Identidades fluidas em tempos líquidos: Aonde se apoiar?

Identidades fluidas em tempos líquidos: Aonde se apoiar?
Texto de William Gonçalves (2013)
Trabalho apresentado na disciplina Comunicação, Identidade e Práticas sócio-culturais – Mestrado Facom- Prof Dr. Márcio Guerra

… O futebol mostra aos olhares mais atentos, outras coisas que não estão na superfície social. Ficam camufladas pela áurea do esporte, as disputas por poder e riqueza, se é que da para separar, o jogo político, a fragilidade e os limites do Homem que tanto as pessoas teimam em não admitir, entre outras sublimes e infinitas nuances do comportamento humano, e que talvez digam muito mais do que é perceptível dentro das quatro linhas. O conceito de modernidade liquida apresentado por Bauman cabe bem neste contexto, onde a sociedade torna-se cada vez mais descentralizada e a identidade individual mais fluida e volátil…

…O que há de novo é a velocidade em que isso ocorre hoje. Atualmente, praticamente tudo é feito para expandir-se para além do local, inclusive o ser humano. No ocidente existe implicitamente um senso de que tudo que é bom pertence ao todo, tem de estar em toda parte, tem de ser conhecido e reconhecido, visto e na lógica do mercado, adorado e consumido. Como Canclin menciona, o consumo passa a balizar as relações sociais e a nortear as identidades, o sujeito deixa de ser cidadão para se tornar consumidor.

… O homem talvez tenha se tecido uma teia tão entrelaçada que ele próprio se prendeu… Uma servidão velada na qual a mão invisível do mercado regula tudo e trata de recompensar a quem mais faz por ele, ou seja, quanto mais o sujeito produz (lucro financeiro) maiores são suas chances de projeção…

… O espetáculo futebolístico, muito além do jogo, nos propicia um olhar distanciado. Lá não somos nós, são eles, os jogadores, os técnicos, os torcedores que comandam um mundo a parte, que na verdade é uma fração reduzida do real, uma espécie de amostragem. Ao comemorar um gol o jogador expressa muito mais que uma simples felicidade, ele coloca para fora o que faz parte de sua identidade, e ali o local se manifesta em meio às transmissões de tv, a especulação do mercado, e aos patrocinadores. A música cantada, a coreografia, o molejo, a sambadinha, representam a cultura, as raízes do esportista. Da mesma forma que o beijo para a câmera, a frase escrita na camisa que “manda um salve” para a comunidade, a oração.

… Sendo assim, como se destacar e ter visibilidade dentro das quatro linhas com tantos jogadores bons e também ávidos para serem conhecidos e reconhecidos? É através da proteção divina que se busca a ajuda para conseguir os objetivos. Para o atacante, o gol. Pra o goleiro, a defesa de um pênalti; para o desempregado um emprego; para o apostador, o prêmio. O agradecimento pela graça alcançada talvez venha do reconhecimento que a probabilidade para múltiplos atores, mas que a interseção divina faz a sorte escolher um lado, um currículo ou um bilhete. Mas surge aí outro problema, se Deus é por todos, como ele escolherá a quem ajudar?

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra