Racismo: Grafite: “Não pesei raça, religião…”

Menos de 24 horas depois de prestar queixa contra um argentino Desábato, por racismo, e enfrentar quatro horas de interrogatório policial no 34º Distrito Policial de Vila Sônia, Grafite encarou novo batalhão de perguntas. Agora da imprensa. Mais tranquilo e cin a cabeça fria, segundo ele mesmo, disse não ter arrependimento da sua atitude. Ao contrário, fazia força para demonstrar estar satisfeito e aliviado. “Tomei a providência cabíbel no meu direito de cidadão”, disse, ainda com semblante de assustado com tamanha repercussão do caso. “Um ato pessoal, pensado e não utilizado apenas por ele ser argentino. Não pesei raça, religião…”

Após ser expulso, ainda na primeira etapa do duelo entre São Paulo e Quilmes, anteontem, pela Taça Libertadores, Grafite dirigiu-se ao vestiário, irritado. Tomou banho e, sozinho, ficou algum tempo sentado, pensando. Chorava muito. Não admitia ter a dignidade afetada. Canelada, entrada dura, tudo bem. Mas a honra… O telefone tocou. Era o diretor de Futebol, Juvenal Juvêncio. O dirigente perguntou o acontecido e recomendou que ele manifestasse o que estava sentindo. Aconselhou procurar a Justiça, que estaria o apoiando. Dito e feito. O atacante resolveu acabar, ou ao menos tentar, minimizar os atos racistas no futebol. Entrou com a acusação.

E o atacante não vai mais se omitir quando sentir-se diminuído por outras pessoas. Independentemente da nacionalidade. “Pode ser jogador do Palmeiras, do Corinthians, não vou me calar. No Brasil este tipo de comportamento e raro e espero que não aconteça novamente.”

Grafite garante não estar querendo se promover, como sugerido no diário argentino Olé nesta quinta-feira. “Muito pelo contrário, quero apenas antecipar o fim desta onda de racismo. Espero que meu ato ajude a acabar com esse mal”, frisou. O exemplo vem de outro drama vivido. “Até outro dia não existia seqüestro de mãe de jogador (dona Ilma, sua mãe, foi uma das vítimas deste crime, recentemente).”

PERDÃO

Apesar de insultado, Grafite, quem diria, sentiu pena de Desábato. “Não penso em retirar a queixa, em mudar o depoimento, mas fiquei bastante chateado por vê-lo preso. Ele também tem família, filhos”, afirmou um atacante recém-casado com Grace Kelly e pai de três filhas, Maria Luiza, Ana Carolina e Cecília e bastante caseiro. “Porém, ele tem de pagar pelo ato.” Outra grande ironia. Antes de o jogo começar, o camisa 9 são-paulino disse algumas palavras ao oponente. “Disse boa sorte e vai com Deus.”

Na delegacia, Grafite não encontrou-se com Desábato. O técnico Gustavo Alfaro e um tradutor, entretanto, tentaram demovê-lo da idéia de prestar queixa. “Não teve conversa, eu estava decidido,” enfatizou. E se fosse o zagueiro? “Repito, estava decidido. Agora se ele vier me pedir desculpas, agora ou num futuro próximo, vou perdoá-lo numa boa. Só não podia deixar passar impune.”

No jogo do dia 16 de março, em Quilmes – empate por 2 a 2 com um gol seu -, Grafite já havia sido vítima de atos racistas por parte dos jogadores rivais. Aceitou pedido de desculpas no mesmo dia e acreditava ser situação apenas do calor da partida. Não acreditava existir isso entre jogadores. Hoje está consciente de que não. “É, depois que inventaram a desculpa, ficou fácil cometer erros.”

Nesta linha de raciocínio, explica o não arrependimento. “Se te falam, ô negão, vai, corre, é situação de jogo. Agora se te chamam de negão de m… duas vezes seguidas, já vira racismo. Por isso, minha decisão.”

REPRESÁLIAS?

Grafite não acredita em perseguição por parte dos torcedores argentinos. Garante, inclusive, voltar a jogar no país vizinho numa boa. Seja contra River Plate, Boca Juniors, Quilmes… “Quando tiver de ir até a Argentina, vou com a cabeça boa, encarar o duelo como uma decisão e pensando apenas em jogar futebol,” garantiu. A torcida não pode tentar agredi-lo? “Claro que a receptividade não vai ser muito boa. mas fora do campo a gente dá um jeito, o São Paulo esta sempre bem assessorado.” Entenda-se, protegido.

APOIO

Foram inúmeros os faxes recebidos pela assessoria de imprensa do São Paulo em manifestação de apoio ao atacante Grafite e repudiando a atitude impensada e insensata de Desábato. E não apenas de são-paulinos. foram notas assinadas por corintianos, palmeirenses, flamenguistas, vascaínos e de todos os cantos do País, de Norte a Sul. Gente simples, desconhecida, até celebridades e órgãos políticos. “Apoio e celebro a coragem do jogador Grafite em denunciar e prestar queixa contra Desábato…” é um trecho de uma destas mensagens, enviada pela Frente Parlamentar da igualdade Racial, da câmara dos deputados e do senado federal.

Fonte: Revista Placar, Jornal dos Esportes, Jornal do Brasil, Jornal o globo, Tribuna de Minas e Arquivo Pessoal Márcio Guerra