia psíquica grupal, regulada por um princípio de constância histórico, capaz de explicar determinadas mudanças de interesses ou de aspirações coletivas, por substituição do objeto.

Assim, o futebol seria um «objeto» deslocado (à maneira de uma encenação teatral) de tendências político-sociais frustradas.

Na instituição do jogo da bola, o torcedor faz, como o espectador de teatro, a economia de um esforço – a ação física, o risco atlético real.1

Ao contrário do teatro, o que se passa em campo durante o jogo não é imaginário: uma partida não tem enredo. Mas seus personagens representam2. Uma história se teatraliza inconscientemente a partir da ação, que transcorre não apenas em campo, mas também, vale repetir dentro do que chamamos de circunstâncias do futebol. Na forma em que estas se dão, reproduzem-se imaginariamente, por investimento, aquelas «representações vivas de fatos humanos», de que fala Brecht. Nessa reprodução investida, plena de mitos políticos, projeta-se uma visão ideológica fantasmática – uma formação imaginária – do funcionamento social.

Assim como no teatro e na encenação psíquica da fantasia, o futebol acena com um ideal do eu para mobilizar os mecanismos de identificação do espectador. Trata-se do ideal atlético, do homem de físico perfeito (Pelé em campo já foi comparado a Apolo) que corre o campo inteiro durante o jogo, ou de físico não tão perfeito, mas com senso de orientação, garra, jeito para a bola. Por outro lado, a exemplo da prática política, o futebol assimila o real já dado na sociedade, reforçando ou retraduzindo determinados sentidos mantidos pela Ordem Social. Ele faz, a seu modo, uma «representação viva de fatos humanos». A uma política do corpo junta-se uma visão política do comportamento social.

Mas essa política corresponde a um comportamento social que chamaremos aqui de pré-capitalista. Sabe-se que uma sociedade ou uma formação social específica dificilmente se deixa caracterizar pela existência de um único modo de produção. A produção industrial capitalista pode coexistir com uma produção agrária de tipo feudal. Da mesma forma, o modo de produção capitalista pode contar, em certos setores, com forças produtivas (entendidas como forma de organização do processo material de trabalho) remanescentes de um modo de produção anterior – no Nordeste brasileiro, ainda é visível a coexistência de diferentes modos de produção. O importante a se destacar, porém, é que também no plano das representações ideológicas convivem formações correspondentes a modos de produção diferentes. O Carnaval do Rio de Janeiro é um bom exemplo. Embora sendo hoje um grande espetáculo de massa dirigido por órgãos o0ficiais e organizações turísticas, simula ser o mesmo rito comunitário, espontâneo, de antigamente, preservando imaginariamente a imagem de um Brasil abolido3.

Com o futebol acontece algo semelhante: a lógica interna da instituição do jogo da bola corresponde a um modo (que chamaremos hipoteticamente de «feudal» anterior ao modo de produção característico do Brasil urbano pós 1930). Para efeitos comparativos, recorde-se o funcionamento de uma corporação de tipo medievalista, como a dos antigos alfaiates ou sapateiros: o aprendiz, o artesão, não dispunham de um espaço «livre» para vender o seu trabalho. Faziam parte – assim como os acessórios integram uma propriedade – do sistema corporativo artesanal (a venda «livre» do trabalho só se verifica no âmbito do modo de produção capitalista). Em compensação, o sistema atribuía ao seu trabalho um valor ideológico (o reconhecimento da criatividade pessoal, do momento único e irreversível da criação artesanal), acima do fato puramente econômico. É que, na produção antiga, a riqueza (bens produzidos) não tinha um fim em si mesma, implicando também desenvolvimento da personalidade do indivíduo, do trabalhador. Na produção artesanal, o produto surgia como um desenvolvimento da individualidade do artesão livre. Este tinha um interesse pessoal na qualidade do que produzia, não estando dirigido para o lucro máximo, o lucro pelo lucro. Assim, o aperfeiçoamento individual do artesão impunha-se à ordem da produtividade ou à racionalização dos esforços comandada pela divisão social do trabalho.

A maestria ou a habilidade do jogador de futebol deve-se a seus próprios recursos pessoais, o que está em perfeita analogia com a propriedade dos instrumentos de produção por parte do trabalhador na forma que precede a produção capitalista. O jogador, da mesma maneira que o artesão, não poderia ser um escravo. Mas o jogador, como o artesão, praticamente pertence a uma instituição de tipo corporativo: o clube. Este prepara aprendizes (a escola de futebol, o time juvenil) e mantém com o jogador profissional uma relação de tipo feudal: o passe (termo equivalente a força de trabalho) é propriedade do clube. Isto significa que há um desiquilíbrio entre o fato econômico e o jurídico (com predomínio deste último) na relação de emprego entre jogador e o clube, indicativo de uma certa «feudalidade».

O passe livre, isto é, a liberdade de oferta da força de trabalho do jogador significaria muito provavelmente o fim do atual futebol profissional. Por quê? Em primeiro lugar, porque a introdução de relações de produção plenamente capitalistas desmantelaria a estrutura pré-capitalista do clube (acabando inclusive com os protetores de clubes, os mecenas). Em segundo, porque a transformação do clube em organização empresarial (consequência necessária da liberação da força de trabalho assalariada) teria de apoiar-se na ampliação do futebol como produto-espetáculo, para ser rentável. Isto parece muito duvidoso4 quando se observa o poder de concorrência de outras empresas de espetáculos, como a televisão. E isto implicaria certamente na liquidação dos investimentos (projetivos e identificatórios) acionados pela instituição do clube, os quais conferem o futebol o caráter dramático popular a que nos referimos. O gol já não poderia mais ser aquele clímax de uma ação bem sucedida, coroado por uma colossal sagração coletiva – exatamente como na formação social pré-capitalista sagrava-se a ação social produtiva.

Já na fase atual, o futebol exibe efeitos da contradição clube/empresa, na forma de aspectos «modernizadores». A modernização dos comentários jornalísticos é um bom exemplo. O velho comentarista agenciava a dinâmica da interação torcedor/jogador através de uma linguagem criativa, fortemente metafórica. Os novos jornalistas do esporte – gente que passou pe4la Universidade que pelo menos tende a utilizar uma linguagem universitária – procura utilizar um discurso unívoco, a chamada «objetividade jornalística». Um anúncio de programa radiofônico de futebol pode, assim, garantir como atração ao público que, em suas emissões, «bola não é caroço, campo não é tapete verde, juiz não é Sua Senhoria, time do Água Verde não é esquadrão hidro-esmeraldino».

O choque entre relações «feudais» e capitalistas configura a principal contradição interna do futebol – mas a contradição é a matriz da significação, como processo gerador da prática significante. É justamente esta contradição que serve, enquanto índice de unidade semiológica, para que uma Semiologia articulada com a História possa enxergar no futebol, além de um sentido «teatral», um lugar de transparência de alguns comportamentos de classe na formação social brasileira – e este é o aspecto político a que aludimos no início. Do ponto de vista metodológico, esta Semiologia tem de encontrar o seu próprio caminho, pois é obrigada a debruçar-se sobre substâncias de expressão pré-significativas (movimentos de multidão, roupagens, estandartes, cores, rituais, posturas, gestos etc.) e significativas (formas que tenham uma significação material imediatamente intuitível)5.

Acreditamos que esta perspectiva possa abrir caminho para um estudo do futebol (terreno fértil para qualquer pesquisador) como encenação imaginária de contato e mediação entre as classes sociais no Brasil. Essa encenação parece traduzir investimentos ideológicos correspondentes não apenas a posições de classe e de raça, mas também à posição do país como um todo. No início (nas primeiras três décadas deste século), o futebol funcionou basicamente como um rito discriminatório de classes. Era um privilégio de brancos ricos (possivelmente um comportamento de conciliação entre comerciantes, latifundiários e elementos estrangeiros), que excluía os nativos pobres, daí o problema racial historiado por Mário Filho em O Negro do Futebol Brasileiro. Mas, a partir do final da década de 20, o mercado interno emerge como principal centro dinâmico da economia brasileira, reavaliando consequentemente os estratos médios da grande formação social urbana. O futebol – por razões que pedem um estudo elucidativo6 – capitalizou aspectos de uma ideologia populista difusa nos quais se misturavam anseios de entretenimento com aspirações de ascensão social. Nesse quadro social, o jogador de futebol profissionaliza-se e «escurece», ou seja, assimila mulatos e negros, os grandes constituintes das classes pobres. Desse modo, produzia-se através do jogo um mito (uma significação) de ajustamento e identidade ao nível da nação, das classes e das raças.

