Mortos-vivos – O Diamate mais brilhante

Malabarista, artilheiro e líder, Leônidas da Silva foi o maior em sua época

Dagomir Marquezi

Quem inventou a bicicleta era um maluco. A bicicleta é a jogada mais suicida do futebol. O atacante quer marcar um gol de costas para as traves. A bola vem alta. O maluco salta mais de um metro de altua e sabe que na queda não terá defesa. Vai arriscar a espinha, a nuca, o cóccis, as costelas. Mesmo assim, ele salta.

Para todos os efeitos, quem inventou a bicicleta foi um maluco chamado Leônidas da Silva, vulgo “Diamante Negro”, “Homem Borracha”. Leônidas jurava que tinha apenas aperfeiçoada a jogada. Não importa.

Leônidas da Silva nasceu dia 6 de setembro de 1913 no número 38 da avenida Francisco Bicalho, Rio. Zona Norte. Era filho do seu Manoel, marinheiro português, com dona Maria, cozinheira. Aos nove anos, o pai morreu e Leônidas foi adotado pelos patrões de sua mãe. Desde o primário queria ser jogador de futebol, mas começou carreira como ajudante de mecânico na Light.

A partir de 1928, joga em diversos pequenos clubes de subúrbio do Rio. Aos 20 anos, vai para o Bonsucesso e pede de “luvas” dois ternos e uma calça de veludo. Começa a ganhar dinheiro de verdade. Muda-se para a Vila Isabel. Vira vizinho e companheiro de bar do compositor Noel Rosa.

Léo está com 19 anos e se mete em encrencas jogando pelo Bonsucesso. Na cidade de Santos é acusado de seduzir uma mulher rica e roubar seu colar. (A partir daí, a torcida o recebe com sempre com o grito de “devolve o colar!”). Ganha a fama de não levar nenhum desaforo para casa.

No Rio, troca de camisas rapidamente: Vasco da Gama, Botafogo, Flamengo. Como superstar, tem o direito de escolher para esposa a bela morena Lourdes, filha de um juiz de direito.

Na Copa da França, em 1938, o Homem Borracha vira celebridade. O Brasil chega em terceiro, mas Leônidas é o artilheiro, com 8 gols, Quatro deles foram marcados num épico 6 x 5 contra a Polônia. Chovia tanto que, durante um ataque, o “Bonde” prende a chuteira numa poça de lama. Nem vacila: marca seu último gol de meião.

No Brasil é recebido com desfile em carro aberto. Torna-se o primeiro jogador brasileiro a fazer merchandising. “Leônidas” vira marca de cigarro e relógio. Acima de tudo, “Diamante Negro vira um chocolate que até hoje continua líder de mercado.

Da glória à cadeia. Em 1941, descobre-se que Leônidas da Silva havia falsificado seu certificado militar. Fica preso 8 meses no quartel do Realengo.a

Eda cadeia à glória. Aos 29 anos, é transferido para o São Paulo. Vinte mil torcedores o recebem na estação do Brás. Estréia no dia 24 de Abril de 1942, no empate contra o Corinthians, fazendo o Pacaembu bater recorde de público – 74 078 pagantes. Seu último jogo é em janeiro de 1950. Tenta a carreira de técnico no próprio São Paulo. Não funciona. Se sai bem melhor como comentarista da rádio Jovem Pan.

A dura queda de Leônidas da Silva começa a aparecer na Alemanha, durante a cobertura da Copa de 1974. Sua memória falha no ar, ele interrompe seus comentários sem lembrar do que estava falando. Em 1993, os esquecimentos cada vez maiores revelam o mal de Alzheimer. Se, memória, Leônidas é internado numa clínica paga em São Paulo.

Às 16 horas de um sábado, 24 de janeiro de 2004, Leônidas deu o último suspiro de uma insuficiência respiratória. Desconhecido pelas novas gerações, sem registro em filme, o Diamante Negro está eternizado num verbete da Enciclopédia Britânica como o “Brazil’s first football hero”.

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra