Nelson Rodrigues e o mito do futebol

AUTOR: LUIZ ZANIN

FRAGMENTOS RETIRADOS DO TEXTO

“Por isso esses textos nos conduzem, a nós que não vivemos o trauma, para o centro da tragédia, que foi a perda da Copa realizada no Brasil. Para além do estilo (mas ele está sempre lá), a derrota para o Uruguai fornece a Nelson   a matriz através da qual ele usará o futebol como mediação para compreender o país e o homem brasileiro.” p. 2  e 3

“Nesse jogo cercado de mitos, existe um nunca comprovado – o tapa que o uruguaio Obdulio Varella teria dado no brasileiro Bigode, deixando-o desmoralizado para o resto do jogo. Alguns falam apenas em ameaça de tapa, um mero gesto de agressão. Intimidado, Bigode, que era o marcador de Gigghia, deixou-o penetrar na defesa brasileira e disparar no canto esquerdo baixo do goleiro Barbosa – outro bode expiatório da derrota. Ambos negros, aliás.” p.3

“Nelson não escreveu livro a respeito. Mas abordou o jogo em inúmeras crônicas. Mesmo porque essa partida seria expressão suprema de um dos seus conceitos mais famosos – o complexo de vira-latas do brasileiro. Seu sentimento de inferioridade e a humildade reverencial diante dos estrangeiros, seres que ele considera superiores. Na crônica que tem exatamente esse título, “Complexo de Vira-Latas”, (Manchete Esportiva, 31/05/1958), Nelson escreve: “Eis a verdade amigos:- desde 50 que nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. A derrota frente os uruguaios, na última batalha, ainda faz sofrer, na cara e na alma, qualquer brasileiro. Foi uma humilhação nacional que nada, absolutamente nada, pode curar” p.3

“Nelson tinha um pressuposto – o futebol brasileiro seria o melhor do mundo e venceria sempre que o complexo de vira-latas não prejudicasse seu desempenho. Nacionalista, traçava um raciocínio pendular entre o futebol e a nação brasileira como um todo. Papel essencial nessa equação, a seleção brasileira que ele, em expressão tornada lugar-comum batizou de “pátria de chuteiras”. A seleção seria a imagem do país em campo. Levaria para o gramado as nossas virtudes, mas também o tão temido “complexo”.

“Dependia apenas de ele deixar de ser “Narciso às avessas, que cospe em sua própria imagem”. Daí que as Copas do Mundo se transformassem em campos de batalha simbólicos, nos quais de quatro em quatro anos, se decidia uma questão nacional a ser formulada da seguinte maneira: como nos colocamos diante do mundo? Somos uma nação original e poderosa, ou uns vira-latas complexados, sem qualquer contribuição a dar à humanidade?”