Quanto ao aspecto da identidade nacional, percebe-se que o nosso futebol joga sempre com uma essência, uma ideia permanente do homem, que poderia ser resumida no ditado: «brasileiro já nasce feito pra quebrar galho e dar um jeito» Lida-se aqui com o famoso mito da esperteza do elemento nacional. Este mito faz crer que dificilmente se encontra alguém mais malicioso, mais inventivo que o brasileiro, supostamente capaz de superar qualquer situação difícil. Quanto mais inferiorizado pareça, maior será a sua vitória. Existe a respeito uma frase exemplar de Mário Filho: «Time brasileiro só mostra realmente o que vale quando entra em campo inferiorizado, cedendo as honras de favorito ao adversário». Depois da Copa do Mundo de 1974, houve inúmeras cartas de leitores a jornais, repudiando o «futebol-solidariedade» ou o «futebol-carrosel» (como característico dos europeus), para assinalar que futebol é «muito mais criatividade, habilidade pessoal e malícia, coisas que pouquíssimos europeus possuem7.

Modelos de identificação

Entram também no jogo as modulações de comportamentos de classe. Assim como o santo representa para a comunidade religiosa um modelo de virtude, o jogador representa, para o seu público, uma espécie de modelo de potência social, capaz de traduzir o momento psicossocial de uma classe. Comparem-se, por exemplo, as reações de comportamentos, muitos diversos, de Pelé e Paulo César. Pelé era o rei não apenas porque fosse o melhor com a bola, mas também porque era aquele que sabia ser grato, que reinvestia bem o seu dinheiro, que não exibia à toa os bens acumulados (Pelé, aliás, teria sido um dos primeiro a prever que a desorganização administrativa dos clubes, isto é, sua inadaptação à lógica empresarial, acabaria levando-os à falência). Paulo César, ao contrário, foi o que se entregou à euforia consumista tipo nouveau-riche, mostrando suas vistosas aquisições, às vezes agressivamente. Pôde assim representar momentaneamente um modelo indesejável, apocalíptico, diante de Pelé.

Pelé é um «modelo» especialíssimo. Nele, pode-se «ler» muitos dos aspectos contraditórios da situação do negro brasileiro, na medida em que o «rei» representou claramente um padrão de comportamento ascensional. Ele próprio afirmou várias vezes que há «muitos Pelés» no Brasil. Ser Pelé significa estar dotado de um arsenal fantástico de recursos pessoais (miticamente presente como uma virtualidade em todo elemento nacional), canalizá-lo para uma tarefa produtiva dentro dos cânones admitidos e ascender socialmente (ficar rico)8. Deste modo, um negro pode «embranquecer». Não ´´e de admirar, portanto, que Pelé tenha podido registrar seu filho como branco (nome do filho: Edson Colby; nome da filha: Cristina Kelly), sem que com isso se deva classifica-lo como racista. Um filho branco significa a possibilidade de um filho menos dominado ao nível das relações sociais.

Os modelos de identificação variam, assim como os seus efeitos. O fato é que os exemplos se multiplicam, e talvez seja mesmo possível estabelecer uma tipologia psicossocial de jogadores: Gerson, o bom «gerente» de jogo; Rivelino, o de chute e temperamento explosivos; Almir (já morto), «catimbeiro» e briguento; Marinho, um «garoto de Ipanema» em campo; Fio, o que era só simpatia, e assim por diante. A tipologia poderia estender-se a «atores» não-atléticos. Por que Armando Marques se destaca tanto? Porque não é apenas juiz em campo, mas basicamente um personagem emotivo, de gestos enfáticos, plenos de significados. Também os comentaristas, os torcedores, preenchem os mais variados papéis.

