Profissionalismo “marrom” do futebol e a imprensa paulista (1920-1930)

Autores: Walter Yamandu e Edivaldo Góis Júnior

Revista de História do Esporte.  Vol. 5, n.2, junho-dezembro 2012

 

O texto relata o processo histórico que determinou a profissionalização do futebol em São Paulo. Os autores deixam claro que tiveram como objetivo principal identificar como a mídia paulista se comportou diante da polêmica que se instaurou à época. Eles afirmam que identificaram como elementos que desencadearam o processo de profissionalização do futebol no Estado a disputa dos clubes pela formação de equipes mais fortes e competitivas e também pela ameaça de êxodo dos jogadores para o exterior. Essa última descoberta dos autores é um dos aspectos mais interessantes do texto, porque mostram que não é novidade a ida de atletas brasileiros para fora, em busca de melhores salários e condições de trabalho. “Coincidentemente o futebol brasileiro apresenta atualmente um problema parecido com um dos principais motivos que levou à sua profissionalização há oitenta anos, a saída dos melhores jogadores para diversos países no exterior”, afirmam os autores.

O texto recorre a Giulianotti (2002), que afirma que o futebol no final do Século XIX e início do XX privilegia o amadorismo. Geralmente o futebol era praticado pelas elites aristocráticas ou pela classe média urbana, que procuravam noções de identidade nacional através do jogo. Os autores recorreram a jornais da época para entender como se travava a discussão sobre amadorismo e profissionalismo no futebol paulista.

Também é citada a obra de Waldenyr Caldas, Pontapé Inicial: memória do futebol brasileiro, que revela que no Rio de Janeiro e em São Paulo já existiam entidades diferentes defendendo pontos de vista diferente. Os clubes elegantes relutavam a aceitar o profissionalismo, mas, ao mesmo tempo, havia um grupo que lutava pela extinção do chamado “profissionalismo marrom”, que significava o pagamento a jogadores de classes populares que tinham habilidade para o futebol para atuarem em clubes da elite.

Também o texto deixa claro que dirigentes e a elite brasileira eram quem mais lutava contra o profissionalismo e a postura da imprensa era favorável. O próprio Caldas, em seu livro, revela que jogadores brasileiros costumavam mudar o sobrenome para atuarem na Itália, Uruguai e Argentina. Os autores também se utilizam do livro Footballmania, de Leonardo Affonso Pereira, que fala deste interesse dos jogadores em atuar no exterior. “Pereira(2000) observa que já não era novidade a remuneração para os atletas do futebol. Exemplifica este evento com a descrição do caso do atleta Fausto, do Vasco da Gama. Ele decidiu abandonar a delegação do clube numa excursão pela Europa em troca de um contrato milionário. Este contexto despertou entre os jogadores daquela época um grande interesse em fazer o mesmo, como, por exemplo, Domingos da Guia, quando questionado se frente a uma proposta dessas trocaria o Vasco pela Espanha? Domingos respondeu que acabaria não voltando” (p.4).

Os autores do texto ainda afirmam que encontraram na pesquisa documental, livros da década de 30 que já tratavam da polêmica do profissionalismo x amadorismo. No livro de Floriano Correa (1937), Grandezas e misérias do nosso futebol, há o  relato do jogador Amilcar Barbuy, que anuncia sua ida para o exterior:

“Vou para a Itália. Cansei de ser amador no futebol onde essa condição há muito deixou de existir, maculada pelo regime hipócrita da gorjeta que os clubes dão aos seus jogadores, reservando-se para si o grosso das rendas. Os clubes enriquecem e eu não tenho nada. Vou para o país onde sabem remunerar a capacidade do jogador”. (p.127)

Ainda é citado no texto, recorrendo a Correa (1037), que, embora os clubes cariocas e paulistas se colocassem contra o profissionalismo, alegando que as equipes pertenciam à elite e não havia motivo para isso, o verdadeiro motivo era a tentativa de não onerar os custos para os times.

“E a proporção que futebol se desenvolve nas principais cidades do Brasil e seu público se fazia mais exigente, o processo da importação tomava vulto. Já não havia mais escrúpulo de bater os campos dos subúrbios. , as barreiras e as várzeas. O soccer deixava de ser privilégio exclusivo dos almofadinhas, dos meninos ricos, dos filhos dos ‘pais da pátria’ para ser jogado na totalidade pelos rapazes pobres.” (p.21).

Ainda é citado novamente o livro de Caldas, onde o autor afirma que os diretores de clubes, para manterem seu prestígio político, “contratavam” bons jogadores para que tivessem um equipe competitiva e, através das vitórias, conseguissem prestígio político nacional. O artigo chega a afirmar que esse foi o fator que determinou a popularização do futebol, com o que não concordamos. Ele pode ser um dos fatores, mas não o fator.

