Racismo: Grafite dá sinal verde ao advogado para levar o caso às autoridades. Saulo Abreu viu pela TV e ordenou a ação

Duas decisões quase simultâneas tomadas enquanto São Paulo e Quilmes jogavam o segundo tempo no Morumbi, resultaram na prisão do argentino Leandro Desábato. De um lado, Grafite, sentindo-se humilhado e envergonhado, deu sinal verde aos advogados do clube para que fosse apresentada queixa contra o jogador. Do outro, a alta cúpula da Segurança do Estado, vendo as ofensas pela televisão, acionou o delegado Osvaldo Nico Gonçalves, que acompanhava a partida nos camarotes do estádio, para fazer o flagrante. Grafite deixou o campo, após ser expulso, pouco antes do intervalo, desolado. “Fui procurá-lo para saber o que tinha acontecido”, contou o advogado do São Paulo, José Carlos Ferreira Alves. “Ele estava arrasado, e falou: Quero levar essa história para frente porque estou me sentindo humilhado. Não agüento mais isso. Minha mulher está aqui no estádio, minha família está vendo o jogo.” Além da mulher de Grafite, Grace Kelly, a mãe, dona Ilma, estava no Morumbi.

Enquanto isso, o secretário estadual da Segurança Pública, Saulo Abreu, e o Delegado Geral da Polícia Civil, Marco Antônio Desgualdo, ambos são-paulinos, viam o jogo pela televisão. Quando a Rede Globo, durante o intervalo, repetiu diversas vezes as imagens das ofensas, os dois conversaram por telefone e decidiram entrar em contato com o delegado Nico, ordenando o flagrante. Os dois protagonistas da noite, Grafite e Desábato, deixaram o estádio por uma saída alternativa e foram ao 34º DP. Na delegacia, a sessão de depoimentos ao delegado Dejar Gomes Neto se arrastou até o início da manhã. O argentino chegou acompanhado do goleiro Pontirolli. Às 2 horas, chegaram o presidente do clube, Daniel Razzeto, acompanhado de outro dirigente e do técnico Gustavo Julio Alfaro. Pouco depois, também entraram o cônsul da Argentina em São Paulo, Norberto Vidal, e o vice-cônsul, Mariano Vergara, em busca de um acordo que encerrasse o conflito. “As leis do Brasil são muito severas no que diz respeito ao Brasil, mas não existe justificação para que ele siga no cárcere”, afirmou Vidal. As oitivas encerraram-se por volta das 6 horas. Desábato ficou então, sozinho, em uma pequena sala e recebeu apenas a visita do médico do clube, no final da manhã, para uma sessão de gelo na perna.