Uma epopeia nacional

Se os campeonatos locais ou regionais são vividos ao nível das emoções «partidárias», uma Copa do Mundo é sentida como uma epopeia, cujos heróis consubstanciam valores pátrios. A memória da Copa de 74 é bem recente para que se possa avaliar o quanto a seleção brasileira absorveu da atmosfera político-social da época. De fato, Zagalo absolutizou a palavra técnico (sem levar em conta a tradicional teatralidade política da função) e terminou caindo na tecnocracia, que é uma espécie de delírio paranoico da classe média. Ao invés da antropofágica «garra», do «bota para quebrar», ele impôs seus índices de produção, suas veleidades estratégicas. Fracassada a matemática da vitória, agarrou-se ao argumento (político) de que o quarto lugar era excelente. Os jogadores, por sua vez, caracterizaram-se pelo ascetismo (ficaram reclusos, sob vigilância, ao contrário das outras delegações) e pela obediência irrestrita a juízes nem sempre justos. Segundo o comentarista do programa João Saldanha, a Copa foi altamente discriminatória no que se refere ao tratamento dispensado aos competidores do Terceiro Mundo. Um exemplo: os árbitros eram extremamente condescendentes com os jogadores europeus e enérgicos acima do normal com os outros.

Seria, porém, um grande erro supor que a complexidade do futebol brasileiro possa cingir-se à conceituação de «um aparelho esportivo», algo capaz de reproduzir o tempo todo, de modo reflexivo, a ideologia ou o sistema de relações do poder dominante. Na realidade, o futebol deixa claro que ideologia implica verdadeiramente em formas de atuação das contradições nas relações de poder e que a ideologia popular pode afirmar-se, embora de maneira não-organizada, no movimento do drama futebolístico.

Por exemplo, em 16 de junho de 1950, o Brasil perdeu a Copa do Mundo para o Uruguai, no Maracanã. Este episódio ficaria sendo conhecido como o Dia da Vergonha. A história é sabida. Bigode, negro, bom de briga, figura principal no escrete brasileiro, tinha ordens para não reagir a nenhuma provocação dos uruguaios. Desmoralizado pelos gritos e empurrões de Obdúlio Varela, terminou recuando sempre diante das investidas de Gigghia, perigoso atacante uruguaio. O Brasil foi derrotado e, no velório nacional que se seguiu, lançou-se a culpa nos negros do escrete: quando não era Bigode, era o goleiro Barbosa. De lambuja, repetia-se o que a ideologia branca dominante sempre fizera significar para o negro – não passava de «sub-raça». Dizia-se que o país não iria para a frente enquanto dependesse do elemento negro.

Entretanto, em 16 de julho de 1952, dois anos depois da rumorosa derrota, os dois escretes voltaram a se encontrar. Foi então um negro, Eloy do Amparo, que restaurou os brios nacionais. Na primeira deixa, meteu o braço em Obdúlio Varela, que recuou assustado. Bigode, que estava na reserva, entrou em campo para também bater em Obdúlio. Nilton Santos arrematou com um chute em Gigghia, o autor do gol da vitória uruguaia em 50. E a seleção brasileira completou a revanche com uma vitória no marcador. «O Brasil se babou de gozo ao pé do rádio», conta Mário Filho, acrescentando que a recepção da volta foi «maior que a dos pracinhas quando voltaram da guerra».

Onde nesta história fragmentária, cheia de fatos aparentemente soltos, emerge uma resposta à ideologia dominante? No fato de brancos e negros do Brasil inteiro estarem solidários no sopapo de Ely. A revanche nacional fora obtida por um crioulo, através do futebol de um negro representava o Brasil. Também através do futebol, Baltazar, mulato-escuro, de cabelo enrolado, podia ser a Cabecinha de Ouro; Robson, o prestigiado jogador negro do Fluminense, podia pronunciar a incrível frase: «Eu já fui preto e sei o que é isto»; Garrincha, com uma perna muitos centímetros maior que a outra, podia contrariar a ideologia técnica do esporte e deixar os adversários, driblados, no chão – na Copa de 58, a Rússia, que acabava de surpreender o mundo com o Sputnik, não conseguiu programar a marcação de Garrincha. Ainda em 58, foi o branco e apolíneo Belini quem segurou a Taça da Vitória, mas foram Garrincha e Pelé os consagrados pela multidão. E Pelé recebeu o título de «rei».