O texto revela que a conquista em 1923 do campeonato carioca, pelo Vasco da Gama, com um time de negros, mulatos e operários, significou uma humilhação para os times nobres.

“A partir da década de 1930, clubes passam a defender com o apoio da imprensa o profissionalismo como forma de romper com o profissionalismo “marrom” mais estruturado em meados dos anos de 1920. Caldas (1990) descreve que Antônio Gomes de Avelar, presidente do América Futebol Clube, em 1932, tornou pública a primeira atitude concreta a favor do profissionalismo. Juntaram-se a ele os presidentes do Fluminense, Bangu, Vasco da Gama defendendo a imediata profissionalização do atleta. O grupo conservador, representado pelo presidente da AMEA, Rivadávia Meyer, junto com os presidentes do Botafogo, São Cristovão e Flamengo, lutavam para manter o amadorismo” p.6

Liga Carioca de Football foi criada em janeiro de 1033, Fluminense, Vasco, Bangu e América constituem a primeira entidade esportiva profissional do Rio de Janeiro. Isso provocou, segundo os autores, um impacto imediato no futebol de São Paulo. No Rio, jogadores dos clubes que eram contra a profissionalização começaram a mudar para os profissionais e o Bangu ganha o título de 1933.

Nessa época, ainda segundo o texto, vários times formados em fábricas, como o Bangu, o Votorantim e o REgoli e Cia Ltda (mais tarde Juventus) começaram a oferecer gratificações e presentes aos jogadores como estímulo. Alguns ganhavam na fábrica e nos times. Mas, aos poucos, com o profissionalismo, passaram a se dedicar somente ao futebol. Os autores ainda contam que um dos jogadores que viveu essa realidade foi Garrincha, em 1949, quando era operário e jogava no time do Sport Club Pau Grande.

Ainda neste texto os autores recorrem a uma citação interessante de Hugo Lovisolo, no livro Saudoso futebol, futebol querido: a ideologia da denúncia.

“É bem possível que o esporte moderno não existisse se os jornais e os jornalistas o tivessem ignorado. As notícias e as matérias dos jornalistas sobre os esportes foram e são elementos constitutivos do jornalismo e do esporte moderno. Jornais, rádio, noticiários para cinemas, televisão e o próprio cinema, com rosário de filmes que focalizam os esportes, os esportistas e os torcedores, foram parceiros dos esportes ao longo dos últimos cem anos. (p.77)

Sobre o profissionalismo, a imprensa paulista se mostrou desconfiada.

“Somente quem se dispuser a lançar um olhar sereno e observador por tudo que se passa nos clubes e nas ligas de profissionais é que pode, debaixo da maior clareza, afirmar a absoluta impossibilidade do profissionalismo ser implantado nos nossos meios, principalmente se levarmos em conta uma série de observações bastante oportunas. O primeiro problema que se nos depara é a existência de um local, em que fossem realizados os encontros profissionais, pois, seria necessário que se dispusesse de um estádio bastante amplo onde pudesse ser agasalhada uma assistência numerosa que fosse suficiente e compensativa, quanto a sua renda, para serem cobertas as inúmeras despesas, que atingem a uma soma bastante considerável. Os jogos entre profissionais, para que conseguissem reunir um público relativamente numeroso era preciso que fossem tecnicamente infinitamente superior aos dos amadores, isto é, uma nítida melhoria do padrão do jogo” – Correio de São Paulo.

O texto ainda fala sobre uma discussão provocada, em 1926, pelo Club Athletico Paulistano, que defendia o amadorismo e combatia o profissionalismo “marrom”. “Entre os anos de 1926 e 1929, o campeonato paulista teve duas versões, uma em cada entidade. Em 1930 o torneio foi reunificado, mas com eminente profissionalização o Paulistano fechou o seu departamento de futebol”. P.9

A imprensa paulista, em princípio, se colocava a favor da manutenção do amadorismo.

“A partir dos anos de 1930 observa-se nos periódicos paulistas a ideia de que melhor o profissionalismo às claras, do que um amadorismo falso que possibilitava aos clubes pagamentos de remunerações menores. Este contexto criava as demandas necessárias para o êxodo de jogadores talentosos para o exterior, principalmente, para a Argentina e Europa. Quando se percebe que os melhores jogadores preferiam os salários profissionais, abriu-se a questão da necessidade de manutenção dos atletas em território nacional. Isto ocorre porque o futebol começava a ser visto como espetáculo”.