Não se pode deixar de perceber que, no «teatro» do futebol, representa-se uma História do Brasil, onde, nas formas de exercício da luta pelo poder, o povo tem um lugar próprio, demarcado não pelas instituições efetivamente existentes, mas pelo Inconsciente Histórico nacional, constituído de ideologias abolidas pela ordem simbólica dominante. Essas ideologias remetem à nossa esquecida cultura negra, fonte simbólica não apenas do futebol, mas também de outras formações culturais brasileiras. Para apreender a sua dinâmica, é útil proceder a uma leitura semiótica de suas irrupções. Nos aspectos contraditórios dos modelos, encontram-se também matrizes de significação. Assim, o mesmo Pelé que serve de modelo ascensional branco para os negros exerce ao mesmo tempo uma forma incontestável do poder popular, ao indicar ao elemento preto as possibilidades de um orgulho e de uma soberania.

Se o futebol ainda investe de uma força extraordinária de celebração popular é porque continua perpassado pelas significações contraditórias de uma cena política imaginária. Em seus dias de festa, o Maracanã é o grande palco de um mito que busca, através do fato esportivo, uma resolução imaginária para aspectos de choque entre a comunidade e a sociedade, entre a nação e o Estado, entre país e o mundo, entre o homem e uma certa ideia cívica. Afirma Barthes que a eficácia do mito pode consistir na mais absoluta clareza: se o fato político é geralmente obscuro, nada mais claro que o fato esportivo, para a torcida. Se são complicadas para o homem comum as engrenagens de um aparelho de Estado como o Poder Judiciário, por exemplo, em campo se acha simplesmente visível, de apito na boca, a entidade da Justiça – que, no entanto, em caso de erro, pode ser contrajustiçada ali mesmo, ao vivo. É a possibilidade desse «no entanto» que ainda faz do futebol uma grande festa, o grande jogo cênico popular da formação urbana brasileira.

Assim, se a ideologia técnica do futebol de agora tenta impor jogadores assépticos, sem paixões, fotogênicos, oriundos da classe média branca, a torcida não se mexe, não aplaude, não vibra – espera por alguém como Geraldo (já falecido), sem discurso universitário, filho do subúrbio. É este o teatro do futebol.

Claro, o mito esportivo pode pretender que da esfericidade da bola, em sua ausência absoluta de arestas, da felicidade do gol, das bandeiras que levam as cores dos deuses afro-brasileiros, partam sugestões padronizadas de uma comunhão fantasiosa das riquezas ou de uma reconciliação imaginária de classes. A isto poderá realmente levar um futebol de significações congeladas nos modelos espetacularizantes ou «culturalistas» acionados pelo sistema da televisão. A regulamentação da profissão de jogador advém precisamente no instante em que o «espírito» da organização empresarial é «invocado» com insistência para o futebol e em que este se transforma num conteúdo cultural para a televisão educativa. Mas aí então já não era mais o jogo do futebol brasileiro. Pois que cultura de massa não se confunde com a cultura da massa.

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  1. Na verdade, todo esporte engendra uma identificação desse tipo. Georges Magname transcreve em seu livro Sociedade do Esporte (Ed. Perspectiva, 1969, p.85) o depoimento de uma testemunha de chegada vitoriosa do corredor tcheco Zatopek no estádio de Wembley, em 1948. “Zatopek arrastava o espectador na sua ronda triunfal a torturada. Se corria tão pesadamente, era porque carregava nos ombros todo o peso dos homens inumeráveis que podiam correr com ele, que queriam correr com ele. Corria com o peso informe e desajeitados dos espectadores, mas corria com suas vontades de vencer, com a prodigiosa soma das suas energias”.
  2. Não se representa apenas no teatro scricto sensu. A dinâmica fundamental de todo grupo social é a representação. Representar, explica o professor Emmanuel Carneiro Leão, é pôr. O quê? As vicissitudes de diferenciação que cada integrante do grupo (ou da comunidade) atravessa inconscientemente para constituir a sua consciência. No teatro, a comunidade se identifica coma as vicissitudes, com o andamento de sua diferenciação. Ator significa em grego aquele que responde (hypokritês). Responde a quê? As necessidades de representação dos momentos cruciais do desenvolvimento do grupo. Representar é responder à provocação de restituição da dinâmica constituinte do grupo. O sentido teatral que buscamos no jogo de futebol corresponde a uma dinâmica grupal verificável na formação social brasileira
  3. Fique claro que não arrolamos elementos “arcaicos” como opositivos a “modernos”. Recusamo-nos à descrição evolucionista por considerarmos que o elemento antigo se acha contido na nova estrutura como um pressuposto (lógico) abolido, aparecendo, como um sintoma, nas formações imaginárias de grupo.
  4. Depois da última Copa do Mundo, os cronistas do futebol têm insistido no tema da precariedade financeira dos clubes. Segundo eles, os déficits aumentam a cada mês, indicando claramente que os clubes estavam despreparados para arcar com os altos salários e com os “bichos” distribuídos aos jogadores. Esta situação evidencia a contradição entre o clube-como-corporação-agremiativa (cuja meta principal é o campeonato) e o clube-empresa, voltado para a produção rentável e para a racionalização de gestão financeira.
  5. Assim, uma pesquisa semiótica minuciosa poderá, como preliminar, metodológica, delimitar um certo número de sistemas de sinais: (1º) a palavra – trata-se de avaliar o uso da linguagem articulada tanto no estádio por parte do jogador e do público, quanto na imprensa esportiva; (2º) a gestualidade – tanto os sinais gestuais dos jogadores, dos árbitros, quanto os verdadeiros movimentos “cênicos” realizados pela torcida são pertinentes à análise; (3º) a máscara – aqui entrariam todos os sinais de aparência física dos atores futebolísticos: uniformes, estandartes, trajes particulares, barba, cabelo, etc.; (4º) o cenário – por este termo, entende-se aqui a determinação imaginária da ação no espaço e no tempo, para dar conta das circunstâncias da época e do lugar em que se desenrola o espetáculo futebolístico. Outros sistemas podem ser aventados para a análise detalhada, mas sempre articulados com um denominador comum, a sua unidade semiológica, localizada nos aspectos contraditórios da ordem produtiva futebolística.
  6. Poderíamos por exemplo, considerar a hipótese de que as normas do futebol reproduzem – de forma mais nítida ou mais marcante que os outros esportes – as regras de ascensão individual na moderna sociedade urbana. As figuras do tipo ataque/defesa, meta/gol, avanço/barreira, falta/penalidade etc. reproduziriam, com as naturais mediações, situações sociais que “pedem” um meio de representação no Brasil da primeira metade deste século.
  7. Didi, que já passou muitos anos na Europa como técnico de futebol, afirma: “O jogador brasileiro tem, além de habilidade, uma velocidade mental incomparável… O jogador brasileiro, normalmente, tem de decidir uma jogada com seus próprios conhecimentos e não com uma armação tática montada pelo treinador, bem ao contrário do que acontece na Europa. Lá os técnicos armam seus truques para um jogo, e o jogador obedece, mesmo não tendo tantas virtudes como o nosso” (Jornal do Brasil, 17-11-1974).
  8. O futebol é realmente vivido como o grande canal de ascensão social de negro no Brasil. Há a respeito uma história exemplar (contada por Ziraldo em O Pasquim da semana de 4/11 de julho de 1975): “… em Belo Horizonte, um amigo meu tem um filho de dez anos que joga um futebol de Pelé quando criança. Um craque lourinho e rico, que vai pro seu treino nos dente-de-leite no carro do papai. Mas, ele, como outros meninos de sua classe, tiveram que parar de treinar porque os crioulinhos e pardinhos e faveladinhos de pés de ouro que treinam com eles não fazem mais que desenvolver a seguinte conversa: “Escuta, aqui, ô bacana? Tu estás aqui pra tirar nosso pão, é? Você vai ser doutor, rapaz, vai ser bacana. Deixa isso pra gente, que é só aqui que pobre tem chance de ganhar “dinheiro””.